O medo aparece quando?
Quando nos sentimos inseguros.
Quando nos sentimos inseguros?
Quando saímos de uma zona de conforto.
Quando saímos de uma zona de conforto?
Quando apesar de confortáveis não nos sentimos bem (ou somos empurrados para isso).
Quando não nos sentimos bem?
Quando o nosso meio exterior não condiz com o nosso meio interior.
Quando somos empurrados pra isso?
Quando perdemos algo que nos mantinha seguros.
Qual a solução?
MUDAR
O que mudar gera?
MEDO Recebendo luz na fase de encontro com o medo. 34º dia de puerpério.
Então o medo é um ótimo sinal, sinal de que você sai da zona de segurança e se coloca em contato com o desconhecido:
Isso é movimento, movimento é vida. Estagnação é morte.
Ter medo do medo é desistir antes de tentar, é não viver.
O que você tem a perder?
O velho, o ruim. O que não te serve mais você já tem!
Se o novo te dá medo é porque te reanima, te move as fibras, te faz viver.
Então sentir medo é viver e não sentir medo é estar morto.
Se não for, não foi, mas você descobriu algo a mais, se
descobriu mais e eliminou uma opção.
Tentar algo novo, por mais errado que dê, sempre dá certo, para
se autoconhecer e conhecer muito mais o que vibra com você.
Sinta medo, largue o velho, busque o novo, ganhe a si, seja feliz.
Por conta de tantas indagações e pedidos de conversa é que decidi explanar um pouco mais sobre minha condição e sobre as minhas conclusões e escolhas de mãe solo de três, que vive longe da família de origem.
Quase todas às vezes que saio com meus três filhos, ouço frases do tipo:
“Os três são seus? Como você consegue?”
“Eu não conseguiria, já sofro com um!”
“Meus Deus, que escadinha!”
“Ah, mas é bom porque cresce tudo junto né?”
“Agora parou né? Não vai querer mais, ou vai?”
Imaginem se soubessem que moro sozinha com os três, há mais de três horas de distância da família. Quando sabem, vem mais uma enxurrada de comentários:
“Mas você não tem medo?”
“Mas, e se acontece alguma coisa?”
“Tem hospital bom onde você mora?”
“Você não tem empregada todo dia!”
“Como você é corajosa!”
Na maioria das vezes eu tenho a boa vontade de compartilhar um pouco da minha realidade, afinal, não é uma curiosidade ruim, as pessoas querem aprender algo com a gente, querem entender como é possível vivermos felizes com certas dificuldades. Mas às vezes cansa, confesso, porque isso acontece em quase toda saída… coisas de Brasil. E, quando eu respondo breve (geralmente quando as questões não são feitas de forma amorosa), dificilmente contenta, mas daí quem tem que se contentar sou eu, né? 😉
O que eu gostaria de deixar claro é que o trabalho de uma mãe, principalmente a de crianças pequenas, como eu, é o maior trabalho do mundo (os motivos eu deixo pro vídeo abaixo), então, mais do que questionar, aproveite a oportunidade para auxiliar, para por em prática sua gentileza, seja puxando um carrinho no mercado enquanto a mãe segura o filho no colo (e mais dois no braço, no meu caso), seja dando o lugar na fila, porque embora seja lei, não é unanimidade (principalmente quando “falta” a fila preferencial ou quando não há fila, mas tumulto). Tenho a sensação de que algumas pessoas, ao ficarem questionando ou julgando as mães por aí afora, propositalmente (algumas inconscientemente), perdem a deixa para ajudar, ou arranjam motivos para não fazê-lo (“quem mandou ter três”, “quem mandou separar”, “por que não deixou na creche?”, “aqui não é lugar de criança”, etc). Ficar questionando demais ou fingir-se de morto, claro, cansa bem menos do que dar uma mãozinha, levando o carrinho do mercado de volta, por exemplo, e não toma nosso tempo tão curto com problemas que não são nossos, não é mesmo?
Sobre ter três filhos e de idades próximas, eu acho um fato inquestionável, mas muita gente questiona ou me considera “insustentável”, (mesmo eu tendo com eles uma vida que vai ter que compensar a metade do carbono da vida de muito adulto ou criança de classe média/alta de cidade grande), mas eu não ligo. Desde criança me imaginava uma mãezona de três amamentadora, com leite pra dar e vender e com uma família agitada e feliz. Se vou ter mais? Não penso nisso, mas sempre me aqueceu o coração a ideia de adoção… quem sabe.
