Partida para renascer: meu parto Estelar

nascimento-estelaToda gravidez muda uma mulher. O primeiro filho nos torna mães, mas todos os seguintes nos tornam mais mães, mais mulheres (seres criadores), mais nós mesmas. Todo puerpério (no meu caso, a gestação também) traz sombras e preciosas revelações sobre o nosso eu interior.

Tenho três filhos, e toda a gestação, parto e pós-parto deles me transformaram muito, mas meu último parto, a vinda da Estela, cavocou as fibras mais profundas do meu Ser, tanto pelo Ser dela como pelo meu novo Ser, que despontava como resultado de intensas transformações anteriores e se concretizava com a presença dela.

Minhas transformações anteriores foram devidas, principalmente, ao advento do meu primogênito tão afim (mas mais criativo, apurado e sutil… e tão corajoso, para vir da forma que veio e me transportar ao mundo mãe),  e da minha primeira menina, que trouxe em si e para mim uma imensidão de consciência e inovação. Ambos gênios da autenticidade.

Se, durante minha última gestação me encontrei com minha sombra face a face, como nunca tinha tido a oportunidade anteriormente, com absoluta certeza, haveria de acontecer um parto muito forte, que revolucionaria a mim mesma.

Alguns meses após o parto, que aconteceu no início da madrugada do dia 26 de janeiro de 2015, tive um momento de forte recordação, em que, pela primeira vez, consegui transcrever aquele ensejo em que transitei fora do físico, em estado alterado de consciência, durante o período conhecido como expulsivo: os últimos instantes da partida, a despedida entre a união total dos seres e a encarnação.

Relembrei os acontecimentos interiores de forma tão intensa na ocasião, que é como se eu estivesse lá, naquela sala de parto de novo, observando o que somente eu e minha desembarcante (da nave-mãe e de uma metade no astral) e embarcante (neste planeta) vivenciamos.

Obs: A ocitocina sintética que me aplicaram, fazia-me voltar à consciência através de sua forçosa dor, quando, em alguns lapsos eu pensava que morreria, ou não, talvez, e partia novamente pra instância da coragem e da vida.

Eu sou força,

sou natureza,

sou explosão.

Eu sou o mar em tempestade,

(às vezes um barco),

sou revolução.

Você se alinha,

se encaminha,

desce e gira,

e já não posso ver.

Sou luz, sou toda sua luz,

sou portal de luz,

e você é quase toda você.

Parte de mim um túnel,

receptor de muita luz.

Energia intensa em fluxo.

Turbilhão.

Criação em exercício.

Sinto suas camadas se aproximando,

vindo as mais etéreas de cima

e a corpórea e mais alguma de mim.

Ainda há um fio

enquanto o círculo sagrado queima.

E quando você o passa,

com a última onda fulminante,

sinto a sua encarnação,

através do meu Ser.

Sou deusa,

sou mãe,

sou natureza.

E partimos.

Você chora.

Está encerrada,

limitada,

aterrada.

Te seguro sem jeito.

Você tem frio.

Estrela na madrugada terrena sente.

Parto contigo ofuscada.

Fico no limbo, dormente.

Ainda não posso renascer.

Nascer contigo é aterrador,

é partir com todo o progresso,

é despojar-me de todo o resto,

é ser tudo novo de novo,

sem nenhum saber,

só ser,

e ser amor,

só ser amor.

Já não sou mais eu,

não sou mais com você.

Aquela presença que fusionava em minha personalidade já não há mais,

está fora de mim.

Sou eu de novo,

sou um eu novo.

Não sei quem sou agora.

Sou um bebê.

Tudo é novo

de novo.

Estou nua e crua

como a Lua morta.

Carrego em meus minguantes braços

seu reflexo solar.

Meu bebê estelar,

ser de luz a iluminar

ininterruptamente meu Ser.

Re-ensina-me a viver.

Estrelava em minha barriga.

Trouxe à luz todas as sombras.

Fez-me gritar, ranger, chorar.

Derrubou meu ego

como um sol à pino

acaba com qualquer sombra.

Parto estrelada,

iluminada por ti.

Parto e sigo partindo

com todos os resquícios

do velho caminho:

as certezas,

as razões,

as crenças.

Parto meu orgulho,

todos os dias,

no seu profundo olhar.

Reparto meu amor

cada vez mais.

Parto meu ego sabido

para deixar sua luz, em mim, entrar.

Parto meu corpo energético

e me curvo ao seu pequeno físico,

para com sua luz

me banhar,

renascer

Estelar!

Ser de luz elevada,

seu nome: Estela!

Nota do nosso 1º aniversário no Facebook

20151130_godaHá 1 ano eu quase morri, eu me senti morrer (algumas vezes), partir-me, sair do meu corpo e ainda assim permanecer aqui. Eu tinha que me abrir, romper-me, despojar-me de cascas duras e antigas de uma vez por todas, porque através de mim, aportava neste orbe uma estrela serena, doce, profunda, livre… uma alma muito mais iluminada que esta aqui, que teve que enfrentar o luto do ego ainda na gestação e que teve que se entregar totalmente para o desconhecido da vida e aceitar de uma vez por todas viver de verdade.

Estela chegou em 26 de janeiro de 2015, após um trabalho de parto em que, por vezes, me senti sair do corpo e entrar no limiar da morte física. Eu ia e voltava com a força da Natureza que me ajudava a abrir o caminho para a chegada dela. Fiquei por 7 dias em estado semi-letárgico… eu renascia, como ela, reaprendia a viver.

Me senti aberta por muitos dias… o rompimento foi tão profundo que levou um certo tempo pra eu criar alguma casca e voltar a me movimentar normalmente.., meus movimentos estavam limitados, assim como os dela. Além do períneo, que, apesar de íntegro, estava “aberto”, eu não podia ser sem um ego novo e alguma máscara. Eu pouco falava, aos poucos criava alguma película protetora, aos poucos enxergava, aos poucos eu era eu e a via, tão grande e encerrada num corpo tão pequeno e definido, mas que extravasava no olhar, no sorriso e no toque a sua imensidão.

Há um ano essa alma-irmã, que nesta vida é também filha, vem me ensinando a partir para o desconhecido, a viver só no presente, a ser maior, a ir além de tudo o que é comum, “correto”, aceito, a ser totalmente verdadeira, a optar sempre pelo amor.

GRATIDÃO ETERNA pela dádiva de ser mãe dos meus três professores do amor, mas hoje, em especial, gratidão pelo aniversário de um ano da chegada da nossa estrela, que inundou de amor nossos corações, nos fez renascer e nos uniu ainda mais.

