Coronavírus: o exterminador do consumismo

Quando os canais de Veneza amanheceram claros e cheios de peixes (até cisnes voltaram pra lá), pelo vazio da multidão costumeira de turistas na cidade, o mundo percebeu a bênção por trás do mal Covid-19 para a humanidade.

Os shoppings estão fechados e não há mais onde desfilar as roupas, sapatos e acessórios de grife, pois o que mais usamos são roupas confortáveis de ficar em casa e pantufas, chinelos ou pés sem sapatos. Somente o necessário. Pra quê tanto comprávamos? Consegue ver por qual ralo o seu dinheiro escorria?
As viagens adiadas, mantém o dinheiro à salvo – que não servirá nem mesmo para pagar o melhor atendimento médico particular, pois logo a saúde o dinheiro não poderá comprar. O dinheiro já não pode comprar quase nada, porque há pouco onde ir e onde mostrar, e é bom salvá-lo, porque não se sabe o que será da economia.
Falando em economia, de repente, se fez tão óbvio zerar os impostos para adquirir os produtos mais necessários para a saúde geral… algo que sempre deveria haver sido óbvio. Mais importante do que ganhar sobre a saúde, hoje, é preservá-la.
Com a economia forçada de combustíveis, a natureza está nos mostrando que seres são os que realmente parasitam o planeta. Estes dias, a NASA divulgou duas imagens de satélite comparativas, retratando a qualidade do ar na China, em 20 de janeiro e em 25 de fevereiro deste ano, detectando reduções drásticas de dióxido de nitrogênio sobre o país.

Os carros estiveram todos nas garagens primeiro na China e agora vão entrando de férias pelo mundo todo, poupando o ar de poluentes e as nossas narinas. Onde é que estávamos indo tanto que, pudemos deixar de ir sem estar nos custando a vida? Foi o fato de ficarem em casa, que salvou as vidas de muitos chineses e o fato de cada vez mais pessoas terem que ficar em casa, sem poder utilizar veículos é que está salvando a vida do nosso planeta e de nossas futuras gerações.
Falando sobre nossas narinas, nunca estivemos tão atentos a elas, ao que é importante e que entra por elas – o que não inclui os perfumes importados, mas os microorganismos que não fisgam o olfato. Está sendo mais agradável sentir cheiro de desinfetante no ar, ter água sanitária na despensa e ver nosso vizinho de banho tomado, do que sentir o perfume francês do namorado.

Enquanto a humanidade está sem consumir e poluir em quarentena, o planeta Terra se reequilibra!

Até os prazeres comestíveis estão mais modestos. Afinal, pra quê sair pra comprar 100 gramas de presunto se isso pode custar sua infecção e a vida da sua família! Há mais criatividade na cozinha. Com uma batata se faz uma canoa (recheada com patê) e a gente não sabia!
Mais importante do que preparar a sala para receber as visitas, é abrir espaço pra montar quebra-cabeças com a filha. Não dá pra se distrair mais comendo porcaria, melhor pensar na saúde e comer o que fortifica.
Quantos hábitos inúteis mantínhamos! Quanto desequilíbrio ambiental à toa causávamos! Lembro-me, com vergonha, das tantas vezes que usava o carro pra “tomar um café” ou “dar uma voltinha”. “É rapidinho. Pra quê ir à pé?” Agora faço exercícios nas escadas do prédio para poder usar as pernas. Usar as pernas é importantíssimo e ficou restrito a um espaço reduzido. Academia sempre foi luxo! A onda, agora, é ginástica no chão da sala.
Até mesmo as instituições escola e empresa estão em questão: vale a pena tanto tempo, custo e vida nessas guaridas? Parecia tão imprescindível levar os filhos para ficarem reclusos em outro lugar aprendendo tão pouco e tão torto tantas vezes. Parecia impossível fazer o trabalho do escritório em casa. Hoje, já se torna uma grande questão.
Pra amanhã, combinei com a minha filha do meio de fazermos ginástica na sala, pintarmos uma tela juntas e jogarmos xadrez. Estou animada para fazer esse monte de coisas em casa com ela, que eu nunca imaginaria que coubesse num único dia… quando a gente tira o que não importa, sobra tempo para a vida!
COVID-19 está nos ensinando qual é a real prosperidade, qual o real avanço para a humanidade!
Santo Coronavírus: o padroeiro dos consumistas perdidos!