Sobre morar longe da família, que está em São Paulo, eu acredito que a qualidade de vida de quem mora no litoral norte do estado, não tem preço (concordo com Caymmi quando cantava que “quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar”). Outro ponto, que quem já morou em São Paulo sabe, é que se você não mora perto da família, bem perto aliás, tipo, no bairro, é como se vocês morasses em cidades distintas, porque atravessar a cidade leva tanto tempo e estresse no trânsito, que pra ver parentes ou amigos que moram em outra zona da cidade, você tem que fazer uma baita programação com antecedência, isso, quando não falhamos, porque vida muito urbana nos consome.
Então, prefiro viajar pra Sampa uma vez ao mês com os três que tá ótimo. Visitamos todo mundo e eu tenho uma folguinha pra mim, porque sobra atenção pra eles.
Meu trio na casa da vovó. Julho/2015.
Algumas vezes eu cheguei a pensar que poderia ser mais fácil se eu voltasse a morar perto da minha mãe, mas, pra isso, eu teria que pagar o preço de viver alarmada com medo da violência nos semáforos, teríamos que morar em apartamento e abdicar do espaço, teríamos que nos confinar às áreas comuns do condomínio e viver muito tempo dentro de um carro, pra ir de um lugar a outro, não teria liberdade em qualquer rua com as crianças e teria que morar, literalmente, do lado, pra ter essa “mão” no dia-a-dia (o que eu não acho legal pelo que enumerei até aqui ) ou nos veríamos apenas nos finais-de-semana, sendo assim, pra quê morar em São Paulo? Isso sem falar na diferença do ar, do ollhar, do mar…
Sobre a questão da segurança e da saúde eu garanto que quem mora na praia sofre muito menos com isso. Moro em um pequeno condomínio fechado, não por segurança, mas porque tem uma grande área gramada, lugar de sobra para a minha horta/pomar/plantas em vaso e para as crianças brincarem, é claro. Sobre assistência médica, não temos hospital bom na cidade, mas… não temos a violência das grandes cidades nem temos a parca qualidade de vida que adoenta muito mais, então…
Estelinha. Fim de tarde na Praia de São Francisco, São Sebastião. Outubro/2015.
Quanto a morar em cidade pequena, sempre me falam “ah, mas não tem TUDO na sua cidade! Você não sente falta de NADA?”. Primeiro que “tudo” e “nada”, neste caso, são conceitos bem relativos. O que é tudo pra mim, como ter o mar ali ao lado, pode ser nada pra você que prefere ter uma farmácia na esquina de casa, o que é nada pra mim. Mas, nessa situação, eu prefiro responder expondo a realidade: que mal vou ao centro de São Sebastião, porque do lado de casa tem mercado, padaria e praia. Falta alguma coisa? Nem de farmácia eu preciso, porque não consumimos fraldas descartáveis e lencinhos, esse tipo de coisa que faz a gente ter que sair de pijamas pra comprar quando acaba. Fora que a cidade é pequena, então o centro tá logo ali, há 2 km. Quando procuro algo diferente, muito peculiar, eu providencio quando viajo. Mais uma desculpa pra viajar sempre. 🙂 Mas, no nosso dia-a-dia, falta nada. Hoje em dia tem de tudo em cidades pequenas e os pequenos produtores e comerciantes locais divulgam pela web seus produtos: essa vitrine virtual focada em nichos, equilibra bem a demanda e a oferta frente aos desejos dos consumidores locais.
Sobre a questão do “meu Deus, você sozinha com três crianças pequenas! E se acontece alguma coisa?” Ora, se acontecer alguma coisa eu grito, temos telefone, ligamos pra polícia, Samu e a turma toda da emergência. Fora que os vizinhos de cidades pequenas são muito mais próximos, muito mais disponíveis pra qualquer auxílio. O que eu não posso, na minha concepção, é viver sem qualidade de vida por ter medo de que algo extraordinário aconteça. Abandonei, gradativamente, nos últimos anos, essa necessidade urbana de buscar segurança material em excesso, principalmente por ser uma necessidade urbana, portanto, que não se aplica tanto mais a minha realidade caiçara.