A encarnação dos espíritos

O Espiritismo ensina de que maneira se opera a união do Espírito com o corpo, na encarnação.

Pela sua essência espiritual, o Espírito é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter ação direta sobre a maté- ria, sendo-lhe indispensável um intermediário, que é o envoltório fluídico, o qual, de certo modo, faz parte integrante dele. É semimaterial esse envoltório, isto é, pertence à matéria pela sua origem e à espiritualidade pela sua natureza etérea. Como toda matéria, ele é extraído do fluido cósmico universal que, nessa circunstância, sofre uma modificação especial. Esse envoltório, denominado perispírito, faz de um ser abstrato, do Espírito, um ser concreto, definido, apreensível pelo pensamento. Torna-o apto a atuar sobre a matéria tangível, conforme se dá com todos os fluidos imponderáveis, que são, como se sabe, os mais poderosos motores.

O fluido perispirítico constitui, pois, o traço de união entre o Espírito e a matéria. Enquanto aquele se acha unido ao corpo, serve-lhe ele de veículo ao pensamento, para transmitir o movimento às diversas partes do organismo, as quais atuam sob a impulsão da sua vontade e para fazer que repercutam no Espírito as sensações que os agentes exteriores produzam. Servem-lhe de fios condutores os nervos como, no telégrafo, ao fluido elétrico serve de condutor o fio metálico.

Quando o Espírito tem de encarnar num corpo humano em vias de formação, um laço fluídico, que mais não é do que uma expansão do seu perispírito, o liga ao gérmen que o atrai por uma força irresistível, desde o momento da concepção. À medida que o gérmen se desenvolve, o laço se encurta. Sob a influência do princípio vito-material do gérmen, o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula, ao corpo em forma- ção, donde o poder dizer-se que o Espírito, por intermédio do seu perispírito, se enraíza, de certa maneira, nesse gérmen, como uma planta na terra. Quando o gérmen chega ao seu pleno desenvolvimento, completa é a união; nasce então o ser para a vida exterior.

(A Gênese, Allan Kardec)

 Gratidão por ler! Namastê!

Clique aqui se quiser me conhecer como DOULA.

Como eu resolvi viver do que amo sem voltar atrás

Após eu escrever meu último artigo, em que descrevi um pouco da minha realidade de mãe solo de três, longe da família e feliz, alguns questionamentos surgiram por parte de alguns leitores e resolvi compartilhar um pouco mais do meu atual processo de busca por uma vida que amo, o que inclui, claro, sustentar essa vida que amo, ou seja: trabalhar no que amo. 

…5, 4, 3, 2, 1! 2016 chegou, algo mudou?

Minha contagem regressiva não é a do ano novo, não acabou com a entrada em 1º de janeiro, nem corre até o fim do Carnaval, ou até o fim das férias, ela acontece todos os dias, porque todos os dias o sol nasce e se põe no horizonte e a cada dia a gente se aproxima do fim desta grande oportunidade que é essa jornada na Terra.

Sempre estamos contando regressivamente: “depois que eu me formar”, “até meu filho crescer”, “até ele entrar na escola”, , “depois que eu encontrar companhia”, “até o meu cabelo enrolar”, etc: procrastinação! Sempre estamos adiando, sempre estamos contando regressivamente em datas “cabalísticas” como se alguma mágica fosse acontecer num estalar de dedos e toda a nossa vida fosse mudar de uma hora para a outra, com o aparecer de uma fada madrinha ou de um príncipe encantado como na história da pobre Cinderella… evidências nada mágicas mostram que sacrificados só são recompensados quando saem da posição de vítimas e passam a ser autores da própria história.

A realidade é que, realmente, energias circulam, movimentos ocorrem o tempo todo no Universo, mas você minha/meu cara(o) amiga(o) tem um grande poder chamado livre-arbítrio, o que quer dizer que se você decidir virar uma pedra enquanto o Big Bang cria um novo mundo, você vai ser essa pedra até quando puder aguentar se enrijecer e, caso não esteja na mesma sintonia desse novo mundo que se cria à sua volta, pode voar pra fora dele e se tornar  um asteroide inerte qualquer na escuridão universal. A vida é movimento, nossa real contagem é progressiva, mas você pode optar não se mexer e ficar aí apenas coexistindo… e sofrer, afinal, nós já sabemos o que é viver infeliz, e, justamente por ser tratar de algo conhecido é que a infelicidade não nos assusta.

A realidade é que vivemos conduzidos pelo medo e não pelo amor. O medo busca segurança acima de tudo, o amor busca o desconhecido, as roupas novas para vestir a nossa alma quando cresce.

Todos os dias fazemos escolhas, conscientes, ou não, e são essas escolhas que criam o nosso universo pessoal. Todos os dias podemos escolher fazer algo para que nossa vida se pareça mais conosco ou, simplesmente, podemos  continuar fazendo coisas que aprendemos a fazer e que não têm nada a ver com o que realmente somos.

Por exemplo, você sonha em trabalhar com o que ama mas continua fazendo o que não ama, todos os dias, em vez de meditar na Travessia do divino Milton “já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver”. Porque a única diferença entre o que você é e o que você quer ser, é o seu fazer.

Porque se você vê, está em você e se você não manifesta isso é porque não quer.

A minha contagem regressiva

Para exemplificar o que quero compartilhar aqui, a minha contagem regressiva pessoal está acontecendo desde que pedi exoneração do meu cargo público e decidi investir em trabalhos que amo, e, ainda mais, numa vida mais verdadeira para mim e para a minha família, com ambientes e fazeres que mais combinam com o nosso eu interior, independentemente do sistema macro em que estamos mergulhados e das crenças mais padronizadas que banham a todos nós como membros de uma sociedade.

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No workshop Os 7 segredos do parto, dizendo adeus à velhos ciclos e olá a um novo e melhor.

Algumas pessoas andaram me questionando recentemente como consigo viver “como eu quero”, como pago minhas contas e sustento meus três filhos: “mas como essa mãe/mulher se sustenta economicamente falando? Tem custo de moradia, alimentação, transporte, lazer, saúde, vestuário. Existe um recorte de classe a se levar em conta…”

Bom, primeiro devo esclarecer que não vivo exatamente da forma como quero, mas estou dando os passos corajosos que faltam para que todo o apego pertença somente ao passado e para que um universo imenso esteja ao meu alcance e ao dos meus filhos (porque nesta fase da vida deles, o que eles vivem é muito uma extensão do que eu própria estou vivendo).

