Eu, mãe solo de três, puérpera, longe da família e feliz

Por conta de tantas indagações e pedidos de conversa é que decidi explanar um pouco mais sobre minha condição e sobre as minhas conclusões e escolhas de mãe solo de três, que vive longe da família de origem.

Quase todas às vezes que saio com meus três filhos, ouço frases do tipo:

“Os três são seus? Como você consegue?”

“Eu não conseguiria, já sofro com um!”

“Meus Deus, que escadinha!”

“Ah, mas é bom porque cresce tudo junto né?”

“Agora parou né? Não vai querer mais, ou vai?”

Imaginem se soubessem que moro sozinha com os três, há mais de três horas de distância da família. Quando sabem, vem mais uma enxurrada de comentários:

“Mas você não tem medo?”

“Mas, e se acontece alguma coisa?”

“Tem hospital bom onde você mora?”

“Você não tem empregada todo dia!”

“Como você é corajosa!”

Na maioria das vezes eu tenho a boa vontade de compartilhar um pouco da minha realidade, afinal, não é uma curiosidade ruim, as pessoas querem aprender algo com a gente, querem entender como é possível vivermos felizes com certas dificuldades. Mas às vezes cansa, confesso, porque isso acontece em quase toda saída… coisas de Brasil. E, quando eu respondo breve (geralmente quando as questões não são feitas de forma amorosa), dificilmente contenta, mas daí quem tem que se contentar sou eu, né? 😉

O que eu gostaria de deixar claro é que o trabalho de uma mãe, principalmente a de crianças pequenas, como eu, é o maior trabalho do mundo (os motivos eu deixo pro vídeo abaixo), então, mais do que questionar, aproveite a oportunidade para auxiliar, para por em prática sua gentileza, seja puxando um carrinho no mercado enquanto a mãe segura o filho no colo (e mais dois no braço, no meu caso), seja dando o lugar na fila, porque embora seja lei, não é unanimidade (principalmente quando “falta” a fila preferencial ou quando não há fila, mas tumulto). Tenho a sensação de que algumas pessoas, ao ficarem questionando ou julgando as mães por aí afora, propositalmente (algumas inconscientemente), perdem a deixa para ajudar, ou arranjam motivos para não fazê-lo (“quem mandou ter três”, “quem mandou separar”, “por que não deixou na creche?”, “aqui não é lugar de criança”, etc). Ficar questionando demais ou fingir-se de morto, claro, cansa bem menos do que dar uma mãozinha, levando o carrinho do mercado de volta, por exemplo, e não toma nosso tempo tão curto com problemas que não são nossos, não é mesmo?

Sobre ter três filhos e de idades próximas, eu acho um fato inquestionável, mas muita gente questiona ou me considera “insustentável”, (mesmo eu tendo com eles uma vida que vai ter que compensar a metade do carbono da vida de muito adulto ou criança de classe média/alta de cidade grande), mas eu não ligo. Desde criança me imaginava uma mãezona de três amamentadora, com leite pra dar e vender e com uma família agitada e feliz. Se vou ter mais? Não penso nisso, mas sempre me aqueceu o coração a ideia de adoção… quem sabe.

Sobre morar longe da família, que está em São Paulo, eu acredito que a qualidade de vida de quem mora no litoral norte do estado, não tem preço (concordo com Caymmi quando cantava que “quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar”). Outro ponto, que quem já morou em São Paulo sabe, é que se você não mora perto da família, bem perto aliás, tipo, no bairro, é como se vocês morasses em cidades distintas, porque atravessar a cidade leva tanto tempo e estresse no trânsito, que pra ver parentes ou amigos que moram em outra zona da cidade, você tem que fazer uma baita programação com antecedência, isso, quando não falhamos, porque vida muito urbana nos consome.

Então, prefiro viajar pra Sampa uma vez ao mês com os três que tá ótimo. Visitamos todo mundo e eu tenho uma folguinha pra mim, porque sobra atenção pra eles.

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Meu trio na casa da vovó. Julho/2015.

Algumas vezes eu cheguei a pensar que poderia ser mais fácil se eu voltasse a morar perto da minha mãe, mas, pra isso, eu teria que pagar o preço de viver alarmada com medo da violência nos semáforos, teríamos que morar em apartamento e abdicar do espaço, teríamos que nos confinar às áreas comuns do condomínio e viver muito tempo dentro de um carro, pra ir de um lugar a outro, não teria liberdade em qualquer rua com as crianças e teria que morar, literalmente, do lado, pra ter essa “mão” no dia-a-dia (o que eu não acho legal pelo que enumerei até aqui ) ou nos veríamos apenas nos finais-de-semana, sendo assim, pra quê morar em São Paulo? Isso sem falar na diferença do ar, do ollhar, do mar…

Sobre a questão da segurança e da saúde eu garanto que quem mora na praia sofre muito menos com isso. Moro em um pequeno condomínio fechado, não por segurança, mas porque tem uma grande área gramada, lugar de sobra para a minha horta/pomar/plantas em vaso e para as crianças brincarem, é claro. Sobre assistência médica, não temos hospital bom na cidade, mas… não temos a violência das grandes cidades nem temos a parca qualidade de vida que adoenta muito mais, então…

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Estelinha. Fim de tarde na Praia de São Francisco, São Sebastião. Outubro/2015.

Quanto a morar em cidade pequena, sempre me falam “ah, mas não tem TUDO na sua cidade! Você não sente falta de NADA?”. Primeiro que “tudo” e “nada”, neste caso, são conceitos bem relativos. O que é tudo pra mim, como ter o mar ali ao lado, pode ser nada pra você que prefere ter uma farmácia na esquina de casa, o que é nada pra mim. Mas, nessa situação, eu prefiro responder expondo a realidade: que mal vou ao centro de São Sebastião, porque do lado de casa tem mercado, padaria e praia. Falta alguma coisa? Nem de farmácia eu preciso, porque não consumimos fraldas descartáveis e lencinhos, esse tipo de coisa que faz a gente ter que sair de pijamas pra comprar quando acaba. Fora que a cidade é pequena, então o centro tá logo ali, há 2 km. Quando procuro algo diferente, muito peculiar, eu providencio quando viajo. Mais uma desculpa pra viajar sempre. 🙂 Mas, no nosso dia-a-dia, falta nada. Hoje em dia tem de tudo em cidades pequenas e os pequenos produtores e comerciantes locais divulgam pela web seus produtos: essa vitrine virtual focada em nichos, equilibra bem a demanda e a oferta frente aos desejos dos consumidores locais.

Sobre a questão do “meu Deus, você sozinha com três crianças pequenas! E se acontece alguma coisa?” Ora, se acontecer alguma coisa eu grito, temos telefone, ligamos pra polícia, Samu e a turma toda da emergência. Fora que os vizinhos de cidades pequenas são muito mais próximos, muito mais disponíveis pra qualquer auxílio. O que eu não posso, na minha concepção, é viver sem qualidade de vida por ter medo de que algo extraordinário aconteça. Abandonei, gradativamente, nos últimos anos, essa necessidade urbana de buscar segurança material em excesso, principalmente por ser uma necessidade urbana, portanto, que não se aplica tanto mais a minha realidade caiçara.

Outro ponto que eu venho concebendo sobre esse excesso de proteção é que isso, na verdade, é uma ilusão. Ninguém está a salvo e quanto mais a gente se protege da morte, menos a gente vive. Em cidades grandes, grande parte do dinheiro vai para a proteção (dos bens e da vida): estacionamento, condomínio, seguros diversos, locais seguros, segurança de rua etc. Daí as pessoas trabalham muito pra pagar o aparato todo, isso quando não empata ou falta, e aí? Você usou uma boa parte do seu precioso tempo de vida trabalhando para conseguir capital para investir na proteção de si mesmo e dos seus pertences e nada mais, na verdade você não protegeu sua vida, você acabou com ela se protegendo a morte, que já é uma realidade pra você. Porque quanto mais coisas você tem, mais tempo você tem que perder para assegurar que elas continuem sendo suas. A vida é agora, sempre. Viver é Ser, não ter.

Outra coisa que eu aprendi com a minha situação de mãe solo de três é a parar de me vitimizar. Se é difícil pra mim, é mais difícil pra um monte de gente em outras diversas situações mundo afora, com certeza. Sou grata a tudo o que somos e temos e eu estou vivendo exatamente o que eu escolhi pra mim, assim como todo mundo… questão de fé. Outra coisa, nada é para sempre e, se nos animamos, tudo tende a melhorar mais rápido. Quando a gente para de se vitimizar, a vida fica inigualavelmente mais leve e alegre e bons ventos sopram muito mais.

Quantas vezes eu não pensei “Meu Deus! Nunca me imaginei nessa situação! Não é justo! Não mereço isso!” e muito mais pensamentos na mesma vibração, mas sabe o que esses pensamentos faziam? Me feriam, cada vez mais, e passei a perceber que o problema não estava na realidade em si, mas no que eu pensava sobre ela. Pensamentos plasmam. Não-mente me salvou. Orai e vigiai.  A minha realidade é que tenho filhos iluminados e amorosos, meus grandes professores, e, sem incorrer no erros da infantolatria e do autoritarismo, crescemos juntos e somos cada vez mais amor.

Tem uma antiga história Sufi, contada por Osho em seu livro Coragem: o prazer de viver perigosamente, que ilustra bem essa questão escolha/vitimização:

“Um homem estava muito oprimido pelo seu sofrimento. Ele costumava orar diariamente a Deus, “Porque eu? Todos parecem ser tão felizes, porque só eu estou sofrendo tanto?” Um dia, em grande desespero, ele orou a Deus, “Você pode me dar o sofrimento de qualquer um outro e estou pronto para aceitar isso. Mas leve o meu, não posso mais suportá-lo”.

Aquela noite ele teve um belo sonho, belo e muito revelador. Ele sonhou naquela noite que Deus aparecia no céu e dizia para todos, “Tragam todos os seus sofrimentos para o templo”. Todos estavam cansados de sofrer – na verdade todos tinham orado alguma vez ou outra, “Estou pronto para aceitar o sofrimento de qualquer um outro, porém leve o meu sofrimento, é demais, é insuportável”.

Assim todo mundo colocou seu próprio sofrimento em sacolas e levaram para o templo e todos pareciam muito felizes; o dia havia chegado, suas preces foram ouvidas. E esse homem também correu para o templo.