Outro ponto que eu venho concebendo sobre esse excesso de proteção é que isso, na verdade, é uma ilusão. Ninguém está a salvo e quanto mais a gente se protege da morte, menos a gente vive. Em cidades grandes, grande parte do dinheiro vai para a proteção (dos bens e da vida): estacionamento, condomínio, seguros diversos, locais seguros, segurança de rua etc. Daí as pessoas trabalham muito pra pagar o aparato todo, isso quando não empata ou falta, e aí? Você usou uma boa parte do seu precioso tempo de vida trabalhando para conseguir capital para investir na proteção de si mesmo e dos seus pertences e nada mais, na verdade você não protegeu sua vida, você acabou com ela se protegendo a morte, que já é uma realidade pra você. Porque quanto mais coisas você tem, mais tempo você tem que perder para assegurar que elas continuem sendo suas. A vida é agora, sempre. Viver é Ser, não ter.
Outra coisa que eu aprendi com a minha situação de mãe solo de três é a parar de me vitimizar. Se é difícil pra mim, é mais difícil pra um monte de gente em outras diversas situações mundo afora, com certeza. Sou grata a tudo o que somos e temos e eu estou vivendo exatamente o que eu escolhi pra mim, assim como todo mundo… questão de fé. Outra coisa, nada é para sempre e, se nos animamos, tudo tende a melhorar mais rápido. Quando a gente para de se vitimizar, a vida fica inigualavelmente mais leve e alegre e bons ventos sopram muito mais.
Quantas vezes eu não pensei “Meu Deus! Nunca me imaginei nessa situação! Não é justo! Não mereço isso!” e muito mais pensamentos na mesma vibração, mas sabe o que esses pensamentos faziam? Me feriam, cada vez mais, e passei a perceber que o problema não estava na realidade em si, mas no que eu pensava sobre ela. Pensamentos plasmam. Não-mente me salvou. Orai e vigiai. A minha realidade é que tenho filhos iluminados e amorosos, meus grandes professores, e, sem incorrer no erros da infantolatria e do autoritarismo, crescemos juntos e somos cada vez mais amor.
Tem uma antiga história Sufi, contada por Osho em seu livro Coragem: o prazer de viver perigosamente, que ilustra bem essa questão escolha/vitimização:
“Um homem estava muito oprimido pelo seu sofrimento. Ele costumava orar diariamente a Deus, “Porque eu? Todos parecem ser tão felizes, porque só eu estou sofrendo tanto?” Um dia, em grande desespero, ele orou a Deus, “Você pode me dar o sofrimento de qualquer um outro e estou pronto para aceitar isso. Mas leve o meu, não posso mais suportá-lo”.
Aquela noite ele teve um belo sonho, belo e muito revelador. Ele sonhou naquela noite que Deus aparecia no céu e dizia para todos, “Tragam todos os seus sofrimentos para o templo”. Todos estavam cansados de sofrer – na verdade todos tinham orado alguma vez ou outra, “Estou pronto para aceitar o sofrimento de qualquer um outro, porém leve o meu sofrimento, é demais, é insuportável”.
Assim todo mundo colocou seu próprio sofrimento em sacolas e levaram para o templo e todos pareciam muito felizes; o dia havia chegado, suas preces foram ouvidas. E esse homem também correu para o templo.
E então Deus falou, “Coloquem suas sacolas na parede”. Todos as sacolas foram colocadas na parede e então Deus declarou: “Agora vocês podem escolher. Podem pegar qualquer sacola”.
E a coisa mais surpreendente foi: que esse homem que tinha estado sempre orando, correu em direção a sua sacola antes que alguém mais pudesse escolhê-la! Ele contudo, ficou surpreso porque todo mundo correu para sua própria sacola e todos estavam contentes com a escolha. O que aconteceu? Pela primeira vez, todos viram a miséria dos outros, o sofrimento dos outros – as sacolas deles eram tão grandes, ou até mesmo maiores!
E o segundo problema era, as pessoas tinham se acostumado com os seus próprios sofrimentos. E agora escolher o sofrimento de outra pessoa – quem sabe que tipo de sofrimento estará dentro da sacola? Pra que se incomodar? Pelo menos você está familiarizado com o seu próprio sofrimento e você já está acostumado com ele, e ele é suportável. Por tantos anos você o tolerou – porque escolher o desconhecido?
E todos foram para casa felizes. Nada havia mudado, eles estavam trazendo o mesmo sofrimento de volta, mas todos estavam felizes e sorridentes e alegres porque conseguiram suas próprias sacolas de volta.
Pela manhã ele orou para Deus e disse, “Grato pelo sonho; nunca mais pedirei novamente. Tudo que você me tem dado é bom para mim, tem que ser bom para mim; eis porque você me deu isso”.”
Nossa praia. Pontal da Cruz, São Sebastião. Junho/2015.