Algo que eu já assimilei, é que escolher conscientemente é necessário para se ser feliz e não tem nada a ver com facilidades. Na realidade, é muito difícil remar contra a maré, é muito difícil ser a gente mesmo o tempo todo, mesmo porque, nos conhecemos muito pouco, e, pra piorar, nos identificarmos o tempo todo com a nossa mente, com o nosso ego e com as nossas tantas máscaras que usamos (tipo aquele nosso eu que está nas redes sociais ou nos “bom dias” mornos que dizemos), nada disso somos nós e apenas desapegando disso tudo que nós não somos é que poderemos ser nós mesmos e viver de acordo com o nosso ser: isso sim é sucesso e felicidade! Sim, porque é muito difícil abandonar a nossa velha companheira, a infelicidade e buscar o nosso próprio sucesso, que não tem nada a ver com conceitos-padrão.

Pra quem pensa que pra mim é fácil, que sou uma privilegiada da Existência (com a minha “vida natureba whiskas sachê”, como já me disseram… e me fizeram gargalhar, agradeço), nunca tive a facilidade, por exemplo, de cuidar dos meus filhos sem pensar em prover o lar materialmente, pelo contrário, sempre fui a maior responsável por isso (muitas vezes a única, por vários períodos). (Deixo claro que acho muito justo pra quem pode e quer viver de pensão alimentícia, já que o cuidado que a mãe tem com os filhos e, muitas vezes, com um lar também, é um trabalho que demanda muito mais do que muitos outros desempenhados longe da família.)

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A espera de Estela. Setembro/2014.

Sendo assim, desde um ano atrás, alguns meses após eu ingressar no serviço público, grávida, comecei a poupar dinheiro. Eu já vivia há alguns anos uma vida muito mais simplificada do que tive a maior parte da minha vida (conto isso melhor aqui) e, acumulando meus rendimentos do serviço público com de serviços de comunicação que me mantinham fazendo home office há 7 anos, consegui me propor a poupar.

Primeiro a poupança seria para o parto domiciliar da Estela, o que acabou não acontecendo, pois mudei de ideia na reta final e decidi tê-la pelo SUS, então o dinheiro ficou lá, guardado. Depois, foi-me crescendo a ideia de que eu não queria voltar a trabalhar batendo ponto todos os dias e ficando 9 horas fora de casa, com minha bebê tão pequena e mais dois filhos pequenos sem pais presentes… atende-los apenas à noite quando eu chegasse do trabalho e nos finais de semana… definitivamente, isso não era vida pra mim, nem pra eles. Depois percebi que até mesmo financeiramente, retornar ao serviço não valeria a pena, pois eu teria que pagar escola integral para os três e as entradas e saídas acabariam empatando. Um luto no quinto mês do ano seguido da internação do meu filho foi a gota d’água: eles precisavam de mim e eu ficaria com eles acima de tudo, nem que eu tivesse que vender côco na praia ou estender minha esteira de miçangas. E outra, meus filhos merecem uma mãe feliz, se eu quero que eles sejam felizes, tenho que dar o exemplo de felicidade.

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Meus despertos. Junho/2015.

Comecei a escrever este blog para me encontrar, compartilhar todas as minhas ideias borbulhantes puerperais, ouvir o retorno disso tudo que eu ecoava e para encontrar em mim o meu, na verdade “os meus” trabalhos ideais futuros: flexíveis, de jornada reduzida e que eu amasse, sobretudo.

Li muito nas madrugadas, participei de webnários, escrevi um décimo do que gostaria. Viajei para alguns lugares, conversei muito com leitores, com amigos, fiz amigos, fiz cursos e continuo estudando.

Aos poucos a tensa neblina e ocasionais cumulus nimbus do puerpério foram abrindo frestas para a clareza e comecei a escolher. Escolhi novos novos trabalhos e me capacitar para eles, resolvi a nossa nova cidade-residência e resolvi, também, continuar a escrever e cada vez mais.

Só que, desde setembro de 2015, com o meu desligamento do serviço regular, que veio após fim da licença maternidade mais um mês de férias, também parei de receber meus rendimentos regulares tanto do cargo público quanto do cargo contratado. Tanto o serviço estável quanto o durável fecharam seu ciclo na minha vida e passei a utilizar as reservas da minha poupança para custear as despesas da minha família. Assim, até elas acabarem, (o que eu não gostaria que acontecesse), eu já tenho que ter começado a conquistar fundos provenientes dos meus novos empenhos, em outras palavras, meus novos trabalhos terão que estar dando retorno em dinheiro.

Como diz minha amada mentora Paula Abreu, “hoje nós vivemos numa cultura permeada por opções, incluindo a opção de ‘reiniciar’ e ‘desfazer’. Queremos, para tudo, ter um plano de escape. Mas, em certos momentos da vida, o que precisamos é ir em frente. Se não queimamos os barcos e sempre deixamos espaço para recuar, também permitimos a hesitação, o medo, a autosabotagem e a resistência. Quando sucesso e fracasso são as únicas alternativas, você não tem escolha a não ser ir até o fim. Se os barcos estão queimados, você está totalmente comprometido. Seu coração e sua mente estão cem por cento focados, sem distrações. Sem olhar para trás.”

Então, de barcos queimados, defronte a um imenso mar e em contagem regressiva para começar a receber o necessário para bancar a vida que escolhemos e progressiva para ter uma vida integralmente de verdade, é que lanço meu abraço à vida e minha gratidão a todos vocês que fizeram parte desse processo, e me preparo com muito amor, garra, fé e, cada vez mais, com verdade, para conquistar esse novo território prometido ao meu Ser procurador, sem chances de voltar atrás.

Feliz novo ciclo pra mim, e pra você, seja quando for, mas que seja de verdade, lembrando que todo dia é dia de viver uma vida de verdade.

Deixo vocês com a Parábola do Semeador, um ótimo não-pensamento/ ensinamento para meditarmos e nos colocarmos no nosso próprio rumo:

Naquele dia, saindo Jesus de casa, assentou-se à borda do mar. E vieram para ele muita gente, de tal sorte que, entrando em uma barca, se assentou, ficando  toda a gente de pé na ribeira; e lhes falou muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis aí que saiu o que semeia a semear. E quando semeava, uma parte das sementes caiu junto da estrada, e vieram às aves do céu, e comeram-na. Outra, porém, caiu em pedregulho, onde não tinha muita terra, e logo nasceu, porque não tinha altura de terra. Mas saindo o sol se queimou, e porque não tinha raiz, se secou. Outra igualmente caiu sobre os espinhos, e crescendo os espinhos, a afogaram. Outra enfim caiu em boa terra, e dava fruto, havendo grãos que rendiam a cento por um, outros a sessenta, outros a trinta. O que tem ouvidos de ouvir, ouça. (Mateus, XIII: 1-9 ). Ouvi, pois, vós outros, a parábola do semeador. Todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a entende, vem o mau e arrebata o que se semeou no seu coração; este é o que recebeu a semente junto da estrada. Mas o que recebeu a semente no pedregulho, este é o que ouve a palavra, e logo a recebe com gosto; porém, ele não tem em si raiz, antes é de pouca duração, e quando lhe sobrevêm tribulação e perseguição por amor da palavra, logo se escandaliza. E o que recebeu a semente entre espinhos, este é o que ouve a palavra, porém os cuidados deste mundo e o engano das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutuosa. E o que recebeu a semente em boa terra, este é o que ouve a palavra e a entende, e dá fruto, e assim um dá cento, e outro sessenta, e outro trinta por um. (Mateus, XIII: 18-23).