E então Deus falou, “Coloquem suas sacolas na parede”. Todos as sacolas foram colocadas na parede e então Deus declarou: “Agora vocês podem escolher. Podem pegar qualquer sacola”.

E a coisa mais surpreendente foi: que esse homem que tinha estado sempre orando, correu em direção a sua sacola antes que alguém mais pudesse escolhê-la! Ele contudo, ficou surpreso porque todo mundo correu para sua própria sacola e todos estavam contentes com a escolha. O que aconteceu? Pela primeira vez, todos viram a miséria dos outros, o sofrimento dos outros – as sacolas deles eram tão grandes, ou até mesmo maiores!

E o segundo problema era, as pessoas tinham se acostumado com os seus próprios sofrimentos. E agora escolher o sofrimento de outra pessoa – quem sabe que tipo de sofrimento estará dentro da sacola? Pra que se incomodar? Pelo menos você está familiarizado com o seu próprio sofrimento e você já está acostumado com ele, e ele é suportável. Por tantos anos você o tolerou – porque escolher o desconhecido?

E todos foram para casa felizes. Nada havia mudado, eles estavam trazendo o mesmo sofrimento de volta, mas todos estavam felizes e sorridentes e alegres porque conseguiram suas próprias sacolas de volta.

Pela manhã ele orou para Deus e disse, “Grato pelo sonho; nunca mais pedirei novamente. Tudo que você me tem dado é bom para mim, tem que ser bom para mim; eis porque você me deu isso”.”

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Nossa praia. Pontal da Cruz, São Sebastião. Junho/2015.

Uma amiga da Roda de Mães de São Sebastião um dia comentou comigo “ás vezes dá uma preguiça de vir pra roda, daí eu lembro de você e penso, ‘não, que isso, se a Mari vai com três porque eu não vou com a minha única?!'”. De outra irmãe eu ouvi também: “às vezes eu acho que não consigo mas daí eu penso ‘a Mari com três consegue! tenho que conseguir!'”.

É bom quando as pessoas se inspiram em nós, eu, também, me inspiro muito nos exemplos próximos. Sempre tem alguém com um fardo “maior” ou podemos pensar que cada um de nós carrega o que pode e decide carregar. Quando fica pesado eu peço ajuda, temos que pedir, de nada vale nos sacrificarmos e perdermos o brilho no olhar, a presença no presente.

Laura Gutman, em seu livro La Biografía Humana: una nueva metodología al servicio de la indagacion personal, me trouxe uma luz muito fortalecedora nesse processo de aceitação da maternidade solo, quando diz que:

não importa se nossa mãe (ou cuidadores) ‘fez tudo certinho’. Não importa se foi uma mãe fenomenal, calma, paciente, sacrificada ou justiceira. O que os filhos necessitam para criar seres alinhados com seu ser essencial e em profunda conexão consigo mesmos, é que seus cuidadores compreendam a si mesmos. Se não tivermos cuidadores adultos e maduros, conscientes de seus próprios estados emocionais e sua história, essa sabedoria não será derramada sobre as crianças. Por isso, é pouco provável que as crianças quando cresçam olhem para suas vidas em estado de total consciência.

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Encontro da Roda de Mães de São Sebastião. Junho/2015.

Falando nas amigas-mães, lembro de outro ponto importante na jornada solo das mães: a força dos grupos. Virtuais ajudam, presenciais salvam. A Roda que criamos na minha cidade atual me salvou muitas vezes no puerpério sombrio, lembrando que o fundo do poço é um perigo, mas também, (e, como diz minha mentora Paula Abreu) é libertador. Por isso que, tudo bem a gente ir até o fundo do poço, que é uma viagem quase que inevitável para grande parte das puérperas, mas tente não ficar sozinha por lá, pelo menos, não por muito tempo. Encontre outras mães, principalmente que também estão na fase sombria e as ajude, sim, ajude, porque até quando estamos lá no fundo, podemos ajudar, e, verificar essa nossa capacidade de ajudar alguém quando estamos na pior é que nos tira da pior, é o que faz começar a subir a cordinha que irá nos tirar do fundo do poço e nos levará para a situação de clareza.

E sempre siga o conselho de Frida: “onde não puderes amar, não te demores.”

Gratidão por ler! Com estimas de uma vida cada vez mais genuína pra você!

 

 

 

Não é você, sou eu!

Desde que decidi viver de acordo com o que acredito, e, por conta disso, tomar decisões consideradas um tanto drásticas para o senso comum, vira e mexe ouço os comentários abaixo ou outros parecidos, que, muitas vezes, são feitos com um quê de agressividade, principalmente por eu ter três filhos e impactar a vida deles com as minhas escolhas “diferenciadas”.

“Como assim você vai sair do seu emprego pra cuidar dos seus filhos?”

“Como você vai pagar as suas contas?”

“Não acredito que você não assiste TV! Vocês não podem se isolar do mundo!”

“Dó dessas suas filhas!” (por não terem as orelhas furadas)

“Você lava fraldas??? Isso é coisa antiga!”

“Mas você não pode ficar sem celular!!!!!!!”

“Você só pode ser louca!”.

O que algumas pessoas precisam entender é o seguinte:

– o que me faz feliz não é o mesmo que as faz felizes (o que te faz feliz?),

– por eu não viver como a maioria da urbanidade, ao fazer escolhas de vida um pouco diferentes, não quer dizer que eu seja diferente, mas que todos nós somos uns dos outros; só que EU, prefiro fazer parte dos 20% e tento fazer com que minha vida se pareça comigo, apenas.

– quando eu mudo, ou quero mudar alguma coisa na minha vida, eu não estou necessariamente criticando ou questionando esta mesma coisa na vida de ninguém.

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Primeira pedalada da Anita. Caraguatatuba. Junho/2013.

Escrever sobre as minhas experiências e mudanças não tem a intenção de forçar ninguém a ter as mesmas experiências e a fazer as mesmas mudanças, mas sim inspirar e incentivar as pessoas a tomarem consciência de suas escolhas e a fazerem qualquer mudança que acharem importante ou necessária.

Dessa forma, eu mudo o que eu preciso mudar daqui e cada um muda o que precisa mudar na própria vida, pra todo mundo ser mais feliz. Se tiver sincronicidades, ótimo, vamos trocar figurinhas. Se não, nos respeitamos com nossas particularidades e nos desejamos o melhor.

Recentemente, fui agressivamente combatida em alguns grupos do Facebook por causa dos meus últimos artigos, tendo as críticas até ultrapassado o conteúdo dos textos e sido feitas contra a minha pessoa, sem que sequer me conhecessem, claro. Pois bem, sendo meus textos baseados na minha experiência, explanando as minhas conclusões, as pessoas não deveriam ter se sentido ofendidas, porém, como bem disse Paula Abreu, “se estivessem bem felizes e satisfeitas com as suas próprias escolhas, não se incomodariam mesmo que, de fato, estivessem sendo criticadas ou questionadas”.

O que aconteceu comigo nos recentes episódios enérgicos foi surpreendente para mim. Em vez de eu me irar com os discursos violentos eu ria e, muitas vezes, me compadecia, pois, como afirmou a talentosa jornalista e doula Kalu Brum, recentemente, em seu perfil no Facebook, quando foi duramente criticada em seu artigo sobre a celebridade que não conseguiu amamentar,

“tem uma frase que diz: se você se sente julgada há uma escolha não bem resolvida ai dentro. Porque quando a gente decide, quando tem certeza de nossas escolhas, não nos incomodamos com a opinião alheia (…)Se te choca, se cheque. Quando checamos nosso incômodo fazemos perguntas ao invés de procurar nos defendermos com respostas. Aí mora a revolução, sempre! Para todas as coisas da vida.”

O que acontece quando  fazemos escolhas conscientes na nossa vida é que podem tentar nos ofender,  nos atingir, e até nos impedir, mas nos tornamos como um rio: se atiram pedras contra nós, elas não nos ferem, muito menos nos desviam do nosso curso, pois um rio recebe todas as pedras atiradas contra ele sem se defender, elas mergulham em seu leito enquanto ele passa, sem cessar. Quando você flui com sinceridade, quando está sendo verdadeiro no seu caminhar, nada atrapalha, tudo ou soma ou indifere. 

Agindo dessa maneira, você não está vivendo na superfície do ego apenas, mas de uma forma mais condizente com o seu EU mais profundo, ou seja, você vive mais consciente, de quem é e do que quer desta vida! Por isso, eu, por exemplo, não estou nem aí pras críticas.

Eu e Ana na pista de bicicross de Caraguatatuba. Novembro/2013.

Então, “se eu quero doar as minhas coisas e viver com menos, é porque está ME incomodando ter tanta coisa, tanto acúmulo desnecessário, gastar tanta energia cuidando e mantendo essas coisas de que eu no fundo não preciso. Não quer dizer que eu acho que ninguém deva se desfazer de nada…não é você, sou eu”.

Se eu quero fazer Arte (escrever, cantar, dançar…) é porque isso faz bem pra mim, faz parte da minha vida desde que eu nasci, me faz feliz. Pode ser que o que te faça feliz seja pular de parapente (Caraguá! Aí vou eu!), ou ter 15 gatos, como eu já tive, ou nadar pelado na cachoeira, como eu, também, já fiz algumas vezes. Ninguém é obrigado a ser artista (nem a ter coragem).

Se eu quase não consumo alimentos industrializados e gosto de ter minha própria horta doméstica e preparar alimentos livres de agrotóxicos (eu também adoro uma pizza de vez em quando ou um brigadeiro de panela), não quer dizer que estou criticando você que consome uma pancada de alimentos processados e que prefere dar um iogurte na mão do seu filho a ensiná-lo a comer vegetais. Não é você, sou eu.

Se eu reduzi meu consumo de produtos de higiene e limpeza e prefiro usar produtos naturais e menos agressivos ao meio ambiente e à saúde da minha família, não quer dizer que você também tenha que limpar a casa com vinagre ou passar óleo de coco no cabelo ou escovar os dentes com açafrão da terra e bicarbonato.

Se eu decidi ter minha terceira filha numa casa de parto do SUS, de parto normal, sem anestesia, não quer dizer que você deva fazer o mesmo. O parto é da mulher, sempre, e meu papel, apenas, é compartilhar informações importantes, para que ele seja, realmente.