Uma amiga da Roda de Mães de São Sebastião um dia comentou comigo “ás vezes dá uma preguiça de vir pra roda, daí eu lembro de você e penso, ‘não, que isso, se a Mari vai com três porque eu não vou com a minha única?!'”. De outra irmãe eu ouvi também: “às vezes eu acho que não consigo mas daí eu penso ‘a Mari com três consegue! tenho que conseguir!'”.
É bom quando as pessoas se inspiram em nós, eu, também, me inspiro muito nos exemplos próximos. Sempre tem alguém com um fardo “maior” ou podemos pensar que cada um de nós carrega o que pode e decide carregar.Quando fica pesado eu peço ajuda, temos que pedir, de nada vale nos sacrificarmos e perdermos o brilho no olhar, a presença no presente.
Laura Gutman, em seu livro La Biografía Humana: una nueva metodología al servicio de la indagacion personal, me trouxe uma luz muito fortalecedora nesse processo de aceitação da maternidade solo, quando diz que:
não importa se nossa mãe (ou cuidadores) ‘fez tudo certinho’. Não importa se foi uma mãe fenomenal, calma, paciente, sacrificada ou justiceira. O que os filhos necessitam para criar seres alinhados com seu ser essencial e em profunda conexão consigo mesmos, é que seus cuidadores compreendam a si mesmos. Se não tivermos cuidadores adultos e maduros, conscientes de seus próprios estados emocionais e sua história, essa sabedoria não será derramada sobre as crianças. Por isso, é pouco provável que as crianças quando cresçam olhem para suas vidas em estado de total consciência.
Encontro da Roda de Mães de São Sebastião. Junho/2015.
Falando nas amigas-mães, lembro de outro ponto importante na jornada solo das mães: a força dos grupos. Virtuais ajudam, presenciais salvam. A Roda que criamos na minha cidade atual me salvou muitas vezes no puerpério sombrio, lembrando que o fundo do poço é um perigo, mas também, (e, como diz minha mentora Paula Abreu) é libertador. Por isso que, tudo bem a gente ir até o fundo do poço, que é uma viagem quase que inevitável para grande parte das puérperas, mas tente não ficar sozinha por lá, pelo menos, não por muito tempo. Encontre outras mães, principalmente que também estão na fase sombria e as ajude, sim, ajude, porque até quando estamos lá no fundo, podemos ajudar, e, verificar essa nossa capacidade de ajudar alguém quando estamos na pior é que nos tira da pior, é o que faz começar a subir a cordinha que irá nos tirar do fundo do poço e nos levará para a situação de clareza.
E sempre siga o conselho de Frida: “onde não puderes amar, não te demores.”
Gratidão por ler! Com estimas de uma vida cada vez mais genuína pra você! Namastê!
Mesmo que você não se considere uma pessoa invejosa, em algum momento da sua vida você já deve ter sentido inveja de alguém, não é verdade? Bom, mas pode ser que não, pode ser que você faça parte da minoria que já desapegou desse sentimento e esse artigo não é pra você.
Por outro lado, se você já caiu em tentação, e já se pegou desgostoso pelo bem alheio (“por que não eu?!”) não se aflija, agradeça. Sim, porque embora seja considerada vil e vergonhosa e, por isso mesmo, difícil de confessar, a invídia tem seu lado bom. Como diria A cor do som:
“Não se negue Escorregue nesse Regue Não se arregue Escorregue Segue e persegue esse caminho no suingue menina.”
Assumir para libertar-se
Longe de dizer que inveja é algo bom, sentir inveja tem seu lado bom e assumir isso faz bem, pois como dizia Paulo de Tarso, o amor não inveja e se alegra com a verdade.
Talvez a inveja tenha essa fama abominável, porque o hábito de negá-la impossibilita observá-la mais de perto e verificar que ela tem algo valioso para a nossa felicidade.
Yin e Yang
Yin e Yang são dois conceitos básicos do taoismo que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. Descrevem as duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas: o yin é o princípio feminino, a água, a passividade, escuridão e absorção. O yang é o princípio masculino, o fogo, a luz e atividade.
Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência. Esse complemento existe dentro de si. Assim, se deduz que nada existe no estado puro: nem na atividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim em transformação contínua. Além disso, qualquer ideia pode ser vista como seu oposto quando visualizada a partir de outro ponto de vista. Neste sentido, a categorização seria apenas por conveniência.
Todavia, é de se entender essa negação tradicional da inveja.