Coragem! Namastê!

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Eu, mãe solo de três, puérpera, longe da família e feliz

Por conta de tantas indagações e pedidos de conversa é que decidi explanar um pouco mais sobre minha condição e sobre as minhas conclusões e escolhas de mãe solo de três, que vive longe da família de origem.

Quase todas às vezes que saio com meus três filhos, ouço frases do tipo:

“Os três são seus? Como você consegue?”

“Eu não conseguiria, já sofro com um!”

“Meus Deus, que escadinha!”

“Ah, mas é bom porque cresce tudo junto né?”

“Agora parou né? Não vai querer mais, ou vai?”

Imaginem se soubessem que moro sozinha com os três, há mais de três horas de distância da família. Quando sabem, vem mais uma enxurrada de comentários:

“Mas você não tem medo?”

“Mas, e se acontece alguma coisa?”

“Tem hospital bom onde você mora?”

“Você não tem empregada todo dia!”

“Como você é corajosa!”

Na maioria das vezes eu tenho a boa vontade de compartilhar um pouco da minha realidade, afinal, não é uma curiosidade ruim, as pessoas querem aprender algo com a gente, querem entender como é possível vivermos felizes com certas dificuldades. Mas às vezes cansa, confesso, porque isso acontece em quase toda saída… coisas de Brasil. E, quando eu respondo breve (geralmente quando as questões não são feitas de forma amorosa), dificilmente contenta, mas daí quem tem que se contentar sou eu, né? 😉

O que eu gostaria de deixar claro é que o trabalho de uma mãe, principalmente a de crianças pequenas, como eu, é o maior trabalho do mundo (os motivos eu deixo pro vídeo abaixo), então, mais do que questionar, aproveite a oportunidade para auxiliar, para por em prática sua gentileza, seja puxando um carrinho no mercado enquanto a mãe segura o filho no colo (e mais dois no braço, no meu caso), seja dando o lugar na fila, porque embora seja lei, não é unanimidade (principalmente quando “falta” a fila preferencial ou quando não há fila, mas tumulto). Tenho a sensação de que algumas pessoas, ao ficarem questionando ou julgando as mães por aí afora, propositalmente (algumas inconscientemente), perdem a deixa para ajudar, ou arranjam motivos para não fazê-lo (“quem mandou ter três”, “quem mandou separar”, “por que não deixou na creche?”, “aqui não é lugar de criança”, etc). Ficar questionando demais ou fingir-se de morto, claro, cansa bem menos do que dar uma mãozinha, levando o carrinho do mercado de volta, por exemplo, e não toma nosso tempo tão curto com problemas que não são nossos, não é mesmo?

Sobre ter três filhos e de idades próximas, eu acho um fato inquestionável, mas muita gente questiona ou me considera “insustentável”, (mesmo eu tendo com eles uma vida que vai ter que compensar a metade do carbono da vida de muito adulto ou criança de classe média/alta de cidade grande), mas eu não ligo. Desde criança me imaginava uma mãezona de três amamentadora, com leite pra dar e vender e com uma família agitada e feliz. Se vou ter mais? Não penso nisso, mas sempre me aqueceu o coração a ideia de adoção… quem sabe.

Sobre morar longe da família, que está em São Paulo, eu acredito que a qualidade de vida de quem mora no litoral norte do estado, não tem preço (concordo com Caymmi quando cantava que “quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar”). Outro ponto, que quem já morou em São Paulo sabe, é que se você não mora perto da família, bem perto aliás, tipo, no bairro, é como se vocês morasses em cidades distintas, porque atravessar a cidade leva tanto tempo e estresse no trânsito, que pra ver parentes ou amigos que moram em outra zona da cidade, você tem que fazer uma baita programação com antecedência, isso, quando não falhamos, porque vida muito urbana nos consome.

Então, prefiro viajar pra Sampa uma vez ao mês com os três que tá ótimo. Visitamos todo mundo e eu tenho uma folguinha pra mim, porque sobra atenção pra eles.

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Meu trio na casa da vovó. Julho/2015.

Algumas vezes eu cheguei a pensar que poderia ser mais fácil se eu voltasse a morar perto da minha mãe, mas, pra isso, eu teria que pagar o preço de viver alarmada com medo da violência nos semáforos, teríamos que morar em apartamento e abdicar do espaço, teríamos que nos confinar às áreas comuns do condomínio e viver muito tempo dentro de um carro, pra ir de um lugar a outro, não teria liberdade em qualquer rua com as crianças e teria que morar, literalmente, do lado, pra ter essa “mão” no dia-a-dia (o que eu não acho legal pelo que enumerei até aqui ) ou nos veríamos apenas nos finais-de-semana, sendo assim, pra quê morar em São Paulo? Isso sem falar na diferença do ar, do ollhar, do mar…

Sobre a questão da segurança e da saúde eu garanto que quem mora na praia sofre muito menos com isso. Moro em um pequeno condomínio fechado, não por segurança, mas porque tem uma grande área gramada, lugar de sobra para a minha horta/pomar/plantas em vaso e para as crianças brincarem, é claro. Sobre assistência médica, não temos hospital bom na cidade, mas… não temos a violência das grandes cidades nem temos a parca qualidade de vida que adoenta muito mais, então…

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Estelinha. Fim de tarde na Praia de São Francisco, São Sebastião. Outubro/2015.