Se eu amamento há mais de 4 anos (e contando) e se o fiz exclusivamente até os seis meses de cada um dos meus três filhos, e se nunca dei bicos artificiais para nenhum deles, não quer dizer que você tenha que fazer o mesmo, só não me peça para apoiar discursos desencorajadores, num país onde a média de aleitamento materno é de APENAS 54 dias.

O que eu quero, de verdade, é fazer você parar pra pensar, se perguntar, se questionar, e descobrir o que você pode mudar na sua própria vida em busca de mais conexão, pra ser mais feliz.

“É só plantar a semente da dúvida e convidar à reflexão”.

De resto, não é você, sou eu.

E isso vale para você também, é claro! Toda vez que te criticarem ou julgarem, rebata (nem que for somente em pensamento) “não é você, sou eu!”, (faça disso o seu mantra) porque só você sabe, de verdade, o que é bom pra você, só bastando, às vezes, você descobrir.

Vamos lá, compartilhe comigo nos comentários o seu “não é você, sou eu!”, pois como disse o grande Osho: “não há êxtase maior do que você conhecer a si mesmo.”

Namastê!

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PS: Inspirado no homônimo da minha colega Paula Abreu.

Rio Itamambuca, Ubatuba. Dezembro/2011.
Rio Itamambuca, Ubatuba. Dezembro/2011.

Acabe com o EXCESSO que acaba com a VIDA do seu bebê

Basta a gente saber que um bebezinho está a caminho que já começamos a ir atrás daquele monte de coisas dispendiosas que ele “precisa” para viver bem cuidado, não é mesmo? Afinal, somos mães e pais zelosos que desejamos o melhor para os nossos filhos. Porém, em vez de buscarmos, cada vez mais, uma conexão maior com o ser amado, que viaja durante 9 meses dentro de nós para aportar neste mundo, vamos, semana a semana, montando um universo com menos possibilidades para ele, lotado de coisas inúteis e sem significado, que interrompem o horizonte do seu olhar e seu caminho ao se movimentar.

Como um ser tão pequeno, que mede em torno de meio metro e pesa, em média, pouco mais de três quilos, pode, antes mesmo de neste mundo chegar, já “exigir” um enxoval de milhares de reais? Como um recém-nascido que só quer colo, mamar, dormir, afeto, coisas básicas que todo mamífero precisa, “exige” tanto?

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Na verdade, não, ele não exige nada, nós é que pensamos, erradamente, que nosso bebê precisa de toda essa parafernália que a indústria, o senso comum e a tradição social dizem que precisamos, de algum modo, providenciar.

Ter uma vida abundante junto ao novo integrante da família significa que não vamos entulhar nossa nova vida em família com um monte de coisas que só nos tomam tempo e dinheiro desnecessariamente.

Precisamos de muito dinheiro para investir em toda a estrutura que dizem ser necessária para o bebê, precisamos dedicar nosso precioso tempo de vida para organizar e limpar esse monte de coisas novas, muitas inúteis, e precisamos de espaço para dispor as baby tralhas todas, tarefa difícil na era dos “apertamentos”. Tarefa cruel aos que têm pouco tempo para estar com os filhos.

“Excesso de facilidades certamente traz excesso de dificuldades.” Lao-Tsé

Na verdade, preparar uma vida abundante, em que o bebê tenha todo o conforto que merece, significa que vamos preencher seu universo com coisas necessárias para que sobre espaço, dinheiro e tempo, o luxo maior de nossas vidas, para o que realmente importa, afinal, o que é mais importante do que presença na vida de uma criança?

O excesso de coisas não é sinal de riqueza, é falta de vida. 

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No artigo Bebê Livre de Consumismo, questionei o que um bebê realmente precisaria para viver bem e quais benefícios teríamos se evitássemos que nossos filhos, desde bebês, ingressassem num modo de vida consumista, entre outras reflexões.

Mas, apenas refletindo sobre os objetos que irão compor os cenários da nova vida em família, o que você, mãe/pai de primeira viagem,  pode fazer para livrar seu bebê do excesso de coisas, já que você não tem experiência do que ele realmente precisa? Como fazer o enxoval com o estritamente necessário para os primeiros meses de vida? Será mesmo que um bebê, com necessidades tão básicas, precisa de todo o sobejo propagandeado pelo mercado?

“O excesso de um grande bem torna-se um mal muito grande.” (Jean-Pierre Florian)

O primeiro passo é desconfiar. Desconfie da sua avó, da sua mãe, da sua tia, e também da sua sogra e das suas amigas mais íntimas e de todos os homens da sua família. As gerações anteriores já foram criadas na sociedade consumista, ouvindo, por exemplo, que existe leite materno fraco e que leite bom tem marca, que pra parir sempre precisa de médico e de hospital e que cosméticos para bebês são uma maravilha. Então, desconfie!

Outra postura libertadora é nunca, nunca mesmo, confiar na publicidade, porque o único objetivo dela é o de promover o consumo. Antes também, de confiar em fontes aparentemente imparciais, verifique se tais fontes não ganham dinheiro com publicidade de produtos do gênero (como certos blogs que pretendem “orientar” as calouras da maternidade sem deixar claro o que é publicidade do que não é).

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Você confia nessa publicidade? Embora, atualmente, as mensagens publicitárias sejam mais subliminares, o objetivo dessas continua o mesmo: despertar o desejo de consumo de algo desnecessário, e, às vezes, prejudicial.

Antes, sobretudo, de dar um passo em direção ao consumo, tenha a certeza de que o necessário para você e seu bebê é o necessário para você e seu bebê somente, ou seja, cada experiência mãe-bebê (e pais presentes também) é única, assim, cada família tem suas necessidades específicas de produtos para essa fase fusional, que é muito subjetiva.

Uma dica: quando ficar em dúvida da utilidade de algo, reflita se esse algo vale o tempo e o espaço da sua vida e do seu bebê que ele vai tomar. Por exemplo, seu bebê precisa mesmo de um trocador ou seria melhor ganhar o espaço desse trocador para que sobre área para vocês dançarem juntinhos?

Reflita, acima de tudo, no que VOCÊ gostaria que compusesse os ambientes que VOCÊS irão habitar, sem sequer lembrar do que os OUTROS dizem ser necessário. O que vocês consideram útil e agradável que haja?

Quando você desejou (ou irá desejar) ser surda

Ouvia tanto que meu bebê deveria mamar de 3 em 3 horas, como se ele fosse uma maquininha, e que eu conseguiria sim fazer home office full time e ainda cuidar dele, e que se ele “não deixava” era porque eu o mimava dando o peito a toda hora, então eu vivia estressada, tensa, principalmente porque, também, não dormia, porque também me diziam que ele tinha que dormir no quarto dele, no berço dele, longe de mim, então ele não dormia e eu, idem, até o desmame.

Para a nossa sociedade, o consumismo é a solução para maternar entre machismo e desconexão.

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Fernandinho de olho no móbile, com dois meses de vida. Maio/2009.

Maternar, que me diziam, era entreter ele como eu podia para que, segurando-o num braço e digitando com o outro, eu pudesse trabalhar, como boa mãe de família. E, em vez do respaldo das mulheres da família, como outrora acontecia, me diziam para dar-lhe chupeta que o acalmaria, mamadeira quando eu demorasse fora, para que utilizasse mobiles, para ele gostar do berço e ursinho ou paninho pra ele agarrar e dormir sem a minha companhia. Ah, e claro, vídeos animados “para bebês” no início das “papinhas”, para que ele ficasse “fortinho”.

Em suma, o mercado lhe daria a mãe que eu não poderia ser porque antes de ser mãe, eu tinha que ser máquina, gerar renda além de gerar um filho, gerar renda além de criar esse filho, relegar ao entretenimento com produtos a sua companhia.

Cada um tem a sua experiência de consumo com seu bebê, cada mãe/pai é única(o), cada bebê também, assim, cada mãe/pai-bebê tem suas necessidades particulares, desse modo, narro adiante alguns pontos da minha experiência com produtos para bebês, dizendo o que considero útil ou não e como deixei de consumir produtos que sempre foram ou que se tornaram dispensáveis pra mim, nos cuidados com meus bebês, para servir de inspiração a todos os presentes e futuros pais que querem, além de filhos mais libertos e felizes, uma relação com mais espaço, menos entulhada de coisas desnecessárias.

O excesso de coisas no universo infantil causa poluição visual e sonora, superestimula o bebê e superpovoa seu imaginário, abafando sua capacidade criativa, já que não há espaço para criar. Assim, os bebês ficam agitados, com sono comprometido e irritados quando não entretidos com algo, pois não sabem lidar com o vazio, com o tédio.

Antes, gostaria de deixar claro que de um filho para o outro também mudamos o que consumimos. Quem tem mais de um filho sabe muito bem que não usou exatamente as mesmas coisas com um e com outro, mas todas as mães têm a plena certeza de que, com a experiência, adquirimos praticidade e, consequentemente, menor necessidade de consumir produtos que “facilitam” (ou não) a nossa vida. Não estou falando aqui do caso de crianças com necessidades especiais, que envolve um tipo diferenciado de consumo, do qual sou totalmente leiga.

Abaixo tem três textos sobre o que é ou não necessário em termos de produtos, segundo a minha experiência. Basta clicar do lado direito no sinal de + para abrir.

O que te dizem que seu bebê precisa

Mães e pais de primeira viagem sofrem no bolso. O que não ganham no chá de bebê e “têm” que comprar é muita coisa. Berço, moisés, carrinho, bebê-conforto, cadeirão, só pra citar alguns dos produtos mais caros. Fralda de pano, toalha-fralda, fralda de boca, babador, cueiro, roupa de cama (até saia pra berço inventaram), só pra citar o excesso de panos. Falando nisso tem a vestimenta,  um montão de roupinhas minúsculas no tamanho e grandes no preço que serão usadas por poucos meses, talvez nem isso, sapatos desnecessários, já que o bebê só terá necessidade deles após aprender a andar, mas que irão estar lá entulhando seu guarda-roupas e sua mente até que você use os benditos uma única vez e se livre daquilo.

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Fernando no tapete de atividades, que eu considerava essencial. Maio/2009.