O que não falta no mundo é gente pra dizer pra gente pra parar de sentir o que a gente sente (assim com aliteração mesmo e como se isso fosse possível), ainda mais quando o que sentimos é tachado de ruim, porque, também, não falta gente pra tachar as coisas de boas ou ruins e perpetuar o falso maniqueísmo.
E aí, o que a gente faz? Finge que não tem inveja e deixa ela ali de escanteio, sem olhar pra ela. Porque né, basta a gente olhar pra alguma coisa pra todo mundo perceber que essa coisa existe, e, se essa coisa feia é nossa então, daí é que a gente finge que não tem mesmo.
Negar a inveja é um erro, aliás, negar qualquer coisa é um erro e com a inveja não seria diferente. Coisas ruins, por mais vexatórias que sejam, não devem ser negadas, mas observadas, para aprendermos com a dor ou desconforto que elas causam e para que nos libertemos delas.
A negação não nos liberta do mal, pelo contrário, nos transforma em prisioneiros inconscientes do que estamos negando. Jáa verdade, liberta.
Quando negamos a inveja, em vez de seguirmos nosso caminho animados (isso quando não empacamos), seguimos com desgosto, achando que o outro é privilegiado na Existência, e que a gente não tá ganhando o que merece; e vivemos com esse incômodo chato que nem zumbido de pernilongo na madrugada, que vai continuar conosco até a gente aceitá-lo, encará-lo e entendê-lo, porque tudo nessa vida tem um propósito, e, enquanto a gente não descobre o propósito das coisas, elas perduram.
Então não negue, porque a inveja só é boa dentro do prazo de validade.
Um dos nossos grandes erros ao sentir algo ruim é mentir pra si mesmo de que se trata de um sentimento bom. Outro é negar que se sente a coisa ruim. Mas o pior deles é acreditar que o lado ruim, é totalmente ruim.
É perda de tempo negar a existência do mal. Tudo é Yin e Yang. Mas, mais perda de vida ainda é deixar que ele permaneça além do tempo, porque, como dizia o rei Roberto: “se o bem e o mal existem, você pode escolher.”
A inveja como farol
Farol de Portland, Cabo Elizabeth, Maine, EUA.
A inveja é como um farol que nos mostra o caminho para navegarmos em direção ao nosso eu mais profundo, que está em terras firmes, sempre iluminado, esperando por nós.
sf (lat invidia) 1 Desgosto, ódio ou pesar por prosperidade ou alegria de outrem. 2 Desejo de possuir ou gozar algum bem que outrem possui ou desfruta.3 O objeto que provoca esse desejo. Var: invídia.
Sentir inveja é uma coisa boa, pois, como tudo o que sentimos, é um sinal para encontrarmos mais uma faceta da nossa alma e nos tornarmos cada vez mais conscientes.
Invejamos alguém que tenha algo que desejamos ou que seja algo que gostaríamos de ser, certo? Então, é do sintoma inveja, que enxergamos a carência que está nos provocando a atitude de nos compararmos a alguém e desejarmos o que esse alguém tem, com desgosto e vitimização.
A inveja sempre tem a ver com você e não com a pessoa invejada. Na maioria das vezes, nem conhecemos tão bem assim a pessoa que invejamos para saber se ela está mesmo tão melhor do que a gente como ela aparenta estar. Pois, como disse um dia Miguel de Cervantes “a inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas”.
“Uma flor não pensa em competir com a outra, ela simplesmente desabrocha.” Variações de Vitórias-Régias.
A inveja nos mostra onde, dentro do nosso ser, não nos sentimos amados, onde não nos sentimos suficientemente bons. (Paula Abreu)
Se concebermos a inveja como uma oportunidade de auto-conhecimento, se conseguirmos encará-la como algo que só tem a ver conosco e ir além do amargor que ela causa, sentiremos gratidão ao notá-la, gratidão a esse farol que nos indica o caminho do nosso Ser.
Para o incômodo causado pela inveja passar, melhor que negá-la é atuar como um estudioso de si mesmo e observá-la. A partir do momento em que você se coloca como observador de si mesmo, observador do seus próprios sentimentos, o que você sente se distancia de você, porque no momento em que você passa a observar, você já não está mais sentindo inveja mas outra coisa, porque você já não se identifica mais com seu ego afetado pelo brilho do outro mas com seu Eu maior, que é capaz de se olhar e se assumir como autor da sua própria história. Em vez de se vitimizar, você se empodera, a paz se restabelece e você identifica suas insatisfações. (Gratidão mestre Osho!)