Quanto a morar em cidade pequena, sempre me falam “ah, mas não tem TUDO na sua cidade! Você não sente falta de NADA?”. Primeiro que “tudo” e “nada”, neste caso, são conceitos bem relativos. O que é tudo pra mim, como ter o mar ali ao lado, pode ser nada pra você que prefere ter uma farmácia na esquina de casa, o que é nada pra mim. Mas, nessa situação, eu prefiro responder expondo a realidade: que mal vou ao centro de São Sebastião, porque do lado de casa tem mercado, padaria e praia. Falta alguma coisa? Nem de farmácia eu preciso, porque não consumimos fraldas descartáveis e lencinhos, esse tipo de coisa que faz a gente ter que sair de pijamas pra comprar quando acaba. Fora que a cidade é pequena, então o centro tá logo ali, há 2 km. Quando procuro algo diferente, muito peculiar, eu providencio quando viajo. Mais uma desculpa pra viajar sempre. 🙂 Mas, no nosso dia-a-dia, falta nada. Hoje em dia tem de tudo em cidades pequenas e os pequenos produtores e comerciantes locais divulgam pela web seus produtos: essa vitrine virtual focada em nichos, equilibra bem a demanda e a oferta frente aos desejos dos consumidores locais.

Sobre a questão do “meu Deus, você sozinha com três crianças pequenas! E se acontece alguma coisa?” Ora, se acontecer alguma coisa eu grito, temos telefone, ligamos pra polícia, Samu e a turma toda da emergência. Fora que os vizinhos de cidades pequenas são muito mais próximos, muito mais disponíveis pra qualquer auxílio. O que eu não posso, na minha concepção, é viver sem qualidade de vida por ter medo de que algo extraordinário aconteça. Abandonei, gradativamente, nos últimos anos, essa necessidade urbana de buscar segurança material em excesso, principalmente por ser uma necessidade urbana, portanto, que não se aplica tanto mais a minha realidade caiçara.

Outro ponto que eu venho concebendo sobre esse excesso de proteção é que isso, na verdade, é uma ilusão. Ninguém está a salvo e quanto mais a gente se protege da morte, menos a gente vive. Em cidades grandes, grande parte do dinheiro vai para a proteção (dos bens e da vida): estacionamento, condomínio, seguros diversos, locais seguros, segurança de rua etc. Daí as pessoas trabalham muito pra pagar o aparato todo, isso quando não empata ou falta, e aí? Você usou uma boa parte do seu precioso tempo de vida trabalhando para conseguir capital para investir na proteção de si mesmo e dos seus pertences e nada mais, na verdade você não protegeu sua vida, você acabou com ela se protegendo a morte, que já é uma realidade pra você. Porque quanto mais coisas você tem, mais tempo você tem que perder para assegurar que elas continuem sendo suas. A vida é agora, sempre. Viver é Ser, não ter.

Outra coisa que eu aprendi com a minha situação de mãe solo de três é a parar de me vitimizar. Se é difícil pra mim, é mais difícil pra um monte de gente em outras diversas situações mundo afora, com certeza. Sou grata a tudo o que somos e temos e eu estou vivendo exatamente o que eu escolhi pra mim, assim como todo mundo… questão de fé. Outra coisa, nada é para sempre e, se nos animamos, tudo tende a melhorar mais rápido. Quando a gente para de se vitimizar, a vida fica inigualavelmente mais leve e alegre e bons ventos sopram muito mais.

Quantas vezes eu não pensei “Meu Deus! Nunca me imaginei nessa situação! Não é justo! Não mereço isso!” e muito mais pensamentos na mesma vibração, mas sabe o que esses pensamentos faziam? Me feriam, cada vez mais, e passei a perceber que o problema não estava na realidade em si, mas no que eu pensava sobre ela. Pensamentos plasmam. Não-mente me salvou. Orai e vigiai.  A minha realidade é que tenho filhos iluminados e amorosos, meus grandes professores, e, sem incorrer no erros da infantolatria e do autoritarismo, crescemos juntos e somos cada vez mais amor.

Tem uma antiga história Sufi, contada por Osho em seu livro Coragem: o prazer de viver perigosamente, que ilustra bem essa questão escolha/vitimização:

“Um homem estava muito oprimido pelo seu sofrimento. Ele costumava orar diariamente a Deus, “Porque eu? Todos parecem ser tão felizes, porque só eu estou sofrendo tanto?” Um dia, em grande desespero, ele orou a Deus, “Você pode me dar o sofrimento de qualquer um outro e estou pronto para aceitar isso. Mas leve o meu, não posso mais suportá-lo”.

Aquela noite ele teve um belo sonho, belo e muito revelador. Ele sonhou naquela noite que Deus aparecia no céu e dizia para todos, “Tragam todos os seus sofrimentos para o templo”. Todos estavam cansados de sofrer – na verdade todos tinham orado alguma vez ou outra, “Estou pronto para aceitar o sofrimento de qualquer um outro, porém leve o meu sofrimento, é demais, é insuportável”.

Assim todo mundo colocou seu próprio sofrimento em sacolas e levaram para o templo e todos pareciam muito felizes; o dia havia chegado, suas preces foram ouvidas. E esse homem também correu para o templo.

E então Deus falou, “Coloquem suas sacolas na parede”. Todos as sacolas foram colocadas na parede e então Deus declarou: “Agora vocês podem escolher. Podem pegar qualquer sacola”.

E a coisa mais surpreendente foi: que esse homem que tinha estado sempre orando, correu em direção a sua sacola antes que alguém mais pudesse escolhê-la! Ele contudo, ficou surpreso porque todo mundo correu para sua própria sacola e todos estavam contentes com a escolha. O que aconteceu? Pela primeira vez, todos viram a miséria dos outros, o sofrimento dos outros – as sacolas deles eram tão grandes, ou até mesmo maiores!

E o segundo problema era, as pessoas tinham se acostumado com os seus próprios sofrimentos. E agora escolher o sofrimento de outra pessoa – quem sabe que tipo de sofrimento estará dentro da sacola? Pra que se incomodar? Pelo menos você está familiarizado com o seu próprio sofrimento e você já está acostumado com ele, e ele é suportável. Por tantos anos você o tolerou – porque escolher o desconhecido?

E todos foram para casa felizes. Nada havia mudado, eles estavam trazendo o mesmo sofrimento de volta, mas todos estavam felizes e sorridentes e alegres porque conseguiram suas próprias sacolas de volta.

Pela manhã ele orou para Deus e disse, “Grato pelo sonho; nunca mais pedirei novamente. Tudo que você me tem dado é bom para mim, tem que ser bom para mim; eis porque você me deu isso”.”

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Nossa praia. Pontal da Cruz, São Sebastião. Junho/2015.

Uma amiga da Roda de Mães de São Sebastião um dia comentou comigo “ás vezes dá uma preguiça de vir pra roda, daí eu lembro de você e penso, ‘não, que isso, se a Mari vai com três porque eu não vou com a minha única?!'”. De outra irmãe eu ouvi também: “às vezes eu acho que não consigo mas daí eu penso ‘a Mari com três consegue! tenho que conseguir!'”.