Sem falar em tudo ligado à amamentação e alimentação, como mamadeira, bico de mamadeira, escova para lavar mamadeira e pote térmico para guardar mamadeira, itens que a mãe que vai amamentar nunca irá usar, apesar de sempre ter alguém pra dizer que precisamos. Chuquinha ou mini-mamadeira, pra dar chá ou suco, muitas mães, como eu, nunca darão, porque após os seis meses de aleitamento exclusivo é mais indicado utilizarmos copos de transição, aqueles com bicos um pouco moles no início da introdução alimentar, para o bebê não machucar a gengiva, e mais rígidos após, que servem apenas para não derrubar muito o que estão bebendo.

Fora o resto, um montão de coisas como acessórios para segurança, potinho pra algodão, pra cotonete, pra água morna, garrafa-térmica, pendurador de chupeta e chupeta (que nunca chupará ou que será obrigado a gostar porque alguém falou que esse hábito acalma o bebê, como se os bebês não preferissem que pessoas o fizessem). E os brinquedos então? E tudo o que é feito para entreter, como tapetes de atividades e móbiles, porque se diz que é certo estimular o bebê a toda hora e não o fazer seria sinal de desamor… mas não. E por aí vai, inúmeros itens de consumo.

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Ana Julia bebendo suco no copinho de transição. Julho/2013.

Lembro-me de ter pedido auxílio para minha cunhada para me ajudar a fazer a lista do chá de bebê do meu primeiro filho, com base numa lista que imprimi de um site qualquer. Ela pegou a lista da minha mão e começou a riscar e dizer: “isso aqui você precisa, isso aqui não…”. Tudo bem! OK! Mas já desconfiava que nossa experiência não seria muito parecida. Mamadeiras, por exemplo, que ela me disse para pedir, eu sabia que nunca usaria e os cueiros que ela riscou porque nunca usou, eu sabia que usaria, pois tinha usado muito na minha experiência como babá fora do Brasil.

Alguns produtos praticamente indispensáveis como fraldas descartáveis, lencinhos umedecidos e pomada para “prevenção” de assaduras, já estão em cheque, anti-ecológicos ou prejudiciais à saúde, são, em suma, insustentáveis.

Só utilizei garrafa térmica, para preservar água morna para embebedar o algodão e usar nas trocas, com meus dois primeiros filhos, com minha terceira, agora, não, pois tivemos um ano de muito calor e ela já tem nove meses… não foi necessário. Em casa criei o hábito de lavá-la no chuveiro mesmo, rapidinho, em cada troca, algodão só usei bastante nos primeiros meses. Ou seja, economizei muito tempo ao não ter que me dar ao trabalho de todos os dias esquentar água e colocar na garrafa (que nem adquiri), e dinheiro, pois não tive que comprar pacotes e mais pacotes de algodão. Claro que, com o tempo frio, garrafa térmica e algodão são necessários pra sair de casa com o bebê, mas do contrário, acho pura tralha.

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Estela de fralda ecológica: descartável só em viagens. Agosto/2015.

Pomada para “prevenção de assaduras” é outro produto que aboli já com minha filha do meio, pois percebi que era devido ao seu uso que a pele não tinha a resistência necessária para não assar. Conto isso melhor aqui.

E há, claro, a fralda ecológica, tanto a de pano reutilizável, quanto a descartável mas com materiais biodegradáveis. Ao saber que um bebê gasta em média  5 mil fraldas desde o nascimento até o desfralde, que demoram mais de 400 anos pra se decompor, decidi que iríamos nos adaptar, pois não queria deixar um legado de mais de 10 mil fraldas pro mundo, que é o que já deixei até o momento.

Só não usei fraldas de pano desde meu primeiro filho por puro desconhecimento do produto e por tanto ouvir as lamúrias da minha mãe, tias e avós (“na nossa época só tinha fralda de pano, não tinha essa maravilha!”). Fraldas de pano são muito melhores que qualquer fralda descartável, pelos motivos: não vasa, absorve mais, portanto, troca-se menos (economia de tempo, água e produtos para lavagem), previne assaduras, pois o tecido em contato com a pele é mais saudável que materiais plásticos, dispensa o uso de cremes e pomadas de prevenção de assaduras; ecológico.

“Todo excesso traz, em si, o germe da autodestruição.” (Aldous Huxley)

O que seu bebê não precisa

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Exemplo de quarto de bebês para adultos.


Quarto de bebê para adultos
, com móveis demais, decoração pastel, quadrinhos e papel de parede na altura dos olhos dos adultos e outras tantas decorações e itens inúteis que o bebê nem sequer irá notar.

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Exemplo de quarto montessoriano.

No quarto montessoriano, por exemplo, o berço, que parece algo ultra necessário, é dispensável. Caso o berço seja o que você tenha escolhido para o seu bebê, certifique-se de comprar um de acordo com as normas do Inmetro, pois há risco de acidentes e sufocamento em berços inadequados. (Saiba como escolher um berço seguro) 

A Estela tem o berço que era da Ana Julia, que ganhou da vovó, mas serve mais como trocador, já que fazemos cama compartilhada.

Falando em trocador, hoje em dia estou tão prática, que nem trocador temos. A Estela é trocada em todo lugar,  na cama, no sofá e até no colo. Mas, caso você deseje ter um trocador, escolha um que seja seguro, a maioria não é. O próprio berço com a grade rebaixada é mais seguro para trocar o bebê do que aquele tipo de trocador que vem com a banheira embaixo e tem mais de 1 metro de altura. Num leve impulso do bebê o tombo é grande e o estrago pode ser maior ainda. Vale assistir a matéria.

Outra coisa que seu bebê não precisa é de muitos cosméticos. Hidratantes, óleos corporais, perfumes e afins são totalmente dispensáveis, não somente por serem supérfluos, mas principalmente, por agredirem a pele do bebê e tirarem do seu bebê aquele aroma incrível, divino e natural, inenarrável, que só tem quem acabou de chegar  do céu. O único cosmético que seu bebê “civilizado” precisa é de sabonete líquido, e bem pouco, já que até que possa começar a se movimentar e a se alimentar com sólidos, o que só ocorre após os seis meses de vida, ele só terá contato com o que levarmos até ele, ou seja, ele quase não se suja.

Minha filha mais nova acabou de completar 9 meses e só utilizou dois frascos de sabonete líquido. Isso porque acordei para um fato com o pediatra e neonatologista humanizado que acompanhou minha segunda filha no parto, o de que bebê novinho não precisa de sabão em excesso, porque não tem sujeira. Ele me orientou a usar sabonete somente quando percebesse oleosidade em excesso no cabelinho nos primeiros meses. Como ela levou um mês trocando de pele, eu dava muito banho com chá de camomila (fazia um copo de chá com 3 sachês e despejava no ofurô).

Me disseram que meu primeiro filho precisaria de chupetas e lhe deram várias, pois achavam que ele “mamava demais” e que chupeta o faria parar de “chupetar” a mim, mesmo eu dizendo que ele não pegava. Na verdade, eu não lhe dava, pois não o queria viciado em chupeta como eu fui e achava que esse vício tinha a ver com uma falta que eu não desejava que ele tivesse. Era o que eu acreditava na época. Depois agradeci imensamente à minha intuição quando li esse artigo. Tem coisas que a gente sabe sem saber.

Com o primeiro filho achava que precisava e utilizei protetores de berço. Depois que descobri o risco potencial de sufocamento do produto, minha segunda e terceira filha se safaram desse produto perigoso, como também do excesso de roupas de cama e brinquedos de pelúcia no berço. (Saiba mais)

Sabão para lavar roupas de bebê é algo que só utilizei no primeiro mês de vida dos três, enquanto lavei separadamente as roupas deles, depois utilizei sabão em pó comum, mas pouco, para deixar menos resíduos nas roupas, lavando mais vezes se necessário.

O que não te dizem e seu bebê precisa

Tudo o que é novo, da geração presente, sua avó, mãe, tia, não conhecem, então ninguém vai te dizer que você precisa já de antemão, vai mais de você decidir experimentar tendo sabido por alguma amiga ou lido nas redes sobre a utilidade de um produto x.

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Banho no colo. Março/2015.

Segundo banho da minha filha do meio, Ana Julia, no meu quarto da maternidade. Com direito a sachês de camomila.
Segundo banho da minha filha do meio, Ana Julia, no meu quarto da maternidade. Com camomila.

Balde de banho ou ofurô para bebês é um desses produtos atuais, simples e barato que tem “n” vantagens: ideal pra o banho dos primeiros meses, ocupa pouco espaço, é terapêutico, reduzindo mal-estares pelo bebê ficar em posição fetal em meio à água (ambiente familiar, similar ao que ele ficou por nove meses) e ele se sente seguro desse modo. Meus três filhos usaram muito até começarem a andar. A Estela, com 9 meses agora, foi a única que tomou muito banho no colo também e sempre adorou. Acho que banho no colo dispensa enumerar vantagens. Agora já curte a banheira dos irmãos, que passei a usar mais após começarem a engatinhar.

Para os bebês que têm cólica, óleo de massagem (vegetal, não mineral) também é algo acessível que, associado à Shantala, pode funcionar muito mais que remédios. Muitas vezes colo e balanço (dança, conexão) resolvem o mal-estar, por isso, antes de tratar a cólica, vale refletir com o Dr. Carlos González em seu artigo utilíssimo para quem passa por esse processo. Eu passei por isso com meu filho, não com minhas filhas e dava-lhe Shantala e balanço, que nem sempre resolvia (sem calma nada ajuda), e, por duas vezes, causou-lhe refluxo, por isso, vale ler o artigo.

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Estela no carregador, com alguns dias de vida.

E, falando em bebês que têm refluxo ou que têm qualquer problema respiratório e vivem com constipação, travesseiros anti-refluxo (os inclinados grandes que podem ir debaixo do colchão ou os pequenos que servem para colocar em cima dos carrinhos e no local de troca) são outro item barato e que impedem que seu bebê vomite e engasgue e auxiliam na respiração. São bons também porque possibilitam que o bebê veja melhor o que acontece ao redor quando está em repouso, mas claro, melhor perspectiva pra ver ao redor é de um bom colo.

Sobre colo, sling ou carregador de bebês é outro item que ninguém me disse que precisaria, tanto que só estou usando com minha terceira filha, após respeitar integralmente a necessidade de colo do bebê (ou aceitar o que eu já sabia, mas que “não me deixavam” fazer) o máximo de tempo possível e a minha necessidade de ter braços com três filhos. Temos três e usamos quase todos os dias, principalmente para caminharmos ou irmos ao parque. Há diversos vídeos e artigos na internet ensinando como usá-los e falando dos inúmeros benefícios, mas atenção, pesquise fontes confiáveis de produtos que respeitam a fisiologia do bebê, pois, caso contrário, podem causar danos à saúde dele.

