Criança em estado de shopping ou criança em estado de natureza?
Já aconteceu de você ter ido a um shopping com seus filhos e, ao sair de lá, ter tido a sensação de que apesar de ter gasto consideravelmente, vocês não se divertiram? Ou, você já passou maus bocados num shopping devido às birras consumistas dos seus filhos? Você gostaria de se divertir com suas crias sem que precisassem consumir tanto?
Que tal tirar seus filhos dos shoppings? Que tal parar de frequentá-los? Que tal se, desde bebês, seus filhos não soubessem o que é frequentar antros de consumismo? Quais valores você quer lhes passar? Qual realidade você quer que eles conheçam?
Como eu disse no artigo Como dizer “não” para o consumismo dos filhos, um dosfatores que irá definir o estilo de vida consumista ou não deles, diz respeito aos locais que vocês frequentam. Se eles vivem em shoppings, como eu vivi e como meu primeiro filho viveu enquanto morávamos em São Paulo, aprenderão, erradamente, que felicidade é consumir… uma crença que custa a mudar, principalmente se é estabelecida durante a primeira infância, quando as crenças se concretizam profundamente no nosso ser.
Pausa no frisbee no jardim. Maio/2015.
Onde vocês frequentam? Qual o tipo de identificação que vocês têm com esses locais? Onde você estão conectados?
Somente respondendo essas perguntas a si mesmo é que as coisas podem ficar claras e você poderá, então, decidir mudá-las – e isso não é difícil.
Porquê escolhemos o pior
Segundo uma pesquisa do Datafolha de setembro de 2013, 70% dos paulistanos tinham o hábito de frequentar shoppings. Acredito que esse número tenha crescido, assim como o número de shoppings cresceu na cidade, de uns anos pra cá.
Na mesma matéria, na opinião da urbanista Heliana Vargas, coordenadora do Laboratório de Comércio e Cidade da FAU-USP, “em uma cidade como São Paulo, com sérios problemas de trânsito e de segurança, o shopping conquista por sua praticidade (…) é a preferência do paulistano por ser um ambiente organizado, confortável, onde se pode comer, comprar e ir ao cinema com segurança. Daí a popularidade”, diz.
Aliás, você já percebeu que o ambiente dentro de um shopping é perfeito? Clima sempre agradável e constante, devido ao sistema de ar condicionado, vendedores acolhedores, devido ao interesse mercadológico, com tudo o que se necessita para passar em média 16 horas (mais ou menos o tempo em que ficam abertos) das 24 do dia, com estrutura de segurança de ponta… tudo muito artificial, um ambiente bem diferente da realidade, que funciona somente com muita estrutura tecnológica, pessoal capacitado para servir aos frequentadores e relações humanas reduzidas ao ato de consumir.
É como num sonho… talvez uma fuga da realidade nada amena? Talvez devêssemos tornar a nossa realidade mais sonho, que fugir dela para o sonho de consumo, para as bolhas consumistas alienantes
Nos shoppings, há quase tudo o que desejamos ter, desde ofertas gastronômicas diversas até imóveis em locais, igualmente, de sonho; só que “desejar” e “ter” são verbos que pouco têm a ver com felicidade, principalmente em se tratando de bens supérfluos, porque é isso que os shoppings oferecem.
Fernando no shopping de Ubatuba: hábitos que demoram a se perder. Fevereiro/2012.
O que queremos quando vamos a um shopping? Osho traz uma desnudante reflexão acerca dos nossos quereres:
“Você me pergunta ‘O que eu quero?’ Eu é que devo lhe perguntar, ao invés de você me perguntar, porque depende de onde você está. Se você estiver identificado com o corpo, então o seu querer será diferente; então comida e sexo serão suas únicas vontades, seus únicos desejos. Esses são dois desejos animais, os mais baixos. Eu não os estou condenando ao chamá-los de mais baixos, eu não os estou avaliando. Lembre-se, eu estou apenas afirmando um fato: o mais baixo degrau da escada. Mas se você estiver identificado com a mente, os seus desejos serão diferentes: música, dança, poesia, e depois existem mil coisas. (…) Se você estiver identificado com o coração, então os seus desejos serão de uma natureza ainda mais elevada, mais do que a mente. Você se tornará mais estético, mais sensitivo, mais alerta, mais amoroso.(…) Assim, depende de onde você está ligado: no corpo, na mente ou no coração. Esses são os três mais importantes locais nos quais a pessoa pode funcionar. Mas também existe um quarto local em você; no oriente ele é chamado de turya. Turya simplesmente significa o quarto, o transcendental. Se você está consciente de sua transcendentalidade, então todos os desejos desaparecem. Então a pessoa apenas é, sem qualquer desejo, sem nada para ser pedido, para ser atendido. Não existe futuro ou passado. Então a pessoa vive neste momento completamente satisfeita, realizada. No quarto, o seu lótus de mil-pétalas desabrocha; você se torna divino. “
Anita inconsolável quando o carrossel parava. Caraguatatuba. Junho/2014.
O caro que sai ainda mais caro
Abordando o aspecto consumo, porque é disso que shopping (do inglês ato de fazer compras) se trata, seus filhos pequenos não sabem o preço disso tudo, ou melhor, não têm nem ideia do que seja preço. Como explicar, então, que nesse lugar “de sonho” tudo custa certa quantia em dinheiro, desde o estacionamento? Ou, que não se pode consumir tudo o que um shopping oferece o tempo todo? Que as atrações acabam, rápido, e que não dá pra ir “toda hora de novo”, principalmente as infantis (o que não é por acaso, é para entrar no loop do consumo). Não, não e não! Não dá pra explicar tudo isso. Não dá pra exigir esse entendimento insano de uma criança pequena, muito menos de um bebê meu Deus!
As atrações em shoppings são feitas de modo que criem aquela situação pavorosa em que as crianças, que possuem memória de curto prazo (músicas curtinhas, atenção curtinha, etc), querem consumir mais e mais do mesmo atééé cansarem, dificilmente aceitando o fim da atração, protestando muito contra você “pai/mãe malvados” passarem a lhe negar o que ela está adorando (“por quê???”). Sem dizer que, quando cansam, já estão dispostas a querer consumir outra coisa, aliás, o que há mais pra se fazer num shopping? E criança saudável quer diversão, só que num shopping diversão tem preço.
Isso sem falar no que custa à saúde infantil o excesso de atrações eletrônicas, principalmente as que incluem telas. (Mais sobre, aqui)
Dentro do shopping todos estamos entretidos o tempo todo, porque há muitas coisas atraindo atenção, dizendo “me consuma! me consuma!”. Estamos, portanto, com o nosso olhar voltado para o lado de fora o tempo todo, sem tempo para olharmos para dentro, desconectados de nós mesmos. E o que a desconexão causa, principalmente em crianças: agitação, irritação, choro, tristeza. Crianças e adultos precisam de locais onde possam olhar para dentro, onde possam estar paz, sem ter nada pra fazer a não ser estar consigo mesmos.
Se o hábito de frequentar shoppings já foi criado, é muito chato ter que ficar dizendo “não” o tempo todo. “Não” pra ir ao shopping, “não” pra ir ao local de diversões eletrônicas, “não” pras inúmeras e atraentes “comidas” processadas. É cansativo demais ficar explicando porque não dá o tempo todo, não é mesmo?
Se você é do tipo que sempre disse sim a esse tipo de passeio mas está disposto a mudar de vida e quer começar a dizer não, prepare-se! Meu filho, por exemplo, não podia passar perto daqueles quiosques que vendem balões de gás que queria levar um pra casa, também insistia muito em todo tipo de brinquedo “papa-fichas” que ficam subindo e descendo ou rodando e tocando uma musiquinha nada a ver. Quando comecei a dizer não, era sempre um show. Então, ponta firme e corre pro parque! (Sobre isso leia: O que há por trás das birras consumistas)
Primeira vez da Anita no Parque Ibirapuera, com 50 dias de vida. Julho de 2012.
Como abandonar o sistema
Eu sei o quanto é difícil buscar uma vida alternativa numa cidade que necessita de ambientes acolhedores, seja pela questão da segurança, seja pela necessidade de ter lugar pra estacionar, seja por conta da correria da cidade grande que nos faz necessitar de um local com estrutura para relaxarmos, seja porque precisamos de um mínimo de estrutura para conseguirmos nos divertir com as crianças (será mesmo?).
Na verdade, creio que o mais difícil de tudo está em resgatarmos velhos hábitos, que nos aproximem do outro e não das coisas, que possibilitem a troca e não que necessitem do dinheiro para trocar, em suma, que possibilitem o SER acima do TER.
Ouso dizer que a maioria dos pais e mães urbanos encontram-se incapazes de se divertirem com os filhos sem entrar na situação de consumidor. Não dá pra simplesmente estar junto e let it go! Temos que ir ao cinema, ou creditar no cartão de jogos para garantir o brincar eletrônico (em vez do brincar entre humanos), ou relegar a monitores a vistoria da diversão solitária dos filhos, ou gastar com alguma besteira pra mastigar: a regra é entreter, nem que seja através dos dentes!
Carrinhos de Bebê
Outra coisa que quem frequenta shopping sabe bem é que a ostentação começa no carrinho do bebê. Há carrinhos que chegam a custar R$6 mil, como o Aston Martin Silver Cross. Cabe a você decidir inserir seu bebê nesse mundo infeliz do pode mais quem paga mais, ou não.
Nossa geração mãe/pai classe média urbana, cresceu em shoppings, aprendemos a frequentá-los desde sempre. Como viver, então, sem isso? Como resgatarmos a brincadeira de rua, a infância livre na prática?
A minha opção foi sair da cidade gigante e mudar para o litoral (mudança drástica, resposta a muitos anos de opressão rs), com um shopping de dar dó em Ubatuba (graças a Deus!), a cidade em que aportei primeiro. Mas, antes mesmo dessa grande mudança, eu passei a mudar meus hábitos e dos pequenos e a passear mais pelo bairro, brincar mais no quintal da avó e área comum do prédio e a frequentar mais os parques da cidade, confesso que meu salário reduzido na época, por opção de querer dedicar meu tempo mais aos filhos que ao mercado, auxiliou na escolha do mais em conta, e melhor.
Nós no Parque do Cordeiro, pertinho da nossa casa na época, na zona sul da capital paulista. Agosto/2012.
A vida real está fora
Se seus filhos vão a outros lugares ao ar livre, aprenderão, desde sempre, que a vida é abundante, pois terão mais espaço, mais natureza e mais pessoas para compartilhar, pessoas, essas, em situação de maior conexão, portanto, mais abertas para trocar, você, por exemplo, que não estará distraído com vitrines, em situação de cliente, mas apenas sendo pai/mãe.
A maioria dos pais e mães ainda estão submetidos à jornada insana de mais de 8 horas de trabalho diário, a maioria das crianças também passa grande parte do seu dia, senão mais ainda que os pais, dentro de instituições. Poxa! Vocês merecem o lado de fora! Na verdade, precisam dele.
Se seus filhos frequentarem lugares ao ar livre, aprenderão, também, que a vida é instável, nem sempre confortável, pois estarão em contato com o tempo, assim como ele é, mas que pode ser plena de aventuras reais, sem que, pra isso, seja preciso possuir coisas, mas apenas SER quem somos em integração com a Existência.
“Investigue, olhe para o lugar exato onde você está. No que me diz respeito, todo desejo é completo desperdício, todo querer é errado. Mas se você está identificado com o corpo, eu não posso dizer isso para você, porque isso estará muito longe do seu alcance. Se você está identificado com o corpo, eu lhe direi, mude um pouco para desejos mais elevados, os desejos da mente, e depois um pouco mais alto, para os desejos do coração, e depois finalmente ao estado sem desejos. Desejo algum jamais será satisfeito. Esta é a diferença entre a abordagem científica e a abordagem religiosa. A ciência tenta satisfazer os seus desejos e, naturalmente, a ciência tem sido bem sucedida ao fazer muitas coisas, mas o homem permanece na mesma miséria. A religião tenta acordá-lo para a grande compreensão para que você possa ver que todos os desejos intrinsecamente não conseguem ser satisfeitos. É preciso ir além de todos os desejos e somente assim haverá contentamento. Contentamento não é o fim de um desejo, contentamento não é a satisfação do desejo; porque o desejo não pode ser satisfeito. Com o tempo, quando você chegar à satisfação do seu desejo, irá descobrir que mil e um outros desejos surgiram. Cada desejo se ramifica em muitos desejos novos. E isso acontecerá repetidas vezes e toda a sua vida será desperdiçada. Aqueles que sabem, aqueles que vêem – os budas, os despertos – todos concordam em um ponto. Isso não é uma coisa filosófica, é factual, o fato do mundo mais interior: o contentamento acontece quando todos os desejos tiverem sido abandonados. É com a ausência de desejos que o contentamento surge dentro de você. – na ausência. Na verdade, a própria falta de desejos é contentamento, é preenchimento, é gozo, é florescimento.” (OSHO – Come, Come, Yet Again Come – Cap. 4 – Pergunta 3, Tradução: Sw. Bodhi Champak)
Se você ainda pretender continuar frequentando assiduamente shoppings e levando seus filhos consigo, não reclamem depois de os terem criado à sua imagem e semelhança de zumbizinhos alienados que só sabem ou estar passivos, quando entretidos com algo, ou ativos demais, estressados ou hiperativos, colocando pra fora todo o excesso de informação a que foram submetidos e enlouquecendo a todos os demais, porque criança externaliza muito mais, e hiperatividade e TDAH são apenas termômetros que indicam, na maioria das vezes, modos de vida desequilibrados.
Mas antes de fazer sua escolha, ouça outra palavra: um super TED Talk com o lúcido, preciso e arrepiante pediatra Daniel Becker, sobre os sete pecados capitais contra a infância e suas soluções, trazendo a importância das crianças e adultos estarem do lado de fora, porque a natureza exterior leva à natureza interior!
Gratidão por ler! Por uma vida mais livre para todos nós. <3
Mesmo que você não se considere uma pessoa invejosa, em algum momento da sua vida você já deve ter sentido inveja de alguém, não é verdade? Bom, mas pode ser que não, pode ser que você faça parte da minoria que já desapegou desse sentimento e esse artigo não é pra você.
Por outro lado, se você já caiu em tentação, e já se pegou desgostoso pelo bem alheio (“por que não eu?!”) não se aflija, agradeça. Sim, porque embora seja considerada vil e vergonhosa e, por isso mesmo, difícil de confessar, a invídia tem seu lado bom. Como diria A cor do som:
“Não se negue Escorregue nesse Regue Não se arregue Escorregue Segue e persegue esse caminho no suingue menina.”
Assumir para libertar-se
Longe de dizer que inveja é algo bom, sentir inveja tem seu lado bom e assumir isso faz bem, pois como dizia Paulo de Tarso, o amor não inveja e se alegra com a verdade.
Talvez a inveja tenha essa fama abominável, porque o hábito de negá-la impossibilita observá-la mais de perto e verificar que ela tem algo valioso para a nossa felicidade.
Yin e Yang
Yin e Yang são dois conceitos básicos do taoismo que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. Descrevem as duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas: o yin é o princípio feminino, a água, a passividade, escuridão e absorção. O yang é o princípio masculino, o fogo, a luz e atividade.
Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência. Esse complemento existe dentro de si. Assim, se deduz que nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua. Além disso, qualquer ideia pode ser vista como seu oposto quando visualizada a partir de outro ponto de vista. Neste sentido, a categorização seria apenas por conveniência.
Todavia, é de se entender essa negação tradicional da inveja.
O que não falta no mundo é gente pra dizer pra gente pra parar de sentir o que a gente sente (assim com aliteração mesmo e como se isso fosse possível), ainda mais quando o que sentimos é tachado de ruim, porque, também, não falta gente pra tachar as coisas de boas ou ruins e perpetuar o falso maniqueísmo.
E aí, o que a gente faz? Finge que não tem inveja e deixa ela ali de escanteio, sem olhar pra ela. Porque né, basta a gente olhar pra alguma coisa pra todo mundo perceber que essa coisa existe, e, se essa coisa feia é nossa então, daí é que a gente finge que não tem mesmo.
Negar a inveja é um erro, aliás, negar qualquer coisa é um erro e com a inveja não seria diferente. Coisas ruins, por mais vexatórias que sejam, não devem ser negadas, mas observadas, para aprendermos com a dor ou desconforto que elas causam e para que nos libertemos delas.
A negação não nos liberta do mal, pelo contrário, nos transforma em prisioneiros inconscientes do que estamos negando. Jáa verdade, liberta.
Quando negamos a inveja, em vez de seguirmos nosso caminho animados (isso quando não empacamos), seguimos com desgosto, achando que o outro é privilegiado na Existência, e que a gente não tá ganhando o que merece; e vivemos com esse incômodo chato que nem zumbido de pernilongo na madrugada, que vai continuar conosco até a gente aceitá-lo, encará-lo e entendê-lo, porque tudo nessa vida tem um propósito, e, enquanto a gente não descobre o propósito das coisas, elas perduram.
Então não negue, porque a inveja só é boa dentro do prazo de validade.
Um dos nossos grandes erros ao sentir algo ruim é mentir pra si mesmo de que se trata de um sentimento bom. Outro é negar que se sente a coisa ruim. Mas o pior deles é acreditar que o lado ruim, é totalmente ruim.
É perda de tempo negar a existência do mal. Tudo é Yin e Yang. Mas, mais perda de vida ainda é deixar que ele permaneça além do tempo, porque, como dizia o rei Roberto: “se o bem e o mal existem, você pode escolher.”
A inveja como farol
Farol de Portland, Cabo Elizabeth, Maine, EUA.
A inveja é como um farol que nos mostra o caminho para navegarmos em direção ao nosso eu mais profundo, que está em terras firmes, sempre iluminado, esperando por nós.
sf (lat invidia) 1 Desgosto, ódio ou pesar por prosperidade ou alegria de outrem. 2 Desejo de possuir ou gozar algum bem que outrem possui ou desfruta.3 O objeto que provoca esse desejo. Var: invídia.
Sentir inveja é uma coisa boa, pois, como tudo o que sentimos, é um sinal para encontrarmos mais uma faceta da nossa alma e nos tornarmos cada vez mais conscientes.
Invejamos alguém que tenha algo que desejamos ou que seja algo que gostaríamos de ser, certo? Então, é do sintoma inveja, que enxergamos a carência que está nos provocando a atitude de nos compararmos a alguém e desejarmos o que esse alguém tem, com desgosto e vitimização.
A inveja sempre tem a ver com você e não com a pessoa invejada. Na maioria das vezes, nem conhecemos tão bem assim a pessoa que invejamos para saber se ela está mesmo tão melhor do que a gente como ela aparenta estar. Pois, como disse um dia Miguel de Cervantes “a inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas”.
“Uma flor não pensa em competir com a outra, ela simplesmente desabrocha.” Variações de Vitórias-Régias.
A inveja nos mostra onde, dentro do nosso ser, não nos sentimos amados, onde não nos sentimos suficientemente bons. (Paula Abreu)
Se concebermos a inveja como uma oportunidade de auto-conhecimento, se conseguirmos encará-la como algo que só tem a ver conosco e ir além do amargor que ela causa, sentiremos gratidão ao notá-la, gratidão a esse farol que nos indica o caminho do nosso Ser.
Para o incômodo causado pela inveja passar, melhor que negá-la é atuar como um estudioso de si mesmo e observá-la. A partir do momento em que você se coloca como observador de si mesmo, observador do seus próprios sentimentos, o que você sente se distancia de você, porque no momento em que você passa a observar, você já não está mais sentindo inveja mas outra coisa, porque você já não se identifica mais com seu ego afetado pelo brilho do outro mas com seu Eu maior, que é capaz de se olhar e se assumir como autor da sua própria história. Em vez de se vitimizar, você se empodera, a paz se restabelece e você identifica suas insatisfações. (Gratidão mestre Osho!)
“Inveja é a falta de fé em si.” (Ditado árabe)
Farol de Formentor, Mallorca, Espanha. Foto: Stefan Brenner
A inveja é também um farol que nos mostra um novo destino, um novo porto a abarcar, um novo lugar para conhecer até que o barco da vida queira voltar a navegar.
Ela é um sinal da nossa capacidade de ver além da nossa realidade, de identificar no outro o melhor que queremos para nós. Não quero dizer que temos que sentir inveja para transcender nossa percepção e buscar uma realidade melhor, mas a inveja é, também, um caminho para vermos além, isso, claro, se percebermos ela em nós e perscrutarmos a nós mesmos.
Se não conseguimos invejar ou admirar alguém da onde estamos, isso significa que temos que buscar outros ambientes, onde possamos vislumbrar novos horizontes, novos guias, para que nossa evolução espiritual possa deslanchar.
Por outro lado, se deixarmos que a inveja nos envolva, como dizia Sêneca, avistaremos apenas o que está próximo de nós, e admiraremos com menos astúcia o que está distante. Ou seja, ao invés de ser um farol a iluminar novos caminhos para dentro do nosso ser e universo afora, ela entravará nosso olhar e irá nos encerrar num mundo muito limitado, sufocante.
Por isso, sentir inveja por muito tempo e o tempo todo não é uma coisa boa, como afirmam os textos islâmicos, “assim como o fogo queima a lenha, a inveja consome as boas ações.” A inveja pura paralisa, a inveja analisada, liberta.
Captou a inveja? Não deixe ela se enraizar. Tire ela de você e olhe para ela.
Olhe para você. O que você está invejando em alguém? Em que área da sua vida você inveja alguém? É exatamente aí que você se encontra mal resolvido consigo mesmo. É exatamente aí que reside uma crença de que você não é o bastante.
Por exemplo, se você inveja outra mulher mais bem-sucedida que você, que faz o que ama, por exemplo, e consegue viver bem financeiramente fazendo o que ama. Dentro de você reside uma crença de que você não consegue fazer o que ama e ser bem remunerado por isso, e mais, que você precisa disso, trabalhar no que ama e ganhar bem, para se sentir feliz e amado. Mas, vou te contar uma coisa: você já é o bastante sendo quem você é, exatamente neste instante.
Ao invés de fugir desse sentimento e dessas pessoas que você inveja, encare o que você sente com sobriedade e busque estar com essas pessoas que você inveja, porque elas podem iluminar seu caminho apenas sendo elas mesmas e, somente por isso, inspirando você a ser você mesmo e a se descobrir e se realizar.
Não é o outro, é você!
A inveja é um sentimento que você sente, VOCÊ, e, como tudo na vida, só o que você sente importa para você.
E, se você sente isso, aproveite para aprender com isso.
“Hoje Eu vi nos olhos das pessoas, O seu segredo de inveja, De querer ser o que não é. Suas vidas são tristes, é certo. Seus semblantes pesam demasiadamente, E porque em si não encontram a si mesmas, É lá no Outro que procuraram existir.” (Henrique de Shivas)
Aliás, só conseguimos ver os outros a partir de nós mesmos. Parece loucura, mas, na verdade, é mágico. Saiba que tudo o que você enxerga no outro que te faz invejá-lo é algo que existe em você. Mas daí você vai me dizer, “Não! Claro que não! É o oposto. Eu invejo porque não tenho e gostaria de ter.” E eu vou te dizer que você só pode ver a partir de você, do que você é capaz de ver, e se você é capaz de ver é porque você já conhece e aquilo tudo que você inveja no outro, você já possui, só ainda não MANIFESTOU.
Um dia minha terapeuta e amiga querida postou no perfil do Facebook dela uma frase que me marcou de Alejandro Jodorowsky, que me fez buscar o poema completo:
“No me conoces, me imaginas.
Solo ves en mi lo que eres tú.
Cuando dices que me amas,
amas esa parte de ti que amas.
Cuando dices que me odias
estas odiando eso de ti que no te gusta…
no me conoces, me imaginas.
No es de extrañar,
es lo único que puedes hacer.
Si me imaginas soy tú,
soy un invento,
y solamente verás en mi aquello
que reconozcas en ti.
Si te gusta lo que ves en mi,
¡No lo cambies!
Pero si no te gusta… ¡Cámbialo en ti!
Te amo, porque me amo.”
Aceite-se, perdoe-se, ame-se. Você tem luz própria!
Quando escrevi o último artigo Creme para prevenção de assaduras: um produto a menos, esperava por críticas ao que estava defendendo, muitas. Só que, para minha surpresa, não li uma sequer por onde o texto foi compartilhado nas redes, pelo contrário, além de alguns questionamentos sobre como lidar na prevenção e tratamento de assaduras, li com alegria os inúmeros comentários e dicas envolvendo o tema de trocas e de menor uso de produtos industrializados nas crianças desde bebês.
Assim, me certifiquei da necessidade de complementar o tema de trocas, mas apenas para destrinchar o que já está explícito. Dessa forma, acrescento que lenço umedecido é outro produto a menos para se consumir na vida mãe-bebê.
Mas, antes de começar a desfiar “elogios” ao lencinho, te faço uma pergunta: você já usou lenço umedecido em você? Ou melhor, já usou lenço umedecido em você durante meses seguidos, todos os dias, diversas vezes ao dia? Recomendo experimentar para sentir na pele, literalmente, o porquê de esse ser um produto ruim, que deve ao máximo ser evitado. Se quiser testar e tirar suas próprias conclusões, nem precisa continuar a ler. Nada ensina melhor do que a própria experiência ;). Do contrário, vamos adiante!
A primeira vez que troquei meu primeiro filho. Vovô arrumando. (Março/2009)
Porque abolir o lenço umedecido da vida
A proteção natural da pele
A pele serve de “armadura” para você: suas estruturas protegem o corpo das agressões do meio ambiente, como bactérias e fungos, condições climáticas, poluição e substâncias químicas, entre outras.
Além de proteger o corpo, a própria pele produz para si uma camada de proteção, chamada manto hidrolipídico. Esta camada é formada por uma mistura de gordura, produzida pelas glândulas sebáceas, e suor, fabricado nas glândulas sudoríporas.
O manto hidrolipídico lubrifica a pele e os pêlos. E porquê essa lubrificação é importante? Porque a camada de sebo e suor torna a pele mais resistente às infecções. Os fungos ou bactérias presentes no ar têm mais dificuldade de penetrar na pele e causar doenças, como as conhecidas micoses e o impetigo (aquela doença de pele que aparece em crianças).
Além de evitar infecções, o manto hidrolipídico protege a pele dos agressores externos que estão no ar, como pó, pólen, pêlos… Sem proteção, estes agentes irritam a pele, causando dermatites (inflamações). A pele também fica mais protegida da ação de moléculas das substâncias químicas, como aquelas que fazem parte dos detergentes e outros produtos de limpeza. Estas substâncias podem causar grande irritação, com vermelhidão, inchaço, coceira e secreções.
A lubrificação deixa os pêlos mais fortes, com menos chance de quebrar. Inteirinhos, eles ficam mais bonitos e desempenham melhor sua função de manter a temperatura do corpo nos dias ou locais frios.
Outra função do manto hidrolipídico é impedir o ressecamento, evitando a perda de água pela pele. Isso é muito importante em regiões ou épocas do ano nas quais a umidade do ar está baixa. Se não fosse o manto hidrolipídico, sua pele ficaria ressecada com mais facilidade. (Fonte: Saúde Total)
Os simples motivos para se abolir o consumo dos “inocentes” lencinhos são:
– caro: passar um simples algodão umedecido com água ou lavar o bumbum do seu filho, AINDA, é mais barato do que limpá-lo com o produto, então, pra quê gastar?
–antiecológico: os lenços umedecidos, são produtos descartáveis e podem ser facilmente substituídos por processos e produtos menos poluentes. Não estamos em uma conjuntura planetária onde podemos continuar consumindo produtos descartáveis, gerando lixo que ficará aí, ao Deus dará sabe-se lá até quando, para se degradar. Isso é um fato. Se você prefere ter água potável para seus filhos e netos, simplesmente pare de comprar produtos descartáveis. Além de ser descartável, esse “suave” produto, pode conter além do TNT (tecido não-tecido), que custa a desaparecer, mais de 10 substâncias químicas que contaminam o meio. Bom, se você não se importa em comer vegetais “temperados” (inclusive os orgânicos), basta continuar a utilizar produtos tóxicos, pois tudo o que você descarta, um dia você pode consumir de alguma forma, porque “na natureza (lembra?) nada se perde, nada se cria, tudo se transforma!” Pense em quantas reencarnações seu filho virá à Terra enquanto o “lixinho” dele, de milhares de lencinhos (fora as mais ou menos 5 mil fraldas, se vocês consomem descartáveis), se decompõe.
–insalubre: contém muitas substâncias químicas agressivas como o metilisotiazolinona, frequentemente encontrado em alguns lenços umedecidos e também usado em diversos produtos para limpeza doméstica, causador de graves alergias. Contudo, mesmo descartando a possibilidade de causar alergias, todo lenço umedecido remove em maior ou menor escala o manto hidrolipídico da pele (leia mais no quadro ao lado), deixando-a muito mais vulnerável a assaduras, candidíase (fungo), infecções bacterianas, etc, enfim, todo tipo de invasão. O perigo também está na possibilidade de ingestão dessas substâncias, como ressaltado num trecho de uma matéria de 2007 da revista estadunidense Baby Care Products:
“Os bebês e as crianças são especialmente vulneráveis a produtos químicos presentes em shampoos, sabonetes, loções, pomadas, lenços umedecidos e outros produtos. O cérebro das crianças, o sistema nervoso e outros órgãos, ainda estão em desenvolvimento, e assim substâncias que têm um efeito pequeno em adultos podem contribuir para problemas maiores em crianças. Os bebês também podem ingerir produtos que são destinados apenas para uso externo pelos dedos, mãos, colocando os dedos, brinquedos e outros objetos na boca. A pele dos bebês é mais fina e portanto mais permeável do que a pele de um adulto, permitindo que os componentes químicos sejam absorvidos com maior facilidade.”
Da suposta necessidade do lenço
Anos 50. Advento das fraldas descartáveis. A indústria percebe o bebê como consumidor e cria diversos produtos para suas “necessidades”.
Todas as vezes que vou a São Paulo compreendo o porquê da maioria de nós, mães urbanas, usarmos em nossos bebês diversos produtos nada sustentáveis: faz parte da “natureza” da cidade vivermos atentando contra nossa saúde.
Como trocar um bebê no carro ou num banheiro público com fraldas de pano e algodão umedecido em água, a opção mais saudável e econômica que existe? Que é possível, sim, é possível, porque eu consigo, mas que é difícil é, e com lencinho e fralda descartável é muito mais fácil; mas também, muito mais custoso, como estamos constatando.
Daí você vai me dizer: “Ah, mas só água não mata todos os GERMES!” Olha, eu sinceramente prefiro um pouco de germes supostamente perigosos na pele, que um montão de substâncias químicas detonando o manto hidrolipídico e a flora natural e abrindo caminho para uma invasão muito pior.
Essa ideologia higienista, que ganhou força a partir da industrialização, êxodo rural, formação das massas urbanas, consumismo, etc, não é natural. Não é natural usarmos um produto descartável com N substâncias químicas, sobre as quais ainda não temos total noção do mal que fazem, mas que consumimos porque serve à praticidade, somente. De que adianta um produto nos fazer ganhar tempo mas, ao mesmo tempo, perder saúde?
Uma coisa que aprendi nos últimos anos, num processo gradativo de simplificação da vida (gratidão suprema por isso!) é que podemos e devemos escolher com o quê facilitar a vida.
O processo de criação de uma necessidade ilusória, é mais ou menos assim: primeiro nos dizem que temos um monte de necessidades que não temos e nos fazem acreditar que temos, depois, nos enchem de produtos para satisfazê-las, depois e depois e depois vão “simplificando ainda mais as nossas vidas” nos trazendo produtos inovadores, que facilitam nosso cotidiano de satisfação daquelas necessidades lá do começo do parágrafo, que, na verdade, nunca tivemos. C’est le marché!
Em São Paulo você “precisa” de lenço umedecido pra trocar seu bebê porque você “precisa” correr pra trabalhar, correr pra trocar ele no carro porque é perigoso, correr pra trocar ele no fraldário porque tem fila, correr pra trocar ele porque você tem pouco tempo para cuidar do seu bebê. Tem mesmo? Ou você aceitou isso como verdade e corre com isso sem necessidade? Escolha! É uma questão de escolha, saiba disso, pra que você escolha com consciência e não por inércia. Falo isso agora, mas na minha primeira viagem como mãe, eu não sabia que tinha escolha.
Lencinho umedecido e o cuidado corrido: a minha experiência
Com meu primeiro filho gastava horrores em lencinhos e vivia questionando minha mãe e avós (como a maioria das mães de primeira viagem), inconformada, de como elas faziam na época delas para limpar os bebês, e elas me diziam que era com fraldas de pano ou lavando. Para mim, na época, aquilo era algo totalmente impensável, inviável, trabalhoso demais, demorado demais, nada prático. Hoje compreendo que os lenços umedecidos eram um item indispensável na minha rotina com meu filho porque eu corria demais com muitas coisas e limpar meu filho com algo menos agressivo e “demorado”, não era nem mesmo cogitável.
Anita em seu banho de sol sem fralda, fortalecendo os ossos, a pele e a alma, com quase 5 meses
Na época da minha segunda filha, eu decidi trabalhar menos, ser mais presente, cuidar sem pressa, consumir menos lenços. Aos 7 meses de vida dela, o uso de algumas marcas de lencinhos lhe causaram uma assadura dura. Na ocasião, suspendi o uso e, após o tratamento, reduzi ainda mais o consumo e passava uma fralda de pano ou algodão umedecidos em água para retirar um pouco da química do produto quando o usava.
Com a caçulinha, prefiro lavá-la com água na maioria das trocas, ou uso algodão umedecido, especialmente fora de casa. Lenço umedecido é só na urgência e em viagens, assim como fraldas descartáveis. Imagine a economia que venho fazendo, mas, melhor que isso, imagine a pele resistente e lindinha da minha pequenininha. 😀
O excesso de consumo de lenços umedecidos está diretamente ligado a nossa falta de tempo para sermos mães.*
Estamos falando aqui de libertação de consumo desnecessário, de economia de recursos, de saúde, de perder tempo com o que vale a pena. Quer cuidado mais delicioso que trocar, limpar, acarinhar nossos filhos nos constantes momentos de troca, porque, além de lhes trocarmos as fraldas nesses momentos, trocamos sobretudo carinhos, olhares, palavras, amor.
Você tem opção!
Estela de zebrinha no jardim. Com 6 meses. Agosto/2015.
Você pode fazer como eu e lavar o bumbum e genitais do seu bebê quando estiver em casa ou onde seja possível, usar algodão embebido em água (que só precisa ser morna em tempo frio), pode usar borrifador nas trocas, óleo de gergelim, de coco, azeite, etc, com paninho, toalhinha, etc, etc. Internet tá aí pra N opções.
Se você não quer abrir mão da praticidade do lencinho, opte por fazer você mesma um produto mais seguro. No YouTube e em diversos sites, há tutoriais ensinando como fazer o produto de forma artesanal e biodegradável: uma opção mais segura para a saúde do seu bebê e para o nosso planeta. Como este, por exemplo.
Sou mãe de três e perco tempo nesse cuidado cheiroso que é trocar minha bebê sem lenços e com fraldas de pano, e, sim, me arrependo de ter corrido tanto, mas regressivamente, com meus dois primeiros bebês. Se eu pudesse voltar no tempo, “perderia” mais tempo nas trocas deles, trocando com eles, esquecendo do tempo e dos lenços.
Quando você usa em seu bebê pomada para prevenir assaduras, porque incutiram em sua mente, desde sempre, que se trata de um produto essencial na sua nova vida de cuidados com seu bebê, você tende a acreditar que, caso não use o tal produto, seu bebê fatalmente terá assaduras, ou, como repete o senso comum, que “é melhor prevenir do que remediar”. Certo?
Bom, no artigo Bebê Livre de Consumismo, refleti acerca da real necessidade de um bebê. O que seria realmente necessário, em termos de consumo, “além de leite materno e alguns panos?” Poderíamos comprar menos produtos industrializados para nossos bebês? O que seria necessário, baseado em evidências?
Para mim, um dos produtos para bebês que pode ser banido do consumo é o creme para “prevenção” de assaduras, assim, com aspas mesmo, porque percebi que em vez de prevenir assaduras, torna os bebês mais suscetíveis a tê-las e a necessitarem de tratamento, seja com produtos naturais, seja com pomadas para assaduras (a maioria composta de nistatina + óxido de zinco), nos casos mais graves.
Não uso esse produto na minha bebê atual desde que ela nasceu, e também quase não usei na minha filha do meio. O que noto na minha experiência de trocas de três filhos, é que se trata de um produto totalmente dispensável, tanto por não fazer o que e propõe e desperdiçar os recursos extraídos para sua fabricação, quanto, e pior ainda, por fazer mal à saúde do bebê, ou seja, é totalmente insustentável.
A minha experiência
Bom, por seguir as crenças lá do primeiro parágrafo desse artigo é que eu usei esse tipo de creme em quase todas as trocas com meu primeiro filho, assim como aconselha o fabricante, aliás, ganhei um de brinde já na maternidade. Só que, bastava eu esquecer de aplicar o produto, que meu bebê já ficava assado, muito assado tadinho, de despelar. Daí aquela ideia propagada e vendida, de que se tratava, realmente, de um produto indispensável, se fixou na minha mente, e, definitivamente, acreditei que se eu não “prevenisse”, ele ficaria assado.
Meu primogênito quando bebê. Super consumidor de creme para prevenção de assaduras.
Só que com minha segunda filha, (como eu já tinha adotado uma nova postura, de ser mais “eu” como mãe, pois já tinha constatado as inúmeras mentiras que tinha seguido, aliás, acredito que esse é um movimento da maioria), decidi, logo no início da vida dela, deixar de usar a tal pomada, porque o que eu sempre senti, no fundo do meu ser, é que nosso corpo está preparado para reagir com aquilo que ele próprio produz, não podendo ser dependente de um produto industrializado, que, há poucas décadas, nem existia.
Para confirmar meus sentimentos, em 7 meses de vida, minha filha não ficou assada uma única vez. Teve apenas uma assadura com 7 meses e meio, por conta de uns lencinhos umedecidos agressivos que usei nela, mas que foi devidamente tratada com a pomada para assaduras (não para prevenção) e, em menos de uma semana, estava saradinha.
Pense só na economia que fiz de tempo e dinheiro ao não utilizar esse produto supostamente indispensável! Pense mais, pense que ao não ter usado a pomada para prevenção de assaduras a pele da minha filha criou a devida resistência natural ao entrar em contato com suas “produções” em vez de ser atacada por isso.
Aninha tratando a assadura que teve com 7 meses, na praia. Fevereiro/2013.
Constatei que o produto ao formar uma “barreira na pele”, limitando o contato dessa com a urina e as fezes, torna-a mais suscetível a assaduras por não permitir que ela crie a resistência natural para lidar com isso.
Excessivamente protegida, a pele se torna sensível demais em vez de se tornar resistente, bastando esquecer uma vez sequer de passar uma grossa camada do produto, para o bumbum e genitais ficarem assados.
Enfim, creme para prevenção de assaduras é um daqueles produtos que são “o mal e o remédio”, pois, ao mesmo tempo, que cria uma necessidade que não existia, oferece a solução, gerando a dependência do consumo.
Prevenção difere de superproteção, que é sempre prejudicial, pois impede o fortalecimento e a autonomia.
Recentemente, minha caçula teve sua primeira assadura, com 6 meses completos. Usei amido de milho por dois dias nas trocas e sarou (Obs: amido de milho não pode ser usado em caso de suspeita de infecção fúngica, pois é alimento para os fungos). Chá de camomila no banho ou em compressa também auxilia na restauração da pele.
Para mim, uma ótima maneira de se prevenir assaduras é evitando ao máximo o uso de produtos químicos na pele dos bebês, reduzindo, por exemplo, o uso de lenços umedecidos, sabonetes, etc, que, além de limpar, retiram a proteção natural da pele.
Que tal abandonar o hábito de seguir a manada, de viver na inércia, e fazer escolhas mais conscientes em sua vida e de seu bebê? Economize tempo e dinheiro ao parar de consumir produtos dispensáveis, a saúde, o planeta e o bolso agradecem.
ou Porque devemos parar de encher nossos filhos de coisas
Quando viajamos com os filhos, levamos uma parcela muito pequena daquilo tudo que a gente tem em casa. Algumas peças de roupa, alguns pares de sapatos, produtos de higiene pessoal, alguns brinquedos, enfim, o necessário para passarmos o tempo da viagem e o que couber na mala ou no porta-malas. E, embora as crianças tenham muitas coisas, na viagem não faz falta, não é mesmo? Então, por que insistimos em ter tantas coisas em nossos lares que nos tomam tanto tempo em limpeza e organização? Por que permitimos que nossos filhos tenham tanto, que nem consigam usar tudo o que têm?
Vivemos num momento em que crianças têm brinquedos demais, telas demais, atividades demais e mães e pais de menos, ócio de menos, criatividade de menos, e, por tudo isso, felicidade de menos.
Vivemos em um tempo de abundância de recursos, seguido de uma fase de escassez. Falando da classe média, se para nossos avós faltaram, para nossos pais houve o racionamento, para nós permaneceu o medo da falta (inflação) e nossos filhos sofrem com o excesso, resultado de todo um passado de escassez que os precedeu.
Todos sabemos da urgência de se equilibrar a balança dos recursos econômicos. O ideal para todos nós seria sema falta, nem o excesso, mas com necessário para vivermos tranquilos, abandonando (quem já não abandonou) o hábito doentio de perder a vida em busca de posses.
Há a necessidade premente de se diminuir brinquedos, informação e entretenimento da vida de nossas crianças, para que elas tenham tempo e espaço para serem infantes plenamente, e, para que num futuro bem próximo, não sofram com a escassez de recursos, como a amostra que já tivemos com as crises hídrica e energética.
Fernando na pista de bicicross de Caraguatatuba. Novembro/2013.
Dar coisas ou presença?
É fácil agradar aos filhos com coisas, mas não é o mais inteligente a se fazer. Apesar de nos deixar livres para executarmos nossos afazeres (pelo menos enquanto eles estiverem entretidos com o novo), dar muitas coisas aos nossos filhos nos exige mais dinheiro e mais tempo trabalhando para conseguirmos o tal dinheiro para comprarmos as tais coisas. Ou seja: é um ciclo sem fim, onde cada vez mais nos tornamos escravos do consumo, para que possamos nos tornar livres.
Outro fator negativo de se acostumar os filhos com muitos produtos, serviços ou produções, no caso de mídia, é criarmos neles duasfalsas percepções:
– de que sempre é necessário se ter muito para se estar satisfeito
– de que não há paz, nem alegria sem entretenimento
Ambas, totalmente falsas, porque a paz e a alegria genuínas encontram-se no estado de conexão, quando nosso SER é pleno, independente das coisas que nos rodeiam.
Visualize isso através de duas imagens: seu filho em frente à TV e seu filho brincando, principalmente ao ar livre. Deu pra sacar o que é estar conectado? O que é estar presente?
O excesso de coisas nunca sacia, porque a real necessidade é de afeto, de compartilhamento, de presença.
Quantas vezes damos brinquedos ao invés de brincarmos? Quantas vezes ligamos a TV para entreter os filhos em vez de pararmos por alguns instantes para saciar-lhes as demandas com a devoção de quem ama? Quantas vezes lemos juntos ou simplesmente conversamos com olhos nos olhos? Quantas vezes não alimentamos nossas crias em frente a uma tela, porque perdemos de tal maneira a capacidade de nos conectarmos com eles, que é mais fácil fazê-los comer absorvendo informação, distraídos, que ensinar-lhes a comer com gosto. Ou mesmo, quantas vezes não desfrutamos juntos de momentos de ócio?
O excesso que bloqueia
Outro prejuízo de termos um “cofre do Tio Patinhas” de coisas, ou seja, de termos tantas coisas a ponto de não conseguirmos utilizar tudo o que temos é nos perdermos de nós mesmos. Preenchendo nosso espaço exterior com excesso de coisas, preenchemos, igualmente, nosso espaço mental com excesso de estímulos aos nossos sentidos, como obstáculos no caminho ao encontro do nosso eu interior.
Ana Julia com quase 6 meses, divertindo-se com a mamãe.
No caso das crianças, promover aquela “entulhada” de brinquedos que torna difícil atravessar a sala ou o quarto, ou ter tantos brinquedos ocupando o espaço que seria para brincar, ou até mesmo o entretenimento sem pausa, preenche o universo infantil com coisas, símbolos e experiências prontas, não dando espaço para a criatividade individual, tão preciosa, única, ilimitada, que traz a paz e a alegria genuínas, premissa primordial para o processo criativo, que as possibilitam transformar a realidade, criar um mundo novo.
As piores consequências dessa falta de espaço para o SER CRIANÇA podem ser a hiperatividade, o TDH, entre outras que surgem do bloqueio da energia criativa.
É possível evitarmos o estado de entretenimento? Sim. Quando passamos a dar mais importância para o SER, há espaço para a conexão e não há mais a necessidade de tantas coisas para promover a distração, já que podemos SER. O pai brinca, a mãe lê história, a criança cria, o alucinante perde o palco. O excesso sai da vida de quem se permite SER mais e só resta o essencial.
O que nós merecemos?
Se queremos filhos felizes, precisamos, antes, estarmos felizes. Não adianta enchermos a nós e a eles de coisas, como prova do nosso amor, do tipo “eu mereço um sapato novo, afinal, me esforço tanto” e “ele merece um brinquedo novo, afinal, blá blá blá”. Na verdade, nós merecemos muito mais que coisas, merecemos estar livres delas.
Consumir demais e estimular esse querer sem fim dando mau exemplo para os filhos, contribui para nossa infelicidade, já que estamos vivenciando um materialismo cada vez maior, significando erradamente que o amor está no ter,e não no ser e compartilhar.