CORONAVÍRUS: o descobridor (dos valores) dos 7 mares

Tirando quem ainda está ignorante sobre o grau de contaminação do coronavírus, observando as pessoas informadas, podemos ver seus valores
expostos.
O que é importante pra você? O modo como você está lidando com a pandemia, contanto que esteja devidamente informado do seu papel fundamental na contenção dela e saúde de todos, escancara o que você valoriza.
Há quem se importe em confortar os amigos e enviar forças mesmo que via aplicativo de mensagens instantâneas, há quem se revolte com as
sanções que está sofrendo sem sequer olhar à volta e estender a mão (simbolicamente, claro), para quem tem no entorno.
Há quem dê de ombros para a SAÚDE, ou porque não entendeu ainda que é a sua própria, porque não valoriza manter-se informado, porque dá de
ombros para o CONHECIMENTO, ou porque ainda está encerrado em seu fictício mundo INDIVIDUAL.
Se você é um egoísta velado, agora está exposto. Se é solidário, não será mais mal interpretado. A SOLIDARIEDADE está à luz de todos, assim
como a falta dela, ou a IGNORÂNCIA (que também é um valor, se você opta por continuar sem saber do necessário).
Com minha mãe no grupo de risco, por sua situação de saúde, descobri mais ainda quanto ela é importante pra mim e para os meus filhos.
Descobri o quanto o AMOR é CUIDADO.
Com meus amigos que estão se sentindo sozinhos, em quarentena do outro lado do mundo ou trabalhando em hospitais com devoção e medo, descobri
uma COMPAIXÃO genuína e admiração igual, pela batalha de cada um. Sinto-me convocada a apoiá-los, mesmo de longe, sinto o valor da AMIZADE.
O vírus de coroa mostra seu poder de rei ao despertar valores que estavam há muito tempo adormecidos. A SAÚDE importa mais que o DINHEIRO,
a CIÊNCIA importa mais que a religião, a FÉ na humanidade unida importa mais do que a OPOSIÇÃO.

A SEGURANÇA é usada para zelar pela saúde e não para combater outros humanos, porque o inimigo é desumano, literalmente, e não há como combatê-lo com a violência, mas com ESTUDO e HUMANIDADE.
Os interesses do INDIVIDUALISMO não duram mais que a vida do vírus no ar, e os governantes estão tendo que zerar impostos, dar bolsa-alimentação para os profissionais informais, ajudar outros países com pessoal de saúde, costurar máscaras em vez de itens supérfluos.
O mundo está aprendendo a valorizar o que é NECESSIDADE de verdade e o que é produção e CONSUMO CONSCIENTE.
Valorizo mais andar sob o sol, aqui mesmo, por entre os canteiros do meu condomínio, que agora estão tão perto e tão longe. Mas, reconheço meu privilégio de ter uma varanda, e agradeço a oportunidade de tomar sol sem sair de casa. Valorizo a minha MORADIA, mais do que antes, vendo pessoas sem teto totalmente expostas à pandemia. Valorizo a LIBERDADE de ir e vir, que já não posso ter mais, nessa necessidade de confinamento. Mas, agradeço ao meu TRABALHO, home office há anos, que não me trouxe adaptações urgentes, e me compadeço de quem tem que continuar a ir trabalhar.
Valorizo até não ter coisas que eu não tinha e agora estou tendo, como a DESPREOCUPAÇÃO, o ÓCIO mental. Agora há a constante preocupação em limpar o tempo todo tudo para não haver contaminação. E, se antes já admirava profundamente a profissão de lixeiro e faxineiro, hoje, valorizo ainda mais a LIMPEZA, porque dela depende a nossa SAÚDE.
Valorizo mais coisas que eu já tinha, como a PRESENÇA da minha FAMÍLIA. É muito bom estar muito com eles até a paciência acabar e termos que encontrar novas formas de se relacionar, de passar o tempo, de usar nossa CRIATIVIDADE.
Valorizo a PAZ mental que eu tinha mais e às vezes a perdia à toa. Como perdemos tempo e energia com o que não tem importância!
Valorizo a ATENÇÃO PLENA que estamos ganhando com essa mania de limpeza e fiscalização de hábitos. O motivo pra isso é duro, mas a lição é valiosa. Dou mais valor à VIDA com AMOR, sem tensões, sem enfrentamentos, solidária, DEMOCRÁTICA. A vida tem mostrado JUSTIÇA, distribuindo um vírus independente da situação econômica, credo, etnia. E, vejo eu que se não buscarmos ser mais justos, a natureza fabricará outra lição dolorida para aprendermos a sê-lo.
E você, a que tem dado mais valor? A que tem aprendido a desapegar? Como está vendo sua atitude nisso tudo? O que está te movendo? O que está movendo o mundo?