É bom quando as pessoas se inspiram em nós, eu, também, me inspiro muito nos exemplos próximos. Sempre tem alguém com um fardo “maior” ou podemos pensar que cada um de nós carrega o que pode e decide carregar. Quando fica pesado eu peço ajuda, temos que pedir, de nada vale nos sacrificarmos e perdermos o brilho no olhar, a presença no presente.

Laura Gutman, em seu livro La Biografía Humana: una nueva metodología al servicio de la indagacion personal, me trouxe uma luz muito fortalecedora nesse processo de aceitação da maternidade solo, quando diz que:

não importa se nossa mãe (ou cuidadores) ‘fez tudo certinho’. Não importa se foi uma mãe fenomenal, calma, paciente, sacrificada ou justiceira. O que os filhos necessitam para criar seres alinhados com seu ser essencial e em profunda conexão consigo mesmos, é que seus cuidadores compreendam a si mesmos. Se não tivermos cuidadores adultos e maduros, conscientes de seus próprios estados emocionais e sua história, essa sabedoria não será derramada sobre as crianças. Por isso, é pouco provável que as crianças quando cresçam olhem para suas vidas em estado de total consciência.

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Encontro da Roda de Mães de São Sebastião. Junho/2015.

Falando nas amigas-mães, lembro de outro ponto importante na jornada solo das mães: a força dos grupos. Virtuais ajudam, presenciais salvam. A Roda que criamos na minha cidade atual me salvou muitas vezes no puerpério sombrio, lembrando que o fundo do poço é um perigo, mas também, (e, como diz minha mentora Paula Abreu) é libertador. Por isso que, tudo bem a gente ir até o fundo do poço, que é uma viagem quase que inevitável para grande parte das puérperas, mas tente não ficar sozinha por lá, pelo menos, não por muito tempo. Encontre outras mães, principalmente que também estão na fase sombria e as ajude, sim, ajude, porque até quando estamos lá no fundo, podemos ajudar, e, verificar essa nossa capacidade de ajudar alguém quando estamos na pior é que nos tira da pior, é o que faz começar a subir a cordinha que irá nos tirar do fundo do poço e nos levará para a situação de clareza.

E sempre siga o conselho de Frida: “onde não puderes amar, não te demores.”

Gratidão por ler! Com estimas de uma vida cada vez mais genuína pra você!

 

 

 

O que há por trás das birras consumistas

Da mesma forma que quem não abandona o consumismo não consegue dar uma infância livre aos filhos, quem não se olha, não consegue olhar os filhos.

Você já parou pra se perguntar por que as crianças pequenas fazem tanta birra quando ouvem um “não” como resposta, ainda mais quando se trata de consumir algo? Seria só uma expressão de revolta pela frustração? Ou um teste para saber até onde podem ir? Poderia ser outro o motivo das manhas homéricas?

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A caminho do “terrible two”. Novembro/2010.

Foi refletindo a partir de um assunto levantado na nossa Roda de Mães e Bebês de São Sebastião, que decidi escrever este artigo. Na ocasião, algumas mães falavam da dificuldade em lidar com seus bebês que estavam na fase de fazer “birra”, principalmente quando percebiam um público razoável para tal, o que as colocava em situações embaraçosas, já que não sabiam como reagir para repreender/compreender/atender/limitar, e por aí vai.

A discussão me fez lembrar de quando meu filho mais velho executava suas diversas “performances”, principalmente em portas de lojas, quando comecei a dizer não mais firmemente ao seu consumismo, por volta dos seus 2 anos e meio de idade.

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Fazendo graça no mercado. Novembro/2011.

Nossa querida psicoterapeuta do grupo nos deu uma luz: sugeriu que nomeássemos diversamente a “birra”, chamando-a mais propriamente de “protesto”.  Pois claro, é também disso que se tratam essas manifestações aparentemente exageradas, um chamado para algo oculto que incomoda deveras os pequenos, que aproveitam as oportunidades para expressar o incômodo inenarrável.

Segundo o discurso tradicional, “as birras infantis acontecem porque a criança não tem maturidade suficiente para lidar com frustrações, sendo que, através da birra ela testa o limite, tenta manipular os pais ou simplesmente “pede socorro” pois está tendo de lidar com esse sentimento novo, a frustração”. Isso ocorre até 5 anos de idade mais ou menos, quando as crianças ainda estão aprendendo sobre limites e regras sociais. (Artigo aqui).

Ainda segundo o discurso padrão, “os pais têm um papel fundamental ao conter seus impulsos desenfreados e, se agirem de forma errada, como ceder à chantagem do filho, por exemplo, estarão contribuindo para que ele venha a ter sérios problemas, especialmente no futuro, como: não conseguir lidar com o fracasso, desistir facilmente de seus projetos, cometer delitos para conseguir o que quer, insubordinação e tornar-se um adulto imaturo.”

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Itamambuca, Ubatuba. Dezembro/2011.

Naquela época, eu seguia o discurso padrão e agia de forma a limitar essas manifestações somente, acreditando ser essa a melhor atitude, mas, às vezes, minha intuição falava mais alto e eu percebia que não era só uma questão de impor limites e refletia sobre o que poderia ser. Além disso, cada vez mais eu me aproximava do meu pequeno para compreender suas emoções e sentimentos.

Hoje, uns 4 anos depois, acredito que esse discurso é limitado, autoritário e nega as peculiaridades de cada criança e cada situação.

Penso que crianças, até dominarem completamente a linguagem verbal, se utilizam dos mais variados recursos para se fazerem ouvir, para conseguirem ser atendidas em suas necessidades. Como não sabem exprimir exatamente suas demandas, se utilizam das mais diversas oportunidades para expor suas insatisfações, inclusive, amplificando as expressões para liberar emoções que são muitas vezes suprimidas.

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Diversão na cama elástica. Março/2012.

A discussão me fez lançar um outro olhar para as “birras” que meu filho fazia, na época em que tinha a mesma idade das bebês em questão. Percebi que, além de se tratar de uma fase da idade, do não saber lidar com o “não”, de tentar estender seus limites, meu primogênito também se utilizava do motivo de consumir sem necessidade para gerar os enfrentamentos que precisava para por pra fora suas pulsões reprimidas, suas dores encapsuladas.

Entendi, inclusive, que grande parte da exaltação ocorria porque eu lhe negava o novo, que, assim como para todos os consumistas, sejam eles adultos ou crianças, traz um bem-estar efêmero, mas os faz fugir, por alguns instantes que seja, da realidade dura… afinal, todos temos nossas agruras, independente da idade, situação econômica, etc.

