Vivendo como nossos filhos

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Se você não vive do mesmo modo que seus filhos, há algo errado com você, e não apenas errado, mas muito errado com você.

Estou afirmando isso porque desde que comecei a escrever este artigo, há alguns dias, despertei para essa verdade.

Se você não tem filhos, ok, basta olhar de perto qualquer criança ao seu alcance, ou se lembrar de quando você era pequenino(a) e se perguntar se você tem vivido a vida como uma criança.

O incômodo

Vivia incomodada sem entender o porquê (e me culpando por esse sentimento), com eles tão enérgicos, tão despertos, tão alegres,  inquietos, criativos, curiosos, sonhadores, e, acho que a maioria de nós, adultos, sentimos o mesmo: um incômodo inexplicável pelo “excesso” de energia/alegria das crianças.

O que estou mencionando não tem nada a ver com o que sentimos quando ficamos p. da vida quando eles aprontam alguma “arte”, não é aquele enfurecimento momentâneo com causa bem definida.

Não é algo insuportável, mas constante, que nos dá a sensação de que há algo errado, sabe? Porque não deveríamos estar incomodados com uma criança! Ainda mais quando se trata dos nossos filhos. Bate a culpa, ainda mais quando, por um motivo ou por outro, esse incômodo cresce e nos tornamos intolerantes, e não somos os melhores pais/mães que podemos ser.

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O que percebi (e que ao perceber já diminuiu muito meu incômodo) é que o que nos perturba é ter que lidar com tudo isso que eles têm e que nós perdemos, é vê-los alegres sem motivo especial, quando nós não conseguimos mais rir tão facilmente, é vê-los capazes de dormir profundamente, quando não conseguimos mais descansar em paz, é notar a confiança na vida que todas as crianças naturalmente têm e que nós não temos mais, é constatar a nossa incapacidade de deixar fluir, a nossa incapacidade de sermos felizes e, por consequência, de sermos os melhores pais e mães que podemos ser.

Então, percebemos que o incômodo não é com eles em si, mas conosco mesmos, com o que sentimos na presença deles: uma vontade intensa de viver a vida plenamente e, ao mesmo tempo, a crença na impossibilidade de isso acontecer.

Estamos com eles mas não conseguimos compartilhar plenamente com eles, porque: temos pressa demais, preocupações demais ou algo mais urgente a fazer. Não conseguimos imergir em suas solicitações, seja sentar para ler um livro com calma,  entrar na cabaninha deles ou jogar um pouco de bola.

Ver o encantamento da vida através dos nossos filhos sem conseguir, igualmente, vivê-la com encantamento é deveras frustrante, e, ao longo do tempo, vai se tornando insuportável.

O que fazer?

O tal incômodo piora muito quando acessamos nossa memória e descobrimos que vivíamos como eles na infância. Dá uma sensação de perda inexplicável, sentimos que perdemos o essencial da vida: a alegria de viver. Não conseguimos compreender como fomos capazes de sermos assim tão felizes e estarmos agora paralisados, totalmente incapacitados de nos deixarmos livres como éramos quando criança.

Quando o incômodo cresce a ponto de se tornar insuportável, podemos fazer duas escolhas: ou mudamos essa situação para vivermos melhor, como eles vivem, ou fugimos de um relacionamento mais profundo com eles, como muitos pais fazem, afastando-se de diversas formas de um conviver mais íntimo com os filhos. Um bom exemplo disso são os pais que substituem presença por presentes ou atenção por televisão e outras telas.IMG-20140831-WA0011

Se optamos por nos afastarmos deles, o que estamos decidindo é, além de abandonarmos nossos filhos emocionalmente, fugirmos de nós mesmos, da criança que fomos e que abandonamos em algum lugar do passado, aquele “eu” que sabia ser feliz.

Mas, por outro lado, se queremos mudar essa situação de inaptidão à vida que está abafada dentro de nós, se queremos ser  pais/mães melhores, mais felizes, urge questionar:

Aonde perdemos o fio que nos conecta à Existência, que nos permite viver intensamente o presente, não nos preocupando com o futuro e nem sentindo tanta falta assim do passado?

Quando foi que paramos de confiar na vida a ponto de não conseguirmos mais vivê-la plenamente, no momento presente?

O que é isso invisível que nos prende na infelicidade?

O que nos contaminou tanto que nos fez perder a confiança na Providência?

Desde quando perdemos a gratidão pelo presente?

Desde quando paramos de sermos alertas?

Desde quando paramos de celebrar a vida?

Por que isso aconteceu?

A verdade é que perdemos a confiança na vida quando perdemos a liberdade de sermos nós mesmos, quando assimilamos crenças que não vêm de nosso entendimento interior mas de um discurso externo a nós e, por isso, começamos a buscar e fazer coisas que não nos fazem felizes.

Vamos perdendo nossa fé na vida a medida em que somos impedidos de vivê-la como queremos interiormente e passamos a vivê-la como nos dizem – a sociedade, nossos pais, professores, etc – que temos que vivê-la, ou seja, quando passamos a viver sob uma série de condicionamentos. E isso se dá desde o nosso nascimento. Sempre estão nos dizendo, de uma forma ou de outra, o que devemos ou não fazer, o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim, e acreditamos nisso, sem saber, contudo, que o que aprendemos, nem sempre é verdadeiro para a gente, que todos esses conceitos pertencem ao passado e advém de fora de nós, da vivência das gerações anteriores.

E quando a vida passa a ser feita de coisas que não gostamos, passamos a desconfiar se ela é mesmo tão boa assim, sem entender que ela é do jeito que é, apenas, porque escolhemos vivê-la dessa maneira, mesmo que de forma inconsciente.

