A mendiga e o Samurai: sobre uma relação com um narcisista perverso

Um bravo samurai japonês, depois de vencer diversas batalhas, anunciou que iria se casar. Belo e forte, atraiu diversas mulheres que desejavam conquistar seu coração. Mas nenhuma riqueza ou beleza foi capaz de convencê-lo.

Um dia, uma jovem maltrapilha apareceu no palácio e disse ao samurai:

“Não tenho nada material para lhe oferecer. Porém, amo-o muito e, se me permitir, demonstrarei meu amor, passando cem dias em sua varanda, sem comer ou beber nada, exposta à chuva, sereno, sol e frio à noite. Se eu aguentar esses 100 dias, você me fará a sua esposa”.

O samurai, surpreso (embora não comovido) disse: “Eu aceito. Se uma mulher pode fazer tudo isso por mim, ela é digna de ser minha esposa”.

Dito isto, a mulher começou seu sacrifício.

Os dias começaram a passar e ela bravamente suportou as piores tempestades, o frio e a fome. De tempos e tempos, o samurai abria a porta e acenava, encorajando-a a continuar.

O 99º dia chegou e todos do reino se preparavam para o grande casamento.

Porém, faltando apenas uma hora para completar o desafio, a moça olhou tristemente para o samurai e retirou-se.

Ao chegar em casa, seu pai perguntou a ela porque havia desistido. E ela respondeu:

”Permaneci por 99 dias e 23 horas em sua varanda, suportando todos os tipos de calamidades e ele foi incapaz se me liberar desse sacrifício. Ele meu viu sofrendo e só me encorajou a continuar, sem mostrar nem um pouco de compaixão pelo meu sofrimento. Eu esperei todo esse tempo por um vislumbre de bondade e consideração que nunca veio. Então eu entendi: uma pessoa tão egoísta, imprudente e cega, que só pensa em si mesma, não merece meu amor!”

Isso nos faz refletir: quando você ama alguém e sente que para manter essa pessoa ao seu lado você tem que sofrer, sacrificar sua essência e até implorar, mesmo que doa, se retire. E não tanto porque as coisas ficam difíceis, mas porque quem não faz você se sentir valorizado, quem não é capaz de lhe doar o melhor de si mesmo, será incapaz de retribuir o compromisso e a entrega que você dispensou a ele e, DEFINITIVAMENTE, você merece um amor do tamanho de si”.

Porque a APAIXONADA NATA se conecta ao NARCISISTA ou PSICOPATA

Atração fatal entre o emocional e o racional

Pessoas que costumam se apaixonar facilmente e muitas vezes são mais propensas a se envolverem com parceiros que possuem traços de personalidade associados ao narcisismo e psicopatia, é o que mostram alguns estudos.

Em dois destes, foram investigadas as reações de 450 participantes a traços de um “parceiro romântico ideal” e à atratividade de vários perfis de namoro. Os pesquisadores deram atenção especial às classificações dos traços subjacentes ao narcisismo, psicopatia e maquiavelismo: manipulação, falta de sensibilidade e comportamentos de riscos.

Não surpreendentemente, pessoas que se apaixonam facilmente eram mais propensas a serem atraídas por qualquer pessoa nas avaliações. Mas ainda mais interessante foi a associação forte e única existente com a atração por pessoas com esses traços “sombrios”.

Com o narcisismo, especificamente, o apelo inicial é compreensível. Pessoas com traços narcisistas tendem a ser extrovertidas e enérgicas. Elas estão abertas a novas experiências, o que é emocionante e útil para os primeiros encontros, e muitas vezes se sentem confortáveis falando sobre uma ampla gama de tópicos, o que as ajuda a se envolverem facilmente com novos conhecidos. Além disso, sua visão grandiosa de si mesmas muitas vezes parece confiança, e elas tendem a ser fisicamente atraentes porque passam mais tempo cuidando de sua aparência.

Porém, não necessariamente uma pessoa que se apaixona facilmente irá se apaixonar por pessoas que possuem esses traços de personalidade, e sim que isso pode acontecer com mais frequência do que outros.

Lechuga, J. & Jones, D. (2021). Emophilia and other predictors of attraction to individuals with Dark Triad traits. Personality and Individual Differences. 168. 110318. 10.1016/j.paid.2020.110318.

O Narcisismo para a Psicanálise

O termo “narcisismo” foi utilizado pela primeira vez na área da psicanálise pelo alemão Paul Nacke em 1899. Ele fez uso desse termo para nomear o estado de amor de uma pessoa por si mesmo.

Para o pai da Psicanálise, Sigmund Freud, o narcisismo é uma fase do desenvolvimento das pessoas. É um estágio em que se verifica a passagem do autoerotismo – que é uma fase em que o ego ainda não existe -, ou seja, do prazer que é concentrado no próprio corpo, para eleição de outro ser como objeto de amor. Essa transição é importante porque o indivíduo adquire a habilidade de conviver com aquilo que é diferente e amar.

De acordo com Freud, todas as pessoas são narcisistas em certo ponto, já que elas contêm em si um ímpeto pela autoconservação.

Para Melanie Klein, o narcisismo seria um instinto destrutivo. O interesse narcisista representaria uma agressão dirigida ao objeto.

Jacques Lacan também trouxe grande contribuições ao tema narcisismo. Ele explicou o que chamou de “suposição de sujeito”, quando um bebê não se conhece, mas se percebe através de sua mãe e da imagem de filho que sua mãe gostaria de ter. Vê-se que a presença do outro é fundamental para o indivíduo se perceber.

Contudo, no momento em que o bebê, já maior, observa o seu próprio reflexo no espelho, ele passa a se reconhecer na imagem refletida, que ele acredita ser real. Nesse estágio, o eu se identifica a partir da imagem do outro. Pode-se afirmar que o estágio do espelho é uma simbologia narcísica, pois o sujeito se aliena em si mesmo.

As teorias acima entendem o narcisismo não como um transtorno, mas como parte do desenvolvimento e diferenciação do ego, mas dão pistas do que desenvolve o transtorno.

Mecanismos de Defesa da MENTE

Nossa mente sempre quer nos proteger, então ela busca nos fazer evitar o que não superamos, bem como tudo o que se mostra desconhecido. Alguns mecanismos de defesa da mente são:

  • NEGAÇÃO: Quando você nega uma verdade, como quando diz “não dá muito dinheiro isso que escolhi fazer”, mesmo você vendo outras pessoas fazerem muito dinheiro com o mesmo trabalho que você
  • DESLOCAMENTO: Descontar sua raiva ou frustração em algo ou alguém menos ameaçador do que o que despertou essa emoção
  • RACIONALIZAÇÃO: Quando você cria justificativas possíveis para algo, mas são justificativas falsas, como quando você explica pra si mesma que “vai comer uns doces porque é a única coisa que te livra da dor de cabeça”, quando, na verdade, você quer comer doces pelo simples prazer que isso te dá, mas que você não se permite sem uma desculpa
  • FORMAÇÃO REATIVA: Quando você se comporta de maneira oposta ao que você está sentindo, como quando você diz que está tudo bem e segura o choro, só pra não se expor para alguém, quando, na verdade, está sentindo tristeza e com vontade de chorar
  • REGRESSÃO: É quando você se comporta igual a uma criança pequena, como quando sai batendo portas, destrói coisas, se joga no chão fazendo birra
  • REPRESSÃO: Quando você reprime seus sentimentos desconfortáveis e os lança para o seu inconsciente. Ocorreu ou ocorre algo com o qual você precisa lidar, mas você não quer e se força a esquecer. Neste caso, pode haver somatização e doença.
  • PROJEÇÃO: Quando você projeta os seus sentimentos no outro, como quando você diz para o outro que ele está sentindo ciúmes de você quando, na verdade, é você que está sentindo ciúmes dele

Nenhum desses mecanismos de defesa te ajudam a solucionar um problema, porque são mecanismos de mentir ou omitir a realidade dos fatos ou dos sentimentos e, longe da verdade, não há consciência nem força para lidar com o que há.