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Fernando e Ana, com 2 anos de idade. A caminho da festa junina da escola e do desfile de 7 de setembro. Junho e Setembro de 2014.

Com minha segunda filha só passei a usar mais o carrinho, quando ela já não era mais uma recém-nascida, após completar um ano de idade, para longas caminhadas no bairro ou até a escola do irmão; funcionava para eu carregá-la quando ela se cansasse. Com a terceira, foi usado apenas para as sonecas diurnas dela, enquanto o carrinho era confortável, grande pra ela, até uns 5 meses. Atualmente, usamos apenas quando saímos para comer, já que nem todo lugar tem cadeira de alimentação apropriada.

Dormir no quarto dos pais e de preferência com os pais é o que o bebê precisa, então moisés, carrinho, uma cama maior, que caiba pai, mãe e bebê, sem risco do bebê ser sufocado, ou qualquer caminha improvisada (leia-se um colchão no chão, como orientado pela linha montessoriana) para que o bebê possa ficar junto à mãe toda a noite, é ultra necessário.

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Ana Julinha, com quase 5 meses na cadeirinha enquanto a mamãe jogava bola com o irmão no pátio do prédio. Outubro/2012.

Cadeirinha de repouso ou balanço para antes do bebê sentar ou até ele parar de tombar (ou carrinho, ou bebê-conforto, ou o cadeirão de alimentação). Nem tudo dá pra se fazer com o bebê no sling, como cozinhar, ou dar banho no irmão mais velho, por exemplo, e o bebê não quer ficar o tempo todo deitado, ele quer te ver e ver ao redor, então uma cadeirinha (ou carrinho, ou bebê-conforto, ou o cadeirão de alimentação) ajuda muito pra te dar braços e pra dar conforto a ele.

Vinagre claro, mais sabão em pó comum, serve para lavar as fraldas de pano e tecidos com resíduos alimentares, pois o vinagre é bactericida e fungicida sem ser insalubre como o cloro. Ajuda, também, a tirar a maior parte das manchas.

 

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Ana Julia em Paraty, na nossa viagem de mãe e filha. Outubro/2013.

Seria de grande utilidade para todas as mães, pais, cuidadores presentes ou futuros que leem este texto, se você pudesse compartilhar a sua experiência também, então, conte para todos, nos comentários  logo abaixo, o que você considerou ou não necessário na experiência com seu bebê.

Gratidão por ler! Namastê!
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Porque as ORELHAS são delas e os FUROS da sociedade

#furonaorelhadequemquer #minhasorelhasminhasregras

AVISO DE IMAGEM FORTE ABAIXO

Resolvi escrever esse artigo para levantar uma polêmica que não cessa em grupos virtuais de mães, entre feministas e conservadoras. Porque mais do que apreciar o fogo das ideias em combate e a depuração de preconceitos, eu aprecio orelhas sem furos de crianças pequenas, porque, ao vê-las, eu vejo uma criança (uma menina) que não experimentou um procedimento de submissão e eu vejo pais com maior capacidade de respeitarem seus filhos tal como são, com autonomia sobre o próprio corpo, com liberdade para fazerem suas próprias escolhas.

Sempre gostei de usar brincos, na verdade, não me gosto sem, tiro-os para tomar banho e para dormir, somente. Na adolescência gostava tanto, que, quando tinha doze anos, decidi eu mesma fazer mais um furo em cada orelha, em casa, com agulha e algo que usei para assepsia, porque, apesar de adorar mais brincos, sempre, também, me desesperou a situação de confiar meu corpo a alguém para qualquer procedimento invasivo, ainda mais sem necessidade. Sou do tipo que desmaia quando tenho que tirar sangue ou tomar soro e estou meio abalada,  ainda mais se for com um mínimo de hostilidade. Também sou do tipo que preferia nunca ter passado por uma (desne)cesárea.

Mas, durante a minha primeira infância, não devo ter dado muita bola para brincos. Lembro-me por volta dos 6 anos, de brincar com as bijus da minha mãe. Antes disso, só me recordo do incômodo ao dormir, de enroscarem, me machucarem às vezes e de ter perdido muitos… lembro que ficava chateada quando perdia, quando ouvia minha mãe falar que eu tinha perdido mais um, não entendia como isso ocorria… sentia culpa. Não tinha maturidade pra lidar com essa responsabilidade de usar brincos e preservá-los. Incômodos de uma menininha, de muitas, com certeza, de menino algum, certamente.

Gostaria de ter feito eu mesma meus primeiros dois furos.

Não somente pelo que acho importante para mim é que respeito a integridade física das minhas filhas, pelo menos até que elas tenham as regras delas, somente permitirei que intervenham no corpo delas, por motivo de saúde.

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Não permiti que furassem as orelhas das minhas duas meninas e não havia pensado nessa questão até que ganhei o primeiro par de brincos para a mais velha. Na ocasião, recebi, agradeci, por educação, e os guardei, onde até hoje estão. Quando qualquer pessoa me falava em brincos nela, antes de ela nascer, eu simplesmente emudecia, não dava corda e seguia, assim, sem queimar os miolos com isso. Sentia como uma violação ao direito dela sobre o próprio corpo, que nem ainda entre os que falavam sobre a intervenção estava. Me soava horroroso, violento, machista. Já sentia que não o faria, embora nem sequer elaborasse um pensamento claro a respeito.

Depois de um parto roubado e de descobrir as muitas intervenções que meu primeiro filho havia sofrido sem necessidade desde antes de nascer, eu tinha muito mais coisas importantes para me ocupar, que tinham a ver com o bem-estar dela, com a saúde e integridade física dela. Pensar em furá-la sem necessidade seria um contrassenso absurdo, oposto a tudo o que eu estava buscando.

Eu já tinha um menino de 3 anos, que teve suas orelhas respeitadas, e sua integridade física até onde meu limitadíssimo esclarecimento alcançava na época, porque, então, eu não faria o mesmo com a minha filha? Ainda mais naquele momento de VBAC vitorioso e munida de informações suficientes para escolher as intervenções na minha recém-nascida que eu julgasse estritamente necessárias. Só por se tratar de uma  menina?! Que abuso! Não, obrigada não.

Quando a auxiliar de enfermagem veio me dar um cartão e oferecer furar as orelhinhas dela no dia em que ela abarcou neste mundo, eu mal esbocei uma resposta, achei o próprio oferecimento um tanto invasivo, desagradável. Quase pensei, enquanto ela fazia propaganda muito sorridente: “que folga entrar aqui e se oferecer para furar a minha filha sem qualquer abertura para isso”. Peguei o cartãozinho, não esbocei uma palavra sequer, dei um risinho de lábios cerrados e disse adeus em pensamento. Na verdade, eu era só risos, estava no céu de Anita! 😀

Não quero dizer aqui que toda mãe que submete as filhas ao procedimento de furar as orelhas o faça porque é machista, vaidosa, violenta ou fraca, não. Como um procedimento de rotina que é, furar as orelhas das filhas é uma daquelas escolhas inconscientes que a gente faz ao longo da vida e às vezes nunca chega a perceber que poderia ter agido diferente, que a escolha não era nossa na verdade.

Talvez eu tenha percebido que pudesse escolher não colocar brincos na minha filha e remeter essa escolha futura a ela, pela desnecesárea que sofri, sentindo no próprio corpo a dor e a violação desnecessárias, e pela informação que acessei sobre o excesso de intervenções praticadas de praxe nos recém-nascidos. Isso tudo me ajudou a criar  consciência do quão importante é respeitarmos os limites físicos do outro.

Escolhi para ela um parto humanizado, e um pós-parto sem colírio de prata, sem aspiração, sem banho com sabão, sem corte precoce do cordão, sem vitamina K , sem vacinas. Porque raios eu iria permitir furar as orelhinhas dela por vaidade, costume, “feminilidade”?

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Minhas meninas, em junho deste ano.

Lendo nas redes sociais sobre  acidentes diversos causados por brincos em recém-nascidos, encontrei relatos importantes:

“Minha mãe furou a minha quando era RN, disse que não chorei, só que depois com 5 meses enroscou no lençol e ela não viu, cortou e abriu toda, disse que eu berrava de dor, ela se arrepende demais por causa disso. Somente com 12 anos fiz a cirurgia pra reparar. Sou contra furar orelha, pela dor que o bebê pode sentir e acho uma invasão, você não sabe se ela vai querer, deixa ela crescer e decidir se quer ou não furar.” (Julia Bertolini)

Não esqueço até hoje a carinha da Laura quando furou a orelha. Hoje, jamais faria de novo. Me arrependo muito. Fui tão firme em todas as minhas decisões em relação a chegada dela (fizemos parto domiciliar) que não entendo até agora porque fiz isso. Atualmente ela não usa mais brinco, pois se mostrou algo perigoso. No inverno ela enroscou o brinco no meu casaco e foi um tormento para tirar. Ela tem agora 1 ano e 7 meses e não fica mais quietinha. Prefiro não arriscar…” (Catia Hueto Fantin)

Acho válido quem procura acupunturista para furar as orelhinhas para evitar possíveis danos à saúde da bebê, e quem sabe, a dor ao furar, porque uma bebê pequena responde de maneiras diversas à dor, mas essa atitude, além de não impedir que o bebê continue correndo riscos variados por usar brincos, e de não evitar o incômodo do brinco na hora de dormir, mamar, etc, continua transgredindo o direito de escolha dela sobre o próprio corpo.

É muito muito difícil definir dor mesmo em adultos que conseguem explicar o que estão sentindo. É uma vivência física e ao mesmo tempo extremamente subjetiva. Não dá MESMO pra dizer que alguma intervenção física dói muito ou pouco. Especialmente em bebês. Uma coisa é acreditar que o seu bebê não sentiu baseado na sua experiência, outra coisa é afirmar que bebê novinho não sente dor.” (Rachel Merino)

“Furei da minha filha, por questões pessoais, culturais. Hoje, se tiver mais uma filha, não sei se furaria. Como as meninas disseram, lutei tanto para ela nascer sem intervenções…. me senti invadindo o corpinho dela. Minha experiência: foi enfermeira em casa, passou anestésico, tudo como manda o figurino…bebéia chorou horrores. Me arrependi tanto, na hora mesmo (quase que não permiti furar a outra orelhinha). Se você tem dúvidas, não fure. Se te incomoda dormir com brinco, por que não incomodaria sua filha? A decisão é de cada uma mas é importante problematizar sim. E dizer que bebês não sentem dor? Ah não. Bebês podem reagir de diferentes formas frente a dor, o que não significa dizer que eles não sentem. “(Nádia Castro Alves)

Aliás, o que você está ensinando para a sua filha sobre “meu corpo, minhas regras” quando você mesma não respeita o corpo dela?