DESACELERAR para o tempo em que a VIDA ACONTECE

Se tem uma coisa que a gente aprende convivendo com gatos e cachorros, quando os amamos, é a relaxar. Uma das gatinhas sabe passar horas sob a sombra na relva daqui de casa, a cachorra adora ficar deitada na grama debaixo do carro e a outra gata quase não faz nada durante o dia pra ficar alerta a noite toda.

Eles relaxam, fazem o que o corpo pede, respondem ao ambiente externo ora se protegendo, ora relaxando, ora vigiando possíveis ameaças.

Gulosa adubando

Nós, humanos urbanos, permanecemos num estado de tensão constante, que não nos permite nem vigiar bem, nem perceber bem o que ocorre externamente, muito menos relaxar quando deveríamos.

Parece que se não corrermos seremos pegos ou mesmo dizimados. Mas a maior parte desses medos e ameaças é totalmente surreal, derivados de um passado que nos fez entrar no sistema corrente e que impregnou nosso modus operandi.

A vida na natureza é pacata, como o nome do tigre “preguiçoso” do He-Man. Na verdade, pacato quer dizer “que ou quem tem natureza ou índole não agitada ou não agressiva”, como primeiro significado.

Bom, tô escrevendo aqui para assumir que , infelizmente, não aprendi com os bichinhos, não como deveria. A Existência generosa me deu a oportunidade de conviver com eles para aprender, pois, como sempre, nos brinda com a chance de aprender pelo amor. Preferi a segunda opção: aprender pela dor. No meu caso, pela dor pela qual a maioria de nós tem mais apego: a dor no bolso.

Eu vim pra Serra da Cantareira em janeiro deste ano, depois de uma temporada de 2 anos em São Paulo,  e continuei a fazer correria. Correria para “dar conta da lista de afazeres diários”, correria para cobrar dos meus filhos que dessem conta dos afazeres diários deles. Correria para fazer almoço (o que resulta em comida ruim que ninguém quer, com razão). Correria para levar para a escola… e foi aí que eu me estrepei.

Não dá pra fazer correria em ruas de terra com rachaduras profundas se não se tem um carro alto e 4×4, mas eu fiz, ariana arriscadora que sou, e a vida, por aí, me ensinou. Seguem as lições que me ensinaram com dor (por opção minha) a desacelerar.

As estradas “lentas” de imagens eternas

1ª lição:

Atolamos eu e uma das minhas filhas num dia de chuva. Enchi-me de barro, enchi o carro de barro. Folhas e galhos sob a roda que jogava tudo pra trás e eu sentei cansada de tentar. De repente, avisto um carro descendo a rua com cuidado, ao passar por mim, o sujeito me disse: “moça, é perda de tempo tentar tirar o carro daí, por isso não vou nem te ajudar, por isso que eu não gosto de morar nesse lugar. Esse lugar é abandonado, ninguém cuida disso daqui. Chama o guincho, porque só ele pra tirar você desse lugar.” Eu, que estava sorrindo achando que ia receber ajuda, fiquei atônita e paralisada até ele sumir do meu olhar. Entrei no carro, olhei pra minha filha e falei: vou tirar esse carro daqui agora! (Ariana apressada e inconformada que sou). Coloquei uns tijolos baianos atrás da roda e saí. Ufa! Mas o pneu já era, levantou até linhas de nylon que eu nem sabia que existiam dentro dele. Dirigi até a borracharia rezando pro pneu não estourar, troquei pelo step e, dias depois, tive que adquirir dois pneus semi-novos. Primeira dor no bolso devido a correria.

Paisagens da volta da escola no pôr-do-sol

2ª lição:

Atrasada para a escola, pego a estrada após uns dias fortes de chuva e sinto aquela porrada de uma pedra sob o carro. Rodas intactas, nenhuma luz no painel. Sigo pra escola com aquele ronco alto da frente do carro. Na mecânica descubro: amassou o carter e quebrou o radiador. Segunda dor no bolso, mais dolorida, devido a correria.

3ª lição:

Um barulhinho incômodo que o carro já fazia, piorou. Vou pra mecânica e descubro: o cárter amassou mais e não dá pra desamassar, tem que substituir. Terceira dor no bolso, mais amena, devido a correria, hora de aprender, né?

“Quando você repete um erro, não é um erro novamente: é uma decisão.” Paulo Coelho

Fora as dores no bolso consecutivas, sofri e fiz sofrer dores no corpo e na alma, devido a correria pelo alto grau de exigência que eu estava impondo a mim e a meus filhos. Pela terceira segunda-feira consecutiva eu sentia tonturas, enjoo, sensação de que ia desmaiar. Era meu corpo no limite do estresse com seus altos níveis de cortisol que me pedia para desacelerar.

As formigas de casa ensinam que é passo-a-passo que grandes cargas podem ser carregadas

O encontro com aquele moço do dia do atolamento foi Providencial, como tudo na vida, e me fez pensar o quanto eu amo esse lugar, o quanto quero morar aqui e cuidar daqui. Mas demorei a chegar à conclusão de que se quero viver bem aqui, tenho que respeitar as estradas de terra, com o tempo que levam para serem atravessadas sem dor, que é o tempo que nos permite que observemos as borboletas que nos cruzam na estrada, de todas as cores, tamanhos, danças e sons (sim!, porque aqui temos estaladeiras), que é o tempo que nos permitiu parar para ver o rio que nos alinha em parte do caminho e que deixa a estrada sempre molhada, que é o tempo que nos permite descobrirmos pássaros, esquilos, macacos ou outros habitantes da serra.

Lembrei de uma lição de Chico Xavier de que havia esquecido, (porque achava que não era pra mim, que não me considerava urbana por achar que saí de São Paulo… mas não deixava São Paulo sair de mim). Ele dizia que os engarrafamentos das grandes cidades surgiram para que as pessoas aprendessem a parar, já que correndo demais nos perdemos de nós mesmos e do nosso propósito dessa existência.

A glória de ser porto da transformação

Mas só mudei de atitude mesmo depois da

4ª lição:

No dia em que minha mais nova, a mais espuleta e impávida dos três, ficou com febre e dor de cabeça de madrugada e me deu um medo tremendo de que fosse algo grave, que eu finalmente decidi reduzir a marcha. Fiquei cuidando dela de madrugada e enxerguei a obviedade de que apenas estarmos vivos e com saúde já era o mais maravilhoso presente de Deus na nossa vida. Olhei mentalmente para cada um dos meus filhos verifiquei o quanto são seres maravilhosos, o quanto são as pessoas mais especiais que conheço, o quanto é um presente excepcional ter a oportunidade de conviver com cada um, o quanto a vibração deles me oferta um patamar bem acima do mundo em que vivemos e o quanto era tudo pra mim poder viver nessa vibração. Em suma, refleti sobre o que era mais importante na nossa vida e que eu estava deixando passar.

Estava correndo tanto que tanto eu quanto ela estávamos ficando doente. Estava correndo tanto, que estava perdendo o tempo de abraçar demoradamente (aqueles mais de 20 segundos que fazem curar), estava correndo tanto que não estava mais perdendo tempo com os risos que estavam muito escassos no meu rosto ultimamente.

Decidi estar mais presente, acompanhando cada afazer com o tempo que lhe competia e com foco, decidi diminuir meu grau de exigência comigo mesma e minha lista de coisas a cumprir e decidi acompanhá-los nas tarefas deles até que se torne um hábito natural para cada um.*

Decidi, por fim, sairmos bem antes para irmos à escola sem tensão, sem dores no bolso e aproveitando a oportunidade de contemplarmos juntos a Cantareira cheia de vida e encantos que é o nosso novo lar.

*Na minha concepção, que se alinham às pedagogias Waldorf e Montessori, as crianças devem participar dos afazeres domésticos na medida da capacidade deles, e assistidos com paciência para aprenderem com satisfação, mas também devem ter o tempo sagrado do brincar livre respeitado. Mas como o excesso de exigências estavam interrompendo a presença, as coisas não estavam alinhadas ao que tenho fé.

“É nos momentos de decisão que o seu destino é traçado.” Anthony Robbins

Por que queremos a atenção dos outros?

Lembre-se, atenção é uma necessidade psicológica. Isso precisa ser entendido. Por que as pessoas precisam de tanta atenção? Por que, em primeiro lugar, todos querem que os outros prestem atenção neles? Por que todos querem ser especiais? Alguma coisa está faltando dentro deles. Você não sabe quem você é. Você conhece a si próprio apenas através do reconhecimento de outros. Você não tem nenhum acesso direto a si mesmo. Você vai pelos outros.

Se alguém diz que você é bom, você se sente bom; se alguém diz que você não é bom, você se sente muito, muito deprimido – então você não é bom! Se alguém diz que você é bonito, você fica feliz; se alguém diz que você é desagradável, você se torna infeliz. Você não sabe quem você é. Você simplesmente vive a partir de opiniões de outros, você segue colecionando opiniões. Você não tem nenhum reconhecimento – direto, imediato – do seu ser. Eis por que você pega um “eu” emprestado. Daí o seu anseio por de atenção.

E quando as pessoas estão atentas a você, você sente como se estivesse sendo amado, porque quando em amor, nós damos atenção um ao outro.

O amor é atencioso – e todo mundo tem sentido falta de amor. Raríssimas pessoas alcançaram a experiência do amor, porque amor é presença espiritual. Milhões de pessoas vivem sem amor porque milhões de pessoas vivem sem espiritualidade. Esqueceram do amor. Como substituir essa lacuna? O substituto mais fácil é angariar atenção de pessoas. Isso irá enganar você, irá te trapacear, dando a impressão de que eles te amam.

Buda é amor absoluto. Ele amou a existência e a existência o amou. Isso é o samadhi: quando você está em relacionamento “orgásmico” com o “todo”. Buda conheceu o “orgasmo pleno” – o orgasmo que não é do corpo e também não é da mente, mas da totalidade; não parcial. Ele veio a conhecer este êxtase. Nesse estado, não há necessidade de pedir nenhuma atenção, de ninguém.

Osho

The Diamond Sutra

Crítica construtiva não existe

Artigo de Tony Schwartz traduzido por Miguel Nisembaum do Blog Harvard Business Review

Aí vai aquela pergunta que é garantia de frio na barriga – “ Você se importa se eu te der feedback?” O que isso quer dizer na verdade é – “Você se importa se eu te der um feedback negativo, disfarçado na forma de crítica construtiva, queira você ou não?”. O problema com o criticismo é que desafia nosso senso de valor. Criticismo implica juízo de valor e todos nós nos sentimos julgados. Como Daniel Goleman pontuou, ameaça nossa estima aos olhos de outros e são tão potentes que podemos literalmente sentir que nossa sobrevivência esta ameaçada.

A questão é que feedback é necessário. É um dos meios primários pelo qual aprendemos e crescemos. Então qual seria a melhora forma de fazer com que realmente tenha valor – ou seja que o receptor realmente absorva e aja?

Existem três comportamentos chave, creio eu, e estão embasados no reconhecimento de que o que dizemos é frequentemente menos importante do como dizemos.

1. O primeiro erro que fazemos é dar feedback quando nossos próprios valores estão em risco. É uma receita para o desastre, e é algo que é mais comum do que pensamos ou que estejamos cientes.

Se nos sentimos ameaçados ou diminuídos pela falhas percebidas por aqueles que provêem a “crítica construtiva”, se torna secundário absorver o valor daquilo. Estaremos mais propensos a reagir de forma insensível é até dolorosa.

Se for sobre nós, não é necessariamente sobre eles. Toda vez que damos feedback com o objetivo de fazer com que alguém se adéqüe as nossas necessidades, ao invés de ser receptivo as deles, é pouco provável que tenhamos o resultado desejado.

Exemplo clássico é o pai que confunde seu próprio valor com a performance de seus filhos, e reage aos erros do filho com crueldade e julgamento ao invés de sensibilidade e compaixão.

2. O Segundo erro que fazemos ao dar feedback é a falha de não incluir os valores da pessoa no processo. Até o mais bem intencionado dos criticismos, nos deixará com a sensação que nossos valores estão em risco e sendo atacados.

O que acontece é que o primeiro impulso é nos defendermos. O quão mais a pessoa criticada se sentir compelida a defender seus valores, será menos capaz de absorver o que está escutando.

Eu já tive um funcionário que era muito competente e detalhista e raramente cometia erros. Isso vinha parcialmente de seu perfeccionismo feroz e seu enorme medo das conseqüências de estar equivocado.

Seu instinto automático era negar responsabilidade para qualquer erro. Quando eu precisava chamar a atenção, aprendi que era crucial começar reafirmando o quanto eu me importava e confiava nas capacidades dela. Só assim ela verdadeiramente ouvia o que eu estava dizendo.

Quando você estiver inclinado a oferecer um feedback especifico , pause e pergunte-se como você se sentiria se alguém lhe desse esse mesmo feedback. Se você se sentiria desconfortável ou defensivo, saiba que qualquer um sentiria o mesmo.

3. O terceiro erro é assumir que estamos certos sobre seja lá o que vamos dizer. Como os advogados nós pegamos uma série de fatos e somamos tudo em uma história que apóie e justifique o que queremos defender.

O problema é que nossas histórias não necessariamente são a verdade. São simplesmente uma das interpretações dos fatos. Faz muito mais sentido oferecer o feedback no sentido de elucidação do que uma declaração, diálogos e não monólogos, curiosidade ao invés de certeza. Humildade é reconhecer que não sabemos mesmo quando pensamos saber.

E concluindo pense que deveríamos eliminar conceitos como “feedback” e “Críticas construtivas” de nosso vocabulário. Eles são polarizados e na maioria das vezes destrutivos. Precisamos pensar neste intercâmbio como forma de questionamento honesto e aprendizado genuíno.

“Isto é o que eu entendo sobre o que ocorreu, eu entendi corretamente, existe algum ponto que não esteja vendo?”

Isso é exatamente o que eu pretendo dizer a próximas vezes que eu pensar em dizer a alguém “ Você se importa se eu te der um feedback?”

Fonte original: http://blogs.hbr.org/schwartz/2011/11/theres-no-such-thing-as-constr.html

Você come mais emoções que as sente e nem se deu conta disso

Nós já estamos na era em que as emoções mediatizadas suplantam as emoções reais. É o que constato eu, aqui, na megalópole. Pelo menos quanto ao tempo linear, passamos  mais tempo vivenciando emoções através da mídia que através de experiências nossas, presenciais.

A cada dia que passa, vejo o quanto já estamos vivenciando o way of life do filme Wall-E (Disney/Pixar 2008). No filme, após entulhar a Terra de lixo e poluir a atmosfera com gases tóxicos, a humanidade deixou o planeta e passou a viver em uma gigantesca nave, onde os seres humanos se tornaram apenas consumidores e não apenas de bens e alimentos, mas de experiências mediatizadas, de emoções, estando incapazes de viver experiências de um pra um ou coletivamente com interação presencial, experiências reais, físicas, presentes, como olhar nos olhos, conversar pessoalmente, trocar carícias, multiplicar-se inclusive, ou seja: fadados a extinção.

Consumidores solitários e inconscientes, autodestrutivos.

O filme mostra que nosso descaso com o planeta em que vivemos cresce na mesma medida em que cresce a nossa incapacidade de presença, amparada pelo abuso do uso da tecnologia. Quando as chamadas relações primárias se extinguem, aquelas em que precisamos estar juntos no mesmo tempo e espaço, toda a Humanidade se extingue também.

Estamos como no filme: nunca tivemos tanta informação e nunca tivemos tão pouco tempo e espaço para aplicar o que agregamos de conhecimento, tão pouco tempo e espaço para vivenciar com corpo, mente e espírito, porque criamos um sistema de vida em que a própria vida integral é banida. Pelo contrário, o excesso de conhecimento é uma forma de sabotagem tanto dos que querem o controle das mentes, quanto de nós para conosco. Isso porque o mero conhecimento do funcionamento das coisas não nos torna livre delas, precisamos agir de acordo com aquilo que sabemos, precisamos aplicar na prática.