Porém, há um mecanismo de defesa que Freud considerou saudável, que é a SUBLIMAÇÃO. Neste caso, você converte comportamentos inaceitáveis em aceitáveis para a sociedade. Por exemplo, você está muito frustrada na sua relação afetiva e, em vez de deslocar essa frustração para o seu filho, você vai correr, sai à noite para ouvir uma boa música ou para dançar.

Observe-se diariamente, ao final dos seus dias, de quais mecanismos de defesa você fez uso e torne-se uma pessoa mais livre, corajosa e abundante.

Por que relacionamentos desajustados ocorrem ?

* todos temos feridas emocionais que são despertadas na nossa primeira infância, no relacionamento com nossos pais e cuidadores
* essas feridas não curadas são cutucadas nas nossas relações afetivas posteriores, o que nos faz sofrer e reagir sempre com defesa ou ataque ao outro que nos faz sentir a ferida que já temos
* essa reatividade, não cura nossas feridas, pelo contrário, causa a repetição de padrões para estarmos sempre sentindo nossas feridas para que possamos curá-las
* mas, uma vez que tomamos consciência da existência delas, as observamos com atenção, descobrimos o que as mantém, e descobrimos, também, o que as cura
* desse modo, podemos escolher com mais consciência as pessoas com quem vamos conviver, nossas relações e experiências
* não precisamos ficar refém dos padrões de autocura e autoregulação, podemos tomar as rédeas da nossa vida e atuarmos com mais autoamor, para que o outro não precise tocar nas nossas feridas para que a gente as encare, através da dor
O processo de cura sempre se dá de dentro pra fora, através do amor que despertamos em nós, por isso a dor, causada pelo outro, serve apenas para cutucar nossas feridas e gerar em nós o amor que transborda de dentro para nos curar.
Entendendo esse mecanismo, vemos que uma relação saudável pode ser ainda mais curativa do uma relação que faz doer constantemente, porque numa relação saudável, estamos mais confiantes e menos reativos, sabendo que o que vem do outro não tem a intenção de nos machucar.

Ou seja: para melhorar a qualidade das nossas relações, nós precisamos descobrir nossos padrões de medo e desconfiança, desconstruí-los e nos comprometermos a nos aceitarmos e nos amarmos como somos para que sejamos, igualmente, aceitos, valorizados e amados!

O que cozinha lentamente mata igual. A diferença é que você não percebe que está morrendo…

Imagine uma panela cheia de água fria, na qual nada, tranquilamente, uma pequena rã. Um pequeno fogo é aceso embaixo da panela, e a água se esquenta muito lentamente. Se a água se esquenta muito lentamente, a rã não se apercebe de nada! Pouco a pouco a água fica morna e a rã, achando isso bastante agradável, continua a nadar… e a temperatura da água continua subindo…Com o inevitável avanço dos minutos a água se torna mais quente do que a rã poderia apreciar, então ela se sente um pouco cansada, mas, não obstante isso, não se amedronta e continua seu “banho” fatal. Mais alguns minutos e a água está realmente quente. A rã começa a achar desagradável, mas está muito debilitada então suporta e não faz nada. Com o passar do tempo e a subida constante da temperatura a rã acaba simplesmente cozida e morta!

Devemos observar que se a mesma rã tivesse sido lançada diretamente na água a 50 graus com um golpe de pernas ela teria pulado imediatamente para fora da panela. Isto mostra que, quando uma mudança acontece de um modo suficientemente lento escapa à consciência e não desperta, na maior parte dos casos, reação alguma, oposição alguma, ou mesmo, alguma revolta.

Então, antes de ser cozida sem se aperceber disso, faça uma revisão dos seus aprendizados e da sua mentalidade, para nunca mais entrar na panela das relações insalubres e viver relações de liberdade e amor de verdade.

Não se deixe cozinhar…

O ambiente mental que você cria e habita é que atrai para coexistir com você as pessoas e situações que vibram na mesma sintonia.