O que você está ensinando a sua filha sobre não-violência, quando você comete um ato violento contra ela em nome… do que mesmo?

“Não furei e não vou furar. Não furaram o meu e eu acho ótimo ter podido escolher.” (Yara Tropea)

“Sem contar que já mais velhas, se optarem por furar, vão se achar no máximo da conquista e lembrarão disso como desafio superado.”(Ana Carolina Arruda)

Acho muito interessante a criança poder decidir sobre o próprio corpo. A vida será cheia de momentos de decisões, esse sera apenas mais um”. (Debora Roggia)

Há dores que, pelo bem da saúde dos filhos, não podemos evitar que sofram, como o teste do pezinho, por exemplo e tantas outras intervenções necessárias à saúde deles, como as vacinas. Só que até vacinas podem ser administradas de formas mais amenas, tanto do ponto de vista físico quanto psicológico.

Mas sobre dores desnecessárias, por que não evitá-las?

“Sou mãe de 4 filhos. Dois meninos e duas meninas. E pago minha língua sempre. Nunca tinha pensado no mal em furar as orelhas das minhas filhas. A terceira coloquei com 1 mês. A pequena chorou, gritou de dor e de susto. Eu feliz por vê-la com um brilhozinho. Passei álcool e não tivemos alguma reação, mas aquele choro desnecessário dela sempre esteve entalado. Com a caçula foi diferente. Mudei. Não quero lhe causar nenhum mal. Não quero lhe causar nenhuma dor desnecessária. Ela é linda sem brinco. Quando crescer pode pedir e vou levá-la pra colocar. Para a mais velha já expliquei o que aconteceu e pedi desculpas.”(Flávia Alves)

Para mim a naturalização (ou humanização, se preferir) deve ocorrer desde a concepção até a morte, sem exceções, e o primeiro passo que devemos dar em direção a ela é respeitar os limites individuais, todos eles, e principalmente o óbvio: o corpo.

Se o livre-arbítrio é algo natural, faculdade inata que nos possibilita escolher o que nos diz respeito, se pai e mãe são nossos tutores naturais, para nos proteger nos primeiro anos de vida e para sempre nos conduzir a nossa própria essência divina, impor modelos não é algo natural, é um mal costume humano.

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A ridícula, em voga, “Escola de Princesas”, sempre com vagas esgotadas antes mesmo de iniciar as “aulas” nas cidades em que chega: adestrando meninas.

A sociedade que impõe brincos às meninas é a mesma que diz a elas para que se comportem como “moças”, para que contenham sua expressão corporal o tempo todo (“fechem a pernas!”), para que não usem cabelos curtos, para que comam, andem e falem como “moças”, é a mesma que decreta brinquedos e brincadeiras “de menina” e “de menino”,  que separa bens de consumo, principalmente brinquedos e vestuário, por gênero e a mesma que promove concursos infantis de beleza, que as comparam incessantemente à princesas lindas e indefesas. Isso, só para citar alguns exemplos.

“Tem gente que diz que a filha sentiu dor e tem gente que diz que não sentiu. Pra algumas deu problema, deu alergia, outras não. Da mesma forma, pra algumas pode fechar, pra outras não. Ou seja, há um risco. Eu, pessoalmente, acho improvável que um bebê não sinta dor, pra mim parece mais plausível que por ser tão pequenininho ainda não saiba bem reagir à dor ou algo assim. Seja como for, dá pra concordar que tem um risco, né? E pra que correr todo esse risco? em nome da sua vaidade? Sendo que quem vai pagar o pato (ou não, tá, mas pode muito bem ser que sim) é sua filha? E outra: tem muita gente que diz que é cultural e blá blá blá. Bem, muitas coisas são culturais. Acho que nós aqui já passamos do ponto de reproduzir tudo o que os outros fazem no automático. Vale pensar, vale refletir. vale a coragem de deixar um hábito de lado por uma decisão mais consciente. Pra constar: não furei a da minha filha. E nem a do meu filho. E se eu furasse a dela não conseguiria fugir de pensar em porque é que raios submeti a minha filha a uma mutilação, só por ser mulher. Mulher, como eu. Se a gente for ver a partir do viés do machismo dá pano pra manga.” (Elisa Motta Iungano)

O que você quer? Contribuir para a manutenção dessa sociedade machista através desse ato de violência infantil feminina ou mudar essa realidade dando liberdade de escolha às nossas meninas, às suas filhas, às futuras mulheres, desde crianças? Para mudar, não é necessário gastar energia defendendo o direito da sua filha e a sua postura, pois quando agimos com consciência, não precisamos nos defender, compartilhamos se temos vontade, e tocamos em frente. Basta mudar de assunto quando te falarem de brincos nela, dizer ‘não’ caso se ofereçam diretamente para furar e guardar os brincos que, porventura, ganhar. Agir diferente sem muito falar. 

Tapamos os furos que a sociedade tem ao não cometê-los nós mesmos.

Porque não furar

Pra resumir, os motivos pelos quais não se deve furar as orelhas das bebês (e meninas pequenas):

– desrespeito ao corpo alheio,

– desrespeito ao direito de escolha alheio,

– dor desnecessária,

– risco de acidente,

– desconforto desnecessário nos primeiros anos de vida (mamar, dormir, brincar),

– tornar o órgão ligado a região do furo mais vulnerável, em organismos mais sensíveis, segundo o médico acupunturista Jou Ell Jia, da Associação da Medicina Tradicional Chinesa do Brasil, em São Paulo. (Fonte)

– imposição de padrões de beleza.

“Eu sou uma feminista e todos nós deveríamos ser feministas, porque feminismo é uma outra palavra para igualdade.” (Malala Yousafzai)
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Toda criança livre de shopping

Criança em estado de shopping ou criança em estado de natureza?

Já aconteceu de você ter ido a um shopping com seus filhos e, ao sair de lá, ter tido a sensação de que apesar de ter gasto consideravelmente, vocês não se divertiram? Ou, você já passou maus bocados num shopping devido às birras consumistas dos seus filhos? Você gostaria de se divertir com suas crias sem que precisassem consumir tanto?

Que tal tirar seus filhos dos shoppings? Que tal parar de frequentá-los? Que tal se, desde bebês, seus filhos não soubessem o que é frequentar antros de consumismo? Quais valores você quer lhes passar? Qual realidade você quer que eles conheçam?

Como eu disse no artigo Como dizer “não” para o consumismo dos filhos, um dos fatores que irá definir o estilo de vida consumista ou não deles, diz respeito aos locais que vocês frequentam. Se eles vivem em shoppings, como eu vivi e como meu primeiro filho viveu enquanto morávamos em São Paulo, aprenderão, erradamente, que felicidade é consumir… uma crença que custa a mudar, principalmente se é estabelecida durante a primeira infância, quando as crenças se concretizam profundamente no nosso ser.

Pausa no frisbee no jardim. Maio/2015.
Pausa no frisbee no jardim. Maio/2015.

Onde vocês frequentam? Qual o tipo de identificação que vocês têm com esses locais? Onde você estão conectados?

Somente respondendo essas perguntas a si mesmo é que as coisas podem ficar claras e você poderá, então, decidir mudá-las – e isso não é difícil.

Porquê escolhemos o pior

Segundo uma pesquisa do Datafolha de setembro de 2013, 70% dos paulistanos tinham o hábito de frequentar shoppings. Acredito que esse número tenha crescido, assim como o número de shoppings cresceu na cidade, de uns anos pra cá.

Na mesma matéria, na opinião da urbanista Heliana Vargas, coordenadora do Laboratório de Comércio e Cidade da FAU-USP, “em uma cidade como São Paulo, com sérios problemas de trânsito e de segurança, o shopping conquista por sua praticidade (…) é a preferência do paulistano por ser um ambiente organizado, confortável, onde se pode comer, comprar e ir ao cinema com segurança. Daí a popularidade”, diz.

Aliás, você já percebeu que o ambiente dentro de um shopping é perfeito? Clima sempre agradável e constante, devido ao sistema de ar condicionado, vendedores  acolhedores, devido ao interesse mercadológico, com tudo o que se necessita para passar em média 16 horas (mais ou menos o tempo em que ficam abertos) das 24 do dia, com estrutura de segurança de ponta… tudo muito artificial, um ambiente bem diferente da realidade, que funciona somente com muita estrutura tecnológica, pessoal capacitado para servir aos frequentadores e relações humanas reduzidas ao ato de consumir.

É como num sonho… talvez uma fuga da realidade nada amena? Talvez devêssemos tornar a nossa realidade mais sonho, que fugir dela para o sonho de consumo, para as bolhas consumistas alienantes

Nos shoppings, há quase tudo o que desejamos ter, desde ofertas gastronômicas diversas até imóveis em locais, igualmente, de sonho; só que “desejar” e “ter” são verbos que pouco têm a ver com felicidade, principalmente em se tratando de bens supérfluos, porque é isso que os shoppings oferecem.

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Fernando no shopping de Ubatuba: hábitos que demoram a se perder. Fevereiro/2012.