Confiança X Controle

A partir desse processo de formatação do nosso eu,  paramos de confiar na sabedoria do Universo e passamos a querer controlar a vida. Claro! Como podemos confiar em algo que é ruim para nós? Que está sempre abafando o que sentimos? Temos que tomar as rédeas dessa coisa!

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(Só que o problema não está na vida em si, mas na vida que vivemos segundo nossas escolhas inconscientes. Essa vida sim é de lascar! Está sempre nos surpreendendo com coisas que não gostamos.)

É aí, então, que começa nossa angústia e nossa infelicidade.

Perdendo nossa fé na vida, não vivemos mais pró-ativamente, mas reativamente, funcionando dentro de bases pre-estabelecidas em vez de criarmos nossa própria realidade. Isso se dá pelo surgimento do medo de viver, já que a vida se torna uma ameaça constante e não uma oportunidade constante.

Do medo surge a insegurança e com ela aparece a necessidade de proteção. E como poderemos nos proteger dessas fatalidades imprevistas? Através do controle, certo? Errado. Pois se trata de uma luta perdida, já que é impossível controlar o Todo. Podemos controlar apenas a nós mesmos e a quem se submete a nós, no caso, nossos filhos, mas esse não é o caminho da felicidade. O caminho da felicidade de cada um é único e somente cada um pode criá-lo, e, para isso, é preciso confiar na vida.

Assim, vamos deixando de ser como nossos filhos, abandonamos nossa criança interior e passamos a fazer com eles tudo o que fizeram conosco. Repetindo o ciclo, acabamos por controlas as crianças – conectadas com a Existência, descontroladas por natureza, porque vivem no fluxo, parte da natureza – até que os leões virem cordeiros.

Assim, inaptos à felicidade, desconectados, antinaturais, a imagem da desesperança, da tristeza, cuidamos delas com:

– rostos que riem pouco,

– inabilidade em brincar,

– pressa constante que não permite criar,

– falta de ânimo que nos impede de mergulhar em seus mundos,

– falta de alegria que não nos dá olhos para lhes perscrutar os olhares, as expressões, as criações,

– nossas verdades destruidoras de todas as fantasias e possibilidades mais felizes,

– falta de tempo pro essencial.

Ensinamos elas a serem infelizes como nós aprendemos a ser.

“O que tem que ser, assim será”

Sabendo que o fato de sermos pais/mães que não vivem mais encantados com a vida derivam de uma escolha inconsciente nossa, agora, tendo consciência disso, podemos escolher outra realidade.

Ou seja: nós não temos que nos conformar em viver somente de corpo presente na vida de nossos filhos, quando nos momentos em que estamos juntos (e na maioria dos casos são poucos), nossa alma não está ali. Ou estamos imergidos nas preocupações do mundo material ou buscando um pouco de alheamento dessa vida infeliz, ou não tão feliz quanto poderia ser, através de aparatos tecnológicos.

Nós também não temos que nos conformar em viver somente de corpo presente na nossa própria vida, quando não temos nem tempo nem espaço para nossa alma estar ali, atuando no nosso corpo, vivendo no agora, já que não temos tempo a perder no essencial: meditar, dançar, ler, cuidar do corpo e do espírito.

Nem temos que dar aos nossos filhos muito pouco tempo presencial, justificando que temos que trabalhar para pagar as contas, a não ser que você acredite que estamos nesse mundo apenas para sobreviver. A meu ver, de nada vale a vida se não podemos vivenciá-la na companhia dos que mais amamos.

Na verdade, aliás, nós não temos que fazer trabalhos que não gostamos: além de lhes darmos o exemplo ruim, de que têm que fazer o que não gostam para garantir uma vida sem abundância alguma, o “estar insatisfeito(a)” tira o nosso eu do momento presente, já que é natural fugirmos do que causa desconforto. Dessa maneira, vivemos alheios, incapacitados de vivenciarmos o agora. Além disso, a insatisfação causada por um trabalho que não amamos, gera uma mente constantemente ativada, que, longe de perscrutar as reais causas do incômodo, vive em busca de uma solução, o que tira ainda mais nossa presença.

Alguma mãe/pai já deve ter ouvido a pergunta perturbadora de um filho do tipo “por que você trabalha tanto e não tem dinheiro para podermos viajar?” ou “por que você faz esse trabalho que não gosta se nunca temos tempo para fazer o que gostamos?” ou  “porque você vive com essa cara triste/brava?” ou “quando é que vamos poder ter um pouco de diversão juntos?”.IMG_20140913_193631

O duplo espelho

Os filhos são mesmo desconfortantes, porque são um espelho do que somos e não gostamos do que andamos vendo de nós mesmos. Assim, nos lembram em vários momentos de todos os dias o quanto estamos inaptos para sermos felizes, o quanto somos diferentes deles, dos quais fomos iguais um dia mas que passamos a ser opostos: infelizes, desconfiados, apressados, irritados.

O pior de tudo é quando você vai percebendo nos comportamentos aprendidos dos seus filhos, o reflexo do que você tem demonstrado a eles nesses poucos anos de convivência: irritadiços por pouco, impacientes (imediatistas), histéricos quando querem algo (assim como você, quando lhes exige excesso de obediência). Porque também somos um espelho para eles.

Disciplina X Formatação

Não estou falando aqui de não impor limites, de não discipliná-los no que for necessário para aprenderem a respeitar o próximo e o meio em que vivem, porque esse é nosso papel, o que estou querendo trazer à tona é a necessidade de sermos cada vez mais conscientes para não formatá-los como fizeram conosco.

Os pais/mães que queremos ser

Quando você percebe esse cenário espelho cruel para sua consciência, é urgente refletir:

O que você está ensinando para os seus filhos através do seu exemplo?

“Palