
Quando você era pequena, foi ensinada a ser boazinha até quando era hostilizada, a não ser nunca emburrada, a ceder pra quem era mais “difícil”, a pensar no outro antes de ter qualquer iniciativa autônoma, a ser auxiliadora, facilitadora, a se sobrecarregar pra aliviar o fardo dos demais, e até a se sacrificar pelo “bem de todos”… Em suma, você foi ensinada a “dar a outra face”.
Mas, será mesmo que dar a outra face é isso que ensinaram pra você?
Na Bíblia está escrito:
“Se alguém bater em você numa face, ofereça-lhe também a outra. Se alguém tirar de você a capa, não o impeça de tirar a túnica.”
Cabe interpretação, não acha?

Quando a interpretação é radicalizada, saltamos da orientação a uma resposta consciente para uma resposta subserviente, e qual seria a intenção nada cristã por detrás dessa interpretação?
A dominação dos mais vulneráveis.
Pois enquanto a esses é exigida a face da submissão – como ocorreu com os escravos, ou com os “infiéis” e hoje ocorre com os trabalhadores e as mulheres – aos poderosos sempre foi permitida a lei da guerra.
Observando toda a doutrina cristã, vemos que muitas coisas que Jesus disse e os apóstolos registraram não eram regras rígidas que deveriam ser aplicadas a todos, mas orientações circunscritas a uma situação específica, para algumas pessoas específicas, como quando ele orientou um herdeiro a deixar todos os seus bens materiais e segui-lo. Ele não disse que todo mundo tinha que abrir mão de tudo o que tinha, disse pra esse rapaz, talvez, por perceber que ali estava um entrave para o seu crescimento.

Em outra ocasião, Jesus também não se portou como pacifista:
“Não pensem que eu vim trazer paz ao mundo. Não vim trazer a paz, mas a espada. Eu vim para pôr os filhos contra os pais, as filhas contra as mães e as noras contra as sogras. E assim os piores inimigos de uma pessoa serão os seus próprios parentes. Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que ama a mim não merece ser meu seguidor. Quem ama o seu filho ou a sua filha mais do que ama a mim não merece ser meu seguidor.”
Então, supondo que Jesus tenha mesmo orientado ao pacifismo numa dada ocasião como pregam a maioria das igrejas cristãs, não poderíamos afirmar que essa seria uma regra absoluta, pois ele mesmo agiu de forma oposta, como vimos.
E, igualmente, podemos nos desapegar dessa interpretação rasa e taxativa e aprofundá-la.
Bora contextualizar?
Por muitos séculos na história, o homem se sentia compelido a proteger sua honra contra quem o difamasse ou “manchasse seu caráter”. A parte ofendida desafiava o ofensor para um duelo. Armas eram escolhidas, e os dois inimigos se enfrentavam. Na maioria dos casos, ocorria um derramamento de sangue sem sentido.
O ensinamento de Jesus de dar a outra face pode ser entendido de forma menos radical, e, simplesmente, como uma orientação para renunciar à retaliação por ofensas pessoais, não se deixando afetar pelo que vem do outro, e muito mais direcionado aos seres mais agressivos (até hoje em dia):
os homens.
É esse o sentido mais coerente.
Não o de ser capacho de algozes como vem sendo traduzido.
Se dar a outra face fosse ser bonzinho com quem te agride, os abusadores sempre levariam vantagens sobre os mais pacíficos – que estariam sempre lesados – e não parariam de abusar porque não encontrariam limites.
E, de fato, no mundo patriarcal, violento com as mulheres e minorias, essa interpretação não se tornou uma regra para todos, mas apenas para os menos favorecidos.
De que forma colocarmos a nós mesmos ou a outros em perigo ou escassez, em favor da libertinagem de alguns, poderia ser bom para si e para os outros?
De forma nenhuma. Se nem Jesus transformou a todos com seu exemplo, não é você se sacrificando que irá transformar, porque isso é uma escolha de cada pessoa.
Dar a outra face é muito mais coerente a toda a doutrina de Jesus, quando significa:
- responder a violência sem o uso da vingança, mas da justiça
- não se apegar ao que você perdeu
- deixar que levem aquilo que não é essencial pra você – inclusive a imagem que têm de você
- sair dos jogos dramáticos que alimentam o ódio e ceifam a alegria e a vida
Em suma, o que pode ser dar a outra face quando alguém te afetar?
Responder de forma consciente, não reativa, não a resposta automática, violenta – consigo, inclusive.
Não é ser capacho, é ser inteligente, como um rio, como Buda disse: seguir seu curso sem se abalar com as pedras que lhe atiram e que não podem te ferir de verdade.
Em vez de dar a pior face pra si mesma e engolir seco o que não deveria engolir pra dar sua face falsa de sorriso amarelo para os outros, você poderia dar “a outra face”, a da assertividade, do confronto necessário, da luta digna, da resposta que não agrada mas que acolhe a vulnerabilidade, aquela que não se abala com as ofensas e as perdas que ocorrem na superfície da vida porque sabe que nada podem levar de si. Assim agia Jesus.