Por mais que coisas novas nos deem picos de excitação, são efêmeros, rápidos demais. Às vezes chegamos em casa, provamos de novo, largamos no armário e a alegria já passou, e a gente já precisa de algo novo pra se alegrar. Além disso, o consumismo é viciante, porque precisamos sempre consumir de novo para conseguirmos a sensação maravilhosa. Um sapato novo faz a gente feliz por uma semana, depois disso já é velho e não excita mais. Isso sem falar no bolso, haja renda pra viver comprando. Melhor bancar coisas melhores, viagens talvez. Fora que depois desse comportamento abusivo, você estará com uma casa cheia de tralhas, com seu dinheiro suado empregado nessas coisas inúteis e com os recursos escassos transformados em lixo abundante. Consciência pesa.
Foto relâmpago da brincadeira na sala. Outubro/2012.
Dizer sim ao excesso de coisas, é dizer sim à desconexão, à distância entre pais, mães e filhos, à distância entre o que estamos sendo e o que realmente somos.
Dar menos coisas exige, na razão direta, três atitudes dos pais:
– Nos relacionarmos mais com eles;
– Propiciar-lhes mais experiências e
– Auxiliá-los a lidar com o tédio/ócio necessários.
E, óbvio, ser capaz de fazer tudo isso consigo antes de fazer com os filhos.
Atente para a possibilidade de que a falta de tempo e espaço para mais compartilhamento, mais experiências e mais tédio/ócio seja pelo excesso de coisas desnecessárias em suas vidas.
Nunca se esqueça de que esta vida é apenas uma viagem, por isso, quanto mais leves nossas malas estiverem, mais longe poderemos ir.
Namastê! <3
No Parque Ibirapuera, descobrindo que os cisnes comiam flores, em Jun/2011.
Para refletir:
Onde está o excesso na sua casa e na rotina da sua família?
Com que frequência e de que maneira você compartilha sua presença com seus filhos?
Seus filhos praticam alguma atividade criativa?
Seus filhos conseguem ficar sozinhos, sem estímulos exteriores?
O excesso de consumo é prejudicial tanto a cada indivíduo quanto ao planeta. A felicidade não está no possuir.
Há cinco anos, eu entrevistei Newton Figueiredo para a revista Gestão de Riscos. Newton é engenheiro naval e Presidente do Grupo SustentaX, que atua nos setores de Engenharia de Sustentabilidade, Gestão Energética Integrada, Descarbonização e Neutralização de Gases de Efeito Estufa – GEE entre outras, além de fornecer o selo SustentaX a produtos testados e aprovados em sua sustentabilidade.
Na entrevista, ele falou das atitudes desprezíveis das empresas que tentam “empurrar” um produto ruim ao enaltecerem suas embalagens recicláveis ou recicladas, além de outros assuntos ligados ao tema sustentabilidade empresarial, e ressaltou: “não há sustentabilidade sem respeito ao consumidor, respeito à sociedade e respeito ao meio ambiente”.
Mas, o que mais me despertou a consciência na entrevista, foi o esclarecimento feito pelo empresário acerca do que realmente é um produto sustentável: aquele que, acima de tudo, não causa mal à saúde do consumidor.
Confira trecho da entrevista com o conselheiro de várias instituições ligadas aos setores de energia e racionalização de recursos, e note as mudanças requeridas no comportamento do consumidor para atingirmos a sustentabilidade ideal.
Sustentabilidade é o lema do novo milênio, mas como conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental?
Antes de mais nada é uma necessidade da sociedade. A sociedade, nos dias de hoje, não mais admite que se gere receitas financeiras, lucros, sem dizer como conseguiu obter esse lucro. Há alguns anos não era necessário dar essa satisfação para a sociedade: se se estava tendo um lucro lícito, ilícito, se a madeira era certificada, se não era, se o produto era tóxico, se não era. Hoje, nós já chegamos num nível de consciência, de informação, onde a sociedade não mais admite que se obtenha lucro sem que se diga a origem, e essa origem tem que ter, basicamente, três coisas: respeito ao consumidor, respeito à sociedade e respeito ao meio ambiente. Se o lucro foi gerado com respeito a esses três aspectos, tudo bem, mas se você deixou algum deles de fora, você não vai sobreviver muito tempo.
E, o senhor não acha que, hoje em dia, certas empresas que não têm, realmente, atitudes sustentáveis, simulam esse posicionamento para ganhar o consumidor?
Eu estou plenamente de acordo que a maioria das empresas ainda atua dessa forma, mas muitas empresas já transferiram a sustentabilidade para a estratégia dos seus negócios, que é exatamente esse respeito pelo consumidor, pela sociedade e pelo meio ambiente. E, em fazendo isso, essas empresas vão ter a fidelização dos consumidores e também de investidores. Portanto, essas empresas serão as novas líderes de mercado.
Coca-Cola e sua embalagem ecologicamente correta, já o conteúdo…
Como o consumidor deve tentar se informar para saber se o posicionamento da empresa é, realmente, sustentável, ou se a empresa faz propaganda enganosa?
A primeira coisa que o consumidor tem que fazer é olhar o rótulo do produto. Se ele fizer mal à saúde, o consumidor já deve colocar a empresa sob suspeita, porque ela está tentando lhe vender algo que faz mal a saúde dele e de sua família. A segunda coisa que o consumidor tem que ver é de onde vem esse produto. Se o produto vem de um país estrangeiro, e é um produto, por exemplo, de baixa tecnologia; caso o consumidor compre esse produto, ele está transferindo renda para outros países, ao invés de estar dando emprego para a população carente ao seu redor. Portanto, o consumidor deve sempre buscar produtos locais, produtos fabricados na sua região, do seu estado, no seu país. Se, naturalmente, não tiver algo com que ele se contente, aí sim o consumidor pode buscar um outro produto estrangeiro para satisfazer a sua necessidade, os seus desejos. Eu não estou falando em limitar nada, eu estou dizendo em condições iguais de preferência para os produtos brasileiros. Porque essa empresa que está trazendo um artesanato de Bangladesh e tentando vender aqui por um preço vil, o que ela está fazendo é ajudar a aumentar a violência, a miséria e a fome no Brasil, portanto é uma empresa irresponsável. Outra coisa que o consumidor tem que fazer é não se deixar levar pela embalagem do produto. Hoje tem muitas empresas dizendo “ah a minha embalagem é feita de pet reciclado”, “a minha embalagem é feita de papelão reciclado”, “eu diminui o tamanho da minha tampinha em 30%”, o que é absolutamente desprezível!! A primeira coisa que o consumidor tem que saber é se o produto que está dentro é um produto que não agride a natureza e nem à sua saúde. Se foi feito em determinada embalagem, isso é secundário! O importante é o produto.
É verdade, a gente vê muitas empresas utilizando esse artifício da embalagem em detrimento do conteúdo…
Exatamente, para te vender produtos que fazem mal à sua saúde e à da sua família.