“Inveja é a falta de fé em si.” (Ditado árabe)
Farol de Formentor, Mallorca, Espanha. Foto: Stefan Brenner
A inveja é também um farol que nos mostra um novo destino, um novo porto a abarcar, um novo lugar para conhecer até que o barco da vida queira voltar a navegar.
Ela é um sinal da nossa capacidade de ver além da nossa realidade, de identificar no outro o melhor que queremos para nós. Não quero dizer que temos que sentir inveja para transcender nossa percepção e buscar uma realidade melhor, mas a inveja é, também, um caminho para vermos além, isso, claro, se percebermos ela em nós e perscrutarmos a nós mesmos.
Se não conseguimos invejar ou admirar alguém da onde estamos, isso significa que temos que buscar outros ambientes, onde possamos vislumbrar novos horizontes, novos guias, para que nossa evolução espiritual possa deslanchar.
Por outro lado, se deixarmos que a inveja nos envolva, como dizia Sêneca, avistaremos apenas o que está próximo de nós, e admiraremos com menos astúcia o que está distante. Ou seja, ao invés de ser um farol a iluminar novos caminhos para dentro do nosso ser e universo afora, ela entravará nosso olhar e irá nos encerrar num mundo muito limitado, sufocante.
Por isso, sentir inveja por muito tempo e o tempo todo não é uma coisa boa, como afirmam os textos islâmicos, “assim como o fogo queima a lenha, a inveja consome as boas ações.” A inveja pura paralisa, a inveja analisada, liberta.
Captou a inveja? Não deixe ela se enraizar. Tire ela de você e olhe para ela.
Olhe para você. O que você está invejando em alguém? Em que área da sua vida você inveja alguém? É exatamente aí que você se encontra mal resolvido consigo mesmo. É exatamente aí que reside uma crença de que você não é o bastante.
Por exemplo, se você inveja outra mulher mais bem-sucedida que você, que faz o que ama, por exemplo, e consegue viver bem financeiramente fazendo o que ama. Dentro de você reside uma crença de que você não consegue fazer o que ama e ser bem remunerado por isso, e mais, que você precisa disso, trabalhar no que ama e ganhar bem, para se sentir feliz e amado. Mas, vou te contar uma coisa: você já é o bastante sendo quem você é, exatamente neste instante.
Ao invés de fugir desse sentimento e dessas pessoas que você inveja, encare o que você sente com sobriedade e busque estar com essas pessoas que você inveja, porque elas podem iluminar seu caminho apenas sendo elas mesmas e, somente por isso, inspirando você a ser você mesmo e a se descobrir e se realizar.
Não é o outro, é você!
A inveja é um sentimento que você sente, VOCÊ, e, como tudo na vida, só o que você sente importa para você.
E, se você sente isso, aproveite para aprender com isso.
“Hoje Eu vi nos olhos das pessoas, O seu segredo de inveja, De querer ser o que não é. Suas vidas são tristes, é certo. Seus semblantes pesam demasiadamente, E porque em si não encontram a si mesmas, É lá no Outro que procuraram existir.” (Henrique de Shivas)
Aliás, só conseguimos ver os outros a partir de nós mesmos. Parece loucura, mas, na verdade, é mágico. Saiba que tudo o que você enxerga no outro que te faz invejá-lo é algo que existe em você. Mas daí você vai me dizer, “Não! Claro que não! É o oposto. Eu invejo porque não tenho e gostaria de ter.” E eu vou te dizer que você só pode ver a partir de você, do que você é capaz de ver, e se você é capaz de ver é porque você já conhece e aquilo tudo que você inveja no outro, você já possui, só ainda não MANIFESTOU.
Um dia minha terapeuta e amiga querida postou no perfil do Facebook dela uma frase que me marcou de Alejandro Jodorowsky, que me fez buscar o poema completo:
“No me conoces, me imaginas.
Solo ves en mi lo que eres tú.
Cuando dices que me amas,
amas esa parte de ti que amas.
Cuando dices que me odias
estas odiando eso de ti que no te gusta…
no me conoces, me imaginas.
No es de extrañar,
es lo único que puedes hacer.
Si me imaginas soy tú,
soy un invento,
y solamente verás en mi aquello
que reconozcas en ti.
Si te gusta lo que ves en mi,
¡No lo cambies!
Pero si no te gusta… ¡Cámbialo en ti!
Te amo, porque me amo.”
Aceite-se, perdoe-se, ame-se. Você tem luz própria!