Da mesma forma que nem todas as pessoas separem seu lixo para a reciclagem, a maioria não separa suas emoções para estudá-las e verificar o que serve e o que deve ser reciclado, preferem engoli-las com refrigerante e pipoca na frente do telão, ou devorá-las consumidos pelo feed farto de emoções seguras.

Consumimos emoções através das telas, dos vídeos com narrativas que conectam com nosso coração carente de experiências reais. Lembro-me de uma entrevista da atriz Ana Paula Arósio sobre como foi interpretar uma protagonista do clássico Os Maias numa minissérie televisiva, ao que ela respondeu “eu senti a tragédia de não ter uma tragédia”.

Ficamos cada um em uma tela dentro de casa, emocionados com os personagens das historinhas dos vídeos que vem por whatsapp, ou pelo feed da rede social, ou até pela antígona TV que se adapta a cada dia às narrativas midiáticas, mas não conversamos com nosso neto, filha, irmão, pai, mãe que está ali, bem ao nosso lado, compartilhando o mesmo sofá ou a mesma mesa de jantar.

Viver uma narrativa como aquela que está ali perfeita na nossa portabilidade, cheia de significados, com quem está presente (e é aquela pessoa real, cheia de imprevisibilidades), é extremamente difícil. A narrativa pronta é bem mais confortável, segura, garantida. Pra quê correr o risco de viver de verdade,não é mesmo? Certamente, a que está à mão irá satisfazer a nossa necessidade de consumo emocional, já a real, irá lidar com nossas reações e presença, algo muito mais trabalhoso e desafiador, mas muito mais verdadeiro e engrandecedor. 

Consumo. Essa é a palavra. Consumimos emoções, consumimos histórias, consumimos identificações. Seja numa tela, ou num copo de vanilla latte, cinnamon latte, ou o luxo de emoções do momento, oferecidas em forma líquida e doce, portátil, fácil e agradável de consumir.

Não encontramos satisfação total numa experiência real se, também, não a compartilhamos, tornando-a produto para outro consumir

Como dizia Capitão Planeta (um desenho pró meio ambiente da década de 90), “o planeta é de vocês!”, ou mesmo, como diz a gênese da Bíblia “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra”, ou seja: tomem conta do planeta, a liberdade e a responsabilidade por ele é toda nossa. Mas, assim como devoramos nossas emoções, devoramos igualmente o planeta. O que fazemos com o mundo de fora é, irremediavelmente, reflexo do que fazemos com o mundo de dentro, e estamos consumindo tudo de todas as formas. Engolimos e jogamos pra nossa face oculta, pro nosso inconsciente, assim como o fazemos com o lixo que geramos no planeta, que, uma vez colocado à disposição do lixeiro, vai pra algum local oculto dos espaços que habitamos.

Ontem eu estava no parquinho do prédio com minhas filhas. Haviam dois outros pais entorpecidos pelas telas dos celulares. Quando as crianças ofegantes e risonhas lhes dirigiam a palavra, eles respondiam sem emoção, monossilabicamente… é, a mídia entorpece, a superinformação é como uma feijoada, deixa você devagar e sonolento.

Mas, eu estava presente, com celular ausente e lidava naturalmente com minhas filhas e as amiguinhas, e, aos poucos, aqueles pais foram olhando cada vez menos para as telas e interagindo conosco, até que as guardaram nos bolsos. A nossa presença, automaticamente, liberta outros.

Então, o melhor que você pode fazer pelo mundo agora, para que ele não se torne o grande lixão de Wall-E e tenhamos que nos mudar daqui para continuarmos consumindo incessantemente comida, informações, bens e emoções e nos fadarmos a extinguir as relações físicas e, por fim, toda a humanidade, para não termos filhos zumbis e para que sua vida não passe batido como qualquer uma dessas historinhas que você vê pelas telas e depois de uns dias já esqueceu, o melhor que você pode fazer por você agora é ESTAR PRESENTE, ESTAR NO AQUI AGORA. Seja você aqui e agora. Para isso, limite sua conectividade. Você precisa de você, os seus precisam de você, o planeta precisa de você.  

Namastê!