O que queremos quando vamos a um shopping? Osho traz uma desnudante reflexão acerca dos nossos quereres:

“Você me pergunta ‘O que eu quero?’ Eu é que devo lhe perguntar, ao invés de você me perguntar, porque depende de onde você está. Se você estiver identificado com o corpo, então o seu querer será diferente; então comida e sexo serão suas únicas vontades, seus únicos desejos. Esses são dois desejos animais, os mais baixos. Eu não os estou condenando ao chamá-los de mais baixos, eu não os estou avaliando. Lembre-se, eu estou apenas afirmando um fato: o mais baixo degrau da escada. Mas se você estiver identificado com a mente, os seus desejos serão diferentes: música, dança, poesia, e depois existem mil coisas. (…) Se você estiver identificado com o coração, então os seus desejos serão de uma natureza ainda mais elevada, mais do que a mente. Você se tornará mais estético, mais sensitivo, mais alerta, mais amoroso.(…)
      Assim, depende de onde você está ligado: no corpo, na mente ou no coração. Esses são os três mais importantes locais nos quais a pessoa pode funcionar. Mas também existe um quarto local em você; no oriente ele é chamado de turya. Turya simplesmente significa o quarto, o transcendental. Se você está consciente de sua transcendentalidade, então todos os desejos desaparecem. Então a pessoa apenas é, sem qualquer desejo, sem nada para ser pedido, para ser atendido. Não existe futuro ou passado. Então a pessoa vive neste momento completamente satisfeita, realizada. No quarto, o seu lótus de mil-pétalas desabrocha; você se torna divino. “

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Anita inconsolável quando o carrossel parava. Caraguatatuba. Junho/2014.

O caro que sai ainda mais caro

Abordando o aspecto consumo, porque é disso que shopping (do inglês ato de fazer compras) se trata, seus filhos pequenos não sabem o preço disso tudo, ou melhor, não têm nem ideia do que seja preço. Como explicar, então, que nesse lugar “de sonho” tudo custa certa quantia em dinheiro, desde o estacionamento? Ou, que não se pode consumir tudo o que um shopping oferece o tempo todo? Que as atrações acabam, rápido, e que não dá pra ir “toda hora de novo”, principalmente as infantis (o que não é por acaso, é para entrar no loop do consumo). Não, não e não! Não dá pra explicar tudo isso. Não dá pra exigir esse entendimento insano de uma criança pequena, muito menos de um bebê meu Deus!

As atrações em shoppings são feitas de modo que criem aquela situação pavorosa em que as crianças, que possuem memória de curto prazo (músicas curtinhas, atenção curtinha, etc), querem consumir mais e mais do mesmo atééé cansarem, dificilmente aceitando o fim da atração, protestando muito contra você “pai/mãe malvados” passarem a lhe negar o que ela está adorando (“por quê???”). Sem dizer que, quando cansam, já estão dispostas a querer consumir outra coisa, aliás, o que há mais pra se fazer num shopping? E criança saudável quer diversão, só que num shopping diversão tem preço.

Isso sem falar no que custa à saúde infantil o excesso de atrações eletrônicas, principalmente as que incluem telas. (Mais sobre, aqui)

Dentro do shopping todos estamos entretidos o tempo todo, porque há muitas coisas atraindo atenção, dizendo “me consuma! me consuma!”. Estamos, portanto, com o nosso olhar voltado para o lado de fora o tempo todo, sem tempo para olharmos para dentro, desconectados de nós mesmos. E o que a desconexão causa, principalmente em crianças: agitação, irritação, choro, tristeza. Crianças e adultos precisam de locais onde possam olhar para dentro, onde possam estar paz, sem ter nada pra fazer a não ser estar consigo mesmos.

Se o hábito de frequentar shoppings já foi criado, é muito chato ter que ficar dizendo “não” o tempo todo. “Não” pra ir ao shopping, “não” pra ir ao local de diversões eletrônicas, “não” pras inúmeras e atraentes “comidas” processadas. É cansativo demais ficar explicando porque não dá o tempo todo, não é mesmo?

Se você é do tipo que sempre disse sim a esse tipo de passeio mas está disposto a mudar de vida e quer começar a dizer não, prepare-se! Meu filho, por exemplo, não podia passar perto daqueles quiosques que vendem balões de gás que queria levar um pra casa, também insistia muito em todo tipo de brinquedo “papa-fichas” que ficam subindo e descendo ou rodando e tocando uma musiquinha nada a ver. Quando comecei a dizer não, era sempre um show. Então, ponta firme e corre pro parque! (Sobre isso leia: O que há por trás das birras consumistas)

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Primeira vez da Anita no Parque Ibirapuera, com 50 dias de vida. Julho de 2012.

Como abandonar o sistema

Eu sei o quanto é difícil buscar uma vida alternativa numa cidade que necessita de ambientes acolhedores, seja pela questão da segurança, seja pela necessidade de ter lugar pra estacionar, seja por conta da correria da cidade grande que nos faz necessitar de um local com estrutura para relaxarmos, seja porque precisamos de um mínimo de estrutura para conseguirmos nos divertir com as crianças (será mesmo?).

Na verdade, creio que o mais difícil de tudo está em resgatarmos velhos hábitos, que nos aproximem do outro e não das coisas, que possibilitem a troca e não que necessitem do dinheiro para trocar, em suma, que possibilitem o SER acima do TER. 

Ouso dizer que a maioria dos pais e mães urbanos encontram-se incapazes de se divertirem com os filhos sem entrar na situação de consumidor. Não dá pra simplesmente estar junto e let it go! Temos que ir ao cinema, ou creditar no cartão de jogos para garantir o brincar eletrônico (em vez do brincar entre humanos), ou relegar a monitores a vistoria da diversão solitária dos filhos, ou gastar com alguma besteira pra mastigar: a regra é entreter, nem que seja através dos dentes!

Carrinhos de Bebê
Outra coisa que quem frequenta shopping sabe bem é que a ostentação começa no carrinho do bebê. Há carrinhos que chegam a custar R$6 mil, como o Aston Martin Silver Cross. Cabe a você decidir inserir seu bebê nesse mundo infeliz do pode mais quem paga mais, ou não.

Nossa geração mãe/pai classe média urbana, cresceu em shoppings, aprendemos a frequentá-los desde sempre. Como viver, então, sem isso? Como resgatarmos a brincadeira de rua, a infância livre na prática?

A minha opção foi sair da cidade gigante e mudar para o litoral (mudança drástica, resposta a muitos anos de opressão rs), com um shopping de dar dó em Ubatuba (graças a Deus!), a cidade em que aportei primeiro. Mas, antes mesmo dessa grande mudança, eu passei a mudar meus hábitos e dos pequenos e a passear mais pelo bairro, brincar mais no quintal da avó e área comum do prédio e a frequentar mais os parques da cidade, confesso que meu salário reduzido na época, por opção de querer dedicar meu tempo mais aos filhos que ao mercado, auxiliou na escolha do mais em conta, e melhor.

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Nós no Parque do Cordeiro, pertinho da nossa casa na época, na zona sul da capital paulista. Agosto/2012.

A vida real está fora

Se seus filhos vão a outros lugares ao ar livre, aprenderão, desde sempre, que a vida é abundante, pois terão mais espaço, mais natureza e mais pessoas para compartilhar, pessoas, essas, em situação de maior conexão, portanto, mais abertas para trocar, você, por exemplo, que não estará distraído com vitrines, em situação de cliente, mas apenas sendo pai/mãe.  

A maioria dos pais e mães ainda estão submetidos à jornada insana de mais de 8 horas de trabalho diário, a maioria das crianças também passa grande parte do seu dia, senão mais ainda que os pais, dentro de instituições. Poxa! Vocês merecem o lado de fora! Na verdade, precisam dele.

Se seus filhos frequentarem lugares ao ar livre, aprenderão, também, que a vida é instável, nem sempre confortável, pois estarão em contato com o tempo, assim como ele é, mas que pode ser plena de aventuras reais, sem que, pra isso, seja preciso possuir coisas, mas apenas SER quem somos em integração com a Existência.

“Investigue, olhe para o lugar exato onde você está. No que me diz respeito, todo desejo é completo desperdício, todo querer é errado. Mas se você está identificado com o corpo, eu não posso dizer isso para você, porque isso estará muito longe do seu alcance. Se você está identificado com o corpo, eu lhe direi, mude um pouco para desejos mais elevados, os desejos da mente, e depois um pouco mais alto, para os desejos do coração, e depois finalmente ao estado sem desejos.
      Desejo algum jamais será satisfeito. Esta é a diferença entre a abordagem científica e a abordagem religiosa. A ciência tenta satisfazer os seus desejos e, naturalmente, a ciência tem sido bem sucedida ao fazer muitas coisas, mas o homem permanece na mesma miséria. A religião tenta acordá-lo para a grande compreensão para que você possa ver que todos os desejos  intrinsecamente não conseguem ser satisfeitos. 
      É preciso ir além de todos os desejos e somente assim haverá contentamento. Contentamento não é o fim de um desejo, contentamento não é a satisfação do desejo; porque o desejo não pode ser satisfeito. Com o tempo, quando você chegar à satisfação do seu desejo, irá descobrir que mil e um outros desejos surgiram. Cada desejo se ramifica em muitos desejos novos. E isso acontecerá repetidas vezes e toda a sua vida será desperdiçada. 
      Aqueles que sabem, aqueles que vêem – os budas, os despertos – todos concordam em um ponto. Isso não é uma coisa filosófica, é factual, o fato do mundo mais interior: o contentamento acontece quando todos os desejos tiverem sido abandonados. É com a ausência de desejos que o contentamento surge dentro de você. – na ausência. Na verdade, a própria falta de desejos é contentamento, é preenchimento, é gozo, é florescimento.” (OSHO – Come, Come, Yet Again Come – Cap. 4 – Pergunta 3, Tradução: Sw. Bodhi Champak)

Se você ainda pretender continuar frequentando assiduamente shoppings e levando seus filhos consigo, não reclamem depois de os terem criado à sua imagem e semelhança de zumbizinhos alienados que só sabem ou estar passivos, quando entretidos com algo, ou ativos demais, estressados ou hiperativos, colocando pra fora todo o excesso de informação a que foram submetidos e enlouquecendo a todos os demais, porque criança externaliza muito mais, e hiperatividade e TDAH são apenas termômetros que indicam, na maioria das vezes, modos de vida desequilibrados.

Mas antes de fazer sua escolha, ouça outra palavra: um super TED Talk com o lúcido, preciso e arrepiante pediatra Daniel Becker, sobre os sete pecados capitais contra a infância e suas soluções, trazendo a importância das crianças e adultos estarem do lado de fora, porque a natureza exterior leva à natureza interior!

Gratidão por ler! Por uma vida mais livre para todos nós. <3

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Porque é bom ter inveja

Mesmo que você não se considere uma pessoa invejosa, em algum momento da sua vida você já deve ter sentido  inveja de alguém, não é verdade? Bom, mas pode ser que não, pode ser que você faça parte da minoria que já desapegou desse sentimento e esse artigo não é pra você.

Por outro lado, se você já caiu em tentação, e já se pegou desgostoso pelo bem alheio (“por que não eu?!”) não se aflija, agradeça. Sim, porque embora seja considerada vil e vergonhosa e, por isso mesmo, difícil de confessar, a invídia tem seu lado bom. Como diria A cor do som:

“Não se negue
Escorregue nesse
Regue
Não se arregue
Escorregue
Segue e persegue esse caminho no suingue menina.”

Assumir para libertar-se

Longe de dizer que inveja é algo bom, sentir inveja tem seu lado bom e assumir isso faz bem, pois como dizia Paulo de Tarso, o amor não inveja e se alegra com a verdade.

Talvez a inveja tenha essa fama abominável, porque o hábito de negá-la impossibilita observá-la mais de perto e verificar que ela tem algo valioso para a nossa felicidade.

Yin e Yang

Yin e Yang são dois conceitos básicos do taoismo que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. Descrevem as duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas: o yin é o princípio feminino, a água, a passividade, escuridão e absorção. O yang é o princípio masculino, o fogo, a luz e atividade.

Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência. Esse complemento existe dentro de si. Assim, se deduz que nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua. Além disso, qualquer ideia pode ser vista como seu oposto quando visualizada a partir de outro ponto de vista. Neste sentido, a categorização seria apenas por conveniência.

Todavia, é de se entender essa negação tradicional da inveja.

O que não falta no mundo é gente pra dizer pra gente pra parar de sentir o que a gente sente (assim com aliteração mesmo e como se isso fosse possível), ainda mais quando o que sentimos é tachado de ruim, porque, também, não falta gente pra tachar as coisas de boas ou ruins e perpetuar o falso maniqueísmo.

E aí, o que a gente faz? Finge que não tem inveja e deixa ela ali de escanteio, sem olhar pra ela. Porque né, basta a gente olhar pra alguma coisa pra todo mundo perceber que essa coisa existe, e, se essa coisa feia é nossa então, daí é que a gente finge que não tem mesmo.

Negar a inveja é um erro, aliás, negar qualquer coisa é um erro e com a inveja não seria diferente. Coisas ruins, por mais vexatórias que sejam, não devem ser negadas, mas observadas, para aprendermos com a dor ou desconforto que elas causam e para que nos libertemos delas.

A negação não nos liberta do mal, pelo contrário, nos transforma em prisioneiros inconscientes do que estamos negando. Já a verdade, liberta.

Quando negamos a inveja, em vez de seguirmos nosso caminho animados (isso quando não empacamos), seguimos com desgosto, achando que o outro é privilegiado na Existência, e que a gente não tá ganhando o que merece; e vivemos com esse incômodo chato que nem zumbido de pernilongo na madrugada, que vai continuar conosco até a gente aceitá-lo, encará-lo e entendê-lo, porque tudo nessa vida tem um propósito, e, enquanto a gente não descobre o propósito das coisas, elas perduram.

Então não negue, porque a inveja só é boa dentro do prazo de validade.

Um dos nossos grandes erros ao sentir algo ruim é mentir pra si mesmo de que se trata de um sentimento bom. Outro é negar que se sente a coisa ruim. Mas o pior deles é acreditar que o lado ruim, é totalmente ruim.

É perda de tempo negar a existência do mal. Tudo é Yin e Yang. Mas, mais perda de vida ainda é deixar que ele permaneça além do tempo, porque, como dizia o rei Roberto: “se o bem e o mal existem, você pode escolher.”

 A inveja como farol

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Farol de Portland, Cabo Elizabeth, Maine, EUA.

A inveja é como um farol que nos mostra o caminho para navegarmos em direção ao nosso eu mais profundo, que está em terras firmes, sempre iluminado, esperando por nós.

sf (lat invidia) 1 Desgosto, ódio ou pesar por prosperidade ou alegria de outrem. 2 Desejo de possuir ou gozar algum bem que outrem possui ou desfruta.3 O objeto que provoca esse desejo. Var: invídia.
Sentir inveja é uma coisa boa, pois, como tudo o que sentimos, é um sinal para encontrarmos mais uma faceta da nossa alma e nos tornarmos cada vez mais conscientes.

Invejamos alguém que tenha algo que desejamos ou que seja algo que gostaríamos de ser, certo? Então, é do sintoma inveja, que enxergamos a carência que está nos provocando a atitude de nos compararmos a alguém e desejarmos o que esse alguém tem, com desgosto e vitimização.

A inveja sempre tem a ver com você e não com a pessoa invejada. Na maioria das vezes, nem conhecemos tão bem assim a pessoa que invejamos para saber se ela está mesmo tão melhor do que a gente como ela aparenta estar. Pois, como disse um dia Miguel de Cervantes “a inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas”.

Vitória-Régia
“Uma flor não pensa em competir com a outra, ela simplesmente desabrocha.” Variações de Vitórias-Régias.

A inveja nos mostra onde, dentro do nosso ser, não nos sentimos amados, onde não nos sentimos  suficientemente bons. (Paula Abreu)

Se concebermos a inveja como uma oportunidade de auto-conhecimento, se conseguirmos encará-la como algo que só tem a ver conosco e ir além do amargor que ela causa, sentiremos gratidão ao notá-la, gratidão a esse farol que nos indica o caminho do nosso Ser.

Para o incômodo causado pela inveja passar, melhor que negá-la é atuar como um estudioso de si mesmo e observá-la. A partir do momento em que você se coloca como observador de si mesmo, observador do seus próprios sentimentos, o que você sente se distancia de você, porque no momento em que você passa a observar, você já não está mais sentindo inveja mas outra coisa, porque você já não se identifica mais com seu ego afetado pelo brilho do outro mas com seu Eu maior, que é capaz de se olhar e se assumir como autor da sua própria história. Em vez de se vitimizar, você se empodera, a paz se restabelece e você identifica suas insatisfações. (Gratidão mestre Osho!)

“Inveja é a falta de fé em si.” (Ditado árabe)

Farol de Formentor, Mallorca, Espanha. Foto: Stefan Brenner

A inveja é também um farol que nos mostra um novo destino, um novo porto a abarcar, um novo lugar para conhecer até que o barco da vida queira voltar a navegar.

Ela é um sinal da nossa capacidade de ver além da nossa realidade, de identificar no outro o melhor que queremos para nós. Não quero dizer que temos que sentir inveja para transcender nossa percepção e buscar uma realidade melhor, mas a inveja é, também, um caminho para vermos além, isso, claro, se percebermos ela em nós e perscrutarmos a nós mesmos.

Se não conseguimos invejar ou admirar alguém da onde estamos, isso significa que temos que buscar outros ambientes, onde possamos vislumbrar novos horizontes, novos guias, para que nossa evolução espiritual possa deslanchar.

Por outro lado, se deixarmos que a inveja nos envolva, como dizia Sêneca, avistaremos apenas o que está próximo de nós, e admiraremos com menos astúcia o que está distante. Ou seja, ao invés de ser um farol a iluminar novos caminhos para dentro do nosso ser e universo afora, ela entravará nosso olhar e irá nos encerrar num mundo muito limitado, sufocante.

Por isso, sentir inveja por muito tempo e o tempo todo não é uma coisa boa, como afirmam os textos islâmicos, “assim como o fogo queima a lenha, a inveja consome as boas ações.” A inveja pura paralisa, a inveja analisada, liberta.

be-you-tifulCaptou a inveja? Não deixe ela se enraizar. Tire ela de você e olhe para ela.

Olhe para você. O que você está invejando em alguém? Em que área da sua vida você inveja alguém? É exatamente aí que você se encontra mal resolvido consigo mesmo. É exatamente aí que reside uma crença de que você não é o bastante.

Por exemplo, se você inveja outra mulher mais bem-sucedida que você, que faz o que ama, por exemplo, e consegue viver bem financeiramente fazendo o que ama. Dentro de você reside uma crença de que você não consegue fazer o que ama e ser bem remunerado por isso, e mais, que você precisa disso, trabalhar no que ama e ganhar bem, para se sentir feliz e amado. Mas, vou te contar uma coisa: você já é o bastante sendo quem você é, exatamente neste instante.

Ao invés de fugir desse sentimento e dessas pessoas que você inveja, encare o que você sente com sobriedade e busque estar com essas pessoas que você inveja, porque elas podem iluminar seu caminho apenas sendo elas mesmas e, somente por isso, inspirando você a ser você mesmo e a se descobrir e se realizar.

 Não é o outro, é você! 

A inveja é um sentimento que você sente, VOCÊ, e, como tudo na vida, só o que você sente importa para você.

E, se você sente isso, aproveite para aprender com isso.

“Hoje Eu vi nos olhos das pessoas,
O seu segredo de inveja,
De querer ser o que não é.
Suas vidas são tristes, é certo.
Seus semblantes pesam demasiadamente,
E porque em si não encontram a si mesmas,
É lá no Outro que procuraram existir.” (Henrique de Shivas)

Aliás, só conseguimos ver os outros a partir de nós mesmos. Parece loucura, mas, na verdade, é mágico. Saiba que tudo o que você enxerga no outro que te faz invejá-lo é algo que existe em você. Mas daí você vai me dizer, “Não! Claro que não! É o oposto. Eu invejo porque não tenho e gostaria de ter.” E eu vou te dizer que você só pode ver a partir de você, do que você é capaz de ver, e se você é capaz de ver é porque você já conhece e aquilo tudo que você inveja no outro, você já possui, só ainda não MANIFESTOU.

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Um dia minha terapeuta e amiga querida postou no perfil do Facebook dela uma frase que me marcou de Alejandro Jodorowsky, que me fez buscar o poema completo:

“No me conoces, me imaginas.
Solo ves en mi lo que eres tú.
Cuando dices que me amas,
amas esa parte de ti que amas.

Cuando dices que me odias
estas odiando eso de ti que no te gusta…
no me conoces, me imaginas.
No es de extrañar, 
es lo único que puedes hacer.

Si me imaginas soy tú,
soy un invento,
y solamente verás en mi aquello
que reconozcas en ti.

Si te gusta lo que ves en mi,
¡No lo cambies!
Pero si no te gusta… ¡Cámbialo en ti!
Te amo, porque me amo.”

Aceite-se, perdoe-se, ame-se. Você tem luz própria!

Namastê!

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