Também, percebi outra coisa com relação ao que ocorria com o Fernando: que o ganhar coisas simbolizava ganhar afeto para ele, e, por isso, ele se revoltava tanto quando eu dizia “não” a uma coisa inútil a mais. Para ele, eu não estava dizendo “não” para a coisa em si, mas para o ato de dar, para dar-lhe “afeto”. Entendi que quando ele insistia que “precisava” por inúmeros motivos, ele estava me dizendo que “precisava de afeto”, pois essa era uma das formas, a mais viciante, através da qual ele aprendeu receber afeto enquanto moramos em São Paulo, eu trabalhava dia e noite e ele era a única criança da família. Continuar lendo O que há por trás das birras consumistas

Como dissémos “não” ao consumismo infantil

Para incrementar o último artigo, Como dizer “não” para o consumismo dos filhos, gostaria de compartilhar como foi o início da nossa experiência de dizer “não” ao excesso de consumo e “sim” à vida realmente rica. Segue adiante:

Caminhando e contemplando. Em Dez/2011.
Caminhando e contemplando. Em Dez/2011.

Vejo a enorme diferença no quesito “consumismo” do meu primeiro filho para a segunda. Com ele eu ainda consumia muito e não conseguia dizer “não” para todos os pedidos, nem para todos os “maus presentes”, mesmo sabendo que ele não precisava de mais um carrinho, nem de mais um DVD. Como eu ainda consumia em excesso, não achava justo da minha parte dizer “não filho, você não precisa de mais”, se a mamãe aqui, ainda esbanjava. Discursar aos filhos para viverem com menos, despendendo futilidades (lembrando que palavras ensinam e exemplos arrastam), é dar um verdadeiro MBA de como ser egoísta.

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Acontece que no auge dos seus 2 anos e meio, querendo todos os carrinhos do mundo, mudamos de São Paulo para Ubatuba.

Naquela época, em julho de 2011, eu havia me desligado de um emprego num escritório na Paulista e ido morar dois meses depois no litoral norte. Passei a viver apenas de home office e teríamos que aprender a viver com menos… com mais na verdade.

Conversando com as flores, em Jul/2011.

São Paulo é uma cidade que, como a maioria das megalópoles, está toda estruturada para estabelecer um estilo de vida baseado no consumismo, onde quase todo lazer depende de consumir, onde é necessário se esforçar para dizer não ao consumismo de todo dia, principalmente se se está acostumado a esse tipo de vida desde que se nasceu.

Percebo, hoje, que esse processo de mudança de São Paulo para uma cidade menor e essa mudança drástica no estilo de vida que levávamos foi tão difícil, porque o nosso consumismo, como o da maioria das pessoas, estava diretamente associado à desconexão: nossa conosco mesmo e dos pais e mães com seus filhos.

Tratei de modificar a mim mesma antes de começar com o discurso de mãe sustentável do tipo “mas você já tem tantos desses, não precisa de mais um” ou “sorvete só no final de semana”. Mesmo depois que diminui meu consumo pessoal drasticamente, demorou para que o Fernando abandonasse o vício de comprar toda vez que saíamos, ou melhor, demorou para que ele descobrisse outras maneiras muito mais legais de se entreter, ou de aprender a lidar com o tédio… uma lição ainda em curso.

Rio Itamambuca, Ubatuba, Dez/2011.

Foram muitos shows em portas de lojas, muito choro e ranger de dentes. E tratei de ter muita paciência, confesso que às vezes não tive, pois eu fui a maior responsável pela adicção dele, que nem sempre foi alimentada por mim, na maioria das vezes não, mas todas elas, sim, eu permiti. Fosse com festa de aniversário em buffet caríssimo, com presentes todo final de semana ou doces em excesso, ou apenas deixando a livre oferta para o consumo indisciplinado de televisão.

Essa experiência de negação, que no início foi muito desgastante, me ensinou a oferecer outras coisas melhores para ele, mas que ele não sabia, e que eu já não vivia desde a infância. Em vez de insistir no enfrentamento que interrompia a comunicação, alterando os ânimos até a histeria, sem, óbvio, gerar bom resultados, aprendi a mudar o foco dele de coisas para experiências, aprendi a estar com ele, como há muito tempo eu não estava.

Toda criança é curiosa e anseia por experiências novas, mas, acima de tudo, toda criança necessita de pais e mães presentes, não de corpo, de alma. Como eu tinha muito mais tempo com ele, passamos a nos relacionar mais e fortalecemos nossa conexão; e consegui lhe mostrar que haviam coisas muito mais interessantes para viver e que seriam muito mais divertidas que possuir qualquer porcaria. 

Intrigado com o peixe. Itamambuca, Ubatuba. Novembro/2011.

Detox no olhar

Mas não foi só isso. Antes de ser uma experiência de mudança no estilo de vida, de saída da rota do mercado avassalador, foi uma experiência de desintoxicação, de libertação do excesso, da necessidade de estar sempre envolvido com o exterior.

Crianças que, como meu filho, foram o primeiro filho, neto, bisneto, sobrinho, são autuadas o tempo todo porque,  como é de se esperar, todos querem paparicá-la. Só que o excesso de mimos a la paulistana faz com que a criança não consiga estar só nunca, não consiga se encontrar. De tanto ganhar coisas, atenção, entretenimento, a criança tem seu universo amontoado por coisas das quais ele nem sabe se gosta, se lhe apetece ou agrada.

O Fernando foi aprendendo a diminuir o ritmo, a olhar pra coisas entediantes pra ele como o horizonte, o mar, a floresta… foi aprendendo a parar, e, aos poucos, começou a gostar. Claro que muitas vezes se irritava com o marasmo, o que já era de se esperar de uma criança que desde bebê foi acostumada a se alimentar em frente a telas, a ganhar coisas sem fim, que não sabia o que era tédio, que não tinha paciência para todas as coisas que exigissem pausa no entretenimento, como escovar os dentes, colocar meias, pentear o cabelo, etc.

Contudo, com o passar do tempo, ele começou a aprender a ser feliz com menos coisas, pudera! Estávamos em Ubatuba e ele tinha mais a mim e mais a ele mesmo.

A pracinha “encantada” do centro de Ubatuba. Parada obrigatória. Novembro/2011.

Mostrar um outro “lugar” para seu filho olhar, tirar os olhos dele do objeto de desejo mostrando a ele novos horizontes é derrotar, além do consumismo, o autoritarismo que só brada “nãos” e a desconexão que hoje impera entre mães, pais e filhos, e vivenciar a autoridade de mães e pais que guiam seus tutelados para uma direção mais feliz.

No litoral, à medida em que consumíamos menos, nos aproximávamos mais e convivíamos mais, compartilhando nosso tempo e espaço.

Mudar o foco do consumo para a experiência, para a atividade física (brincadeiras) ou intelectual (jogos) em vez da passividade (eletrônicos), para o olhar nos olhos profundo, para o olhar a natureza e brincar nas areias da praia, para a companhia além da coexistência, é a saída mais inteligente para um caminho menos consumista e mais vívido, para uma vida de mais amor entre pais, mães e filhos.

Praia da Almada, Ubatuba, Jan/2012.

A praia, o rio, o parquinho, os livros, as flores, os pássaros e as borboletas foram nossos grandes aliados nesse processo de desapego.

Assim, se eu pudesse resumir como dizer não para o consumismo infantil numa só afirmação seria “sendo mais você mesmo”. Quem prefere ser a ter, não tem tempo pra ir demais a shoppings, pra comprar o que não precisa, não tem tempo pra ver TV. Dando o exemplo, os filhos seguem e, em vez de pais e mães consumistas, teremos pais e mães presentes e conectados, e filhos igualmente. Entretanto, é claro que há um sistema prisional que se impõe, ocorre que pais e mães livres, são naturalmente atuantes e desarticuladores do sistema vigente, e é sobre novas atitudes que estamos falando aqui.

Não às amarras, sim à vida!

Namastê! <3

Praia do Centro de Ubatuba. Dezembro/2011.

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Como dizer “não” para o consumismo dos filhos

O mercado apela para nossas carências ocultas e o consumismo se configura para satisfazê-las. Se ele não existisse, não saberíamos que haveria um problema. O desequilíbrio exterior vem sempre de um desequilíbrio interior.

Se acreditamos que precisamos de tantas coisas é porque falta que nos apoderemos de nós mesmos. O consumismo tanto adulto quanto infantil revela uma falta de conexão consigo. A vontade excessiva de TER significa sempre uma falta de SER.

Continuando os artigos Bebê Livre de Consumismo e Menos Telas Para Mais Vida, trago mais uma medida prática a ser tomada como vacina (porque dói mas livra) por mães, pais, avós, cuidadores, enfim, todos que lidam com crianças e que pretendem propiciar a eles uma vida mais livre.

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Fernando no jardim do condomínio. Julho/2015.

 Não, não e não! Ou outros sins

Um passo simples rumo a liberdade é negar às crianças, desde bebês, os pedidos de consumo desnecessários e dizer um “não, obrigado” aos presentes de grego.

Claro que essa atitude depende, primeiramente, da diminuição do consumismo dos pais. Não adianta discursar sem dar o exemplo, pelo menos não para os seus filhos, que sempre irão muito mais te imitar que seguir o que você diz.

Outra coisa: não adianta, também, frequentar assiduamente antros de consumismo, como os shopping centers, ou deixar a TV ligada no Discovery Kid’s e outros canais de TV a cabo para crianças, que metralham publicidade na cabecinha deles e impõem produções com valores consumistas e ritmo alienante. (Leia mais em Menos Telas Para Mais Vida).

Toda vez que eu ia ao shopping com meu filho mais velho, por volta dos 2 a 3 anos dele, ele exigia que eu comprasse para ele um balão de gás. O meu discurso era sempre o mesmo “você não precisa de mais um, tem outro lá e casa!”. Às vezes eu cedia, às vezes não, e nessas que não ele desempenhava um super show dramático para todos os presentes. Hoje, eu entendo muito mais o lado dele. Qual a graça de passear num shopping sem consumir? Qual a graça de só passear e comer? Que era o que fazíamos a maioria das vezes. Pra uma criança, nenhuma. Ele queria, pelo menos, um balão novo para se entreter.

É tortura expor os filhos a tantas coisas atraentes e negar-lhes quase todas. Além, é claro, de se tornar a mãe e o pai chatos, já que as crianças pequenas não têm maturidade pra entender o porquê do “não”. Nenhum pai e mãe quer ser percebido como mal, ninguém quer deixar um legado de escassez na memória infantil, o que, já está mais do que comprovado, é péssimo para o futuro adulto.

Então, em vez de viver dizendo “não, não e não!!!” para o “eu quero, eu quero, eu quero!”, o melhor é evitar tantos enfrentamentos. Como? Evitando a ocasião de tê-los, trocando o shopping pelo parque, as diversões eletrônicas pelo parquinho, ou seja, efetuando uma mudança de hábito: do consumismo para a vida mais simples e mais valorosa.

O bom e velho parquinho é uma ótima opção para compartilhar com os pequenos
O bom e velho parquinho ganha da televisão. Ana Julia. Praia do Centro de Caraguatatuba.

O que você pode fazer para tornar a vida da sua família realmente abundante?

Abaixo um trecho do Sermão da Montanha, que sempre me inspira:

«Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou há de unir-se a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos da vossa vida pelo que haveis de comer ou beber, nem do vosso corpo pelo que haveis de vestir; não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? Por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus, pois, assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Assim não andeis ansiosos, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? (Pois os gentios é que procuram todas estas coisas); porque vosso Pai celestial sabe que precisais de todas elas. Mas buscai primeiramente o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.» (Mateus 6:24-33)

Porque é difícil dizer “não”

Se você tem dificuldade em dizer não para os seus filhos é porque, provavelmente, não consegue dizer não pra si mesmo. Quem só sabe se divertir consumindo, também só sabe agradar com coisas. No exemplo acima, eu, não deveria estar passeando num shopping, que o próprio nome significa “ato de comprar”, onde toda a diversão é paga.

Fica muito mais fácil dizer “não” quando isso não se torna um hábito, ou seja, quando diminuímos essa possibilidade ao nos expormos a menos produtos e publicidade. Se você não é uma mãe ou pai que vive dizendo “não”, seus filhos irão aceitar melhor quando você tiver que dizê-lo e vão ficar muito mais agradecidos quando receberem um “sim” ou algo novo sem nem pedirem.

Quem ganha em excesso, quem é agradado com coisas, quando não ganha, sofre com a falta, que, na verdade, não é do objeto em si, mas do afeto vinculado àquilo que ganha. Por isso, muitas vezes, presenciamos tantos protestos em centros de consumo… não é só birra.

Fernando adivinhando as nuvens. Praia do Centro de Caraguatatuba. Abril/2013.
Fernando adivinhando as nuvens. Praia do Centro de Caraguatatuba. Abril/2013.

Para refletir:

Que coisas (produtos/serviços) desnecessárias seus filhos consomem?

Quais dessas coisas você considera prejudicial a eles?

O que você não gosta que seus filhos ganhem?

Com que frequência você compra coisas desnecessárias?

Você diz não para os pedidos de consumo desnecessários dos seus filhos?

A seguir, mais um artigo sobre os prejuízos do excesso de consumo na infância.

Namastê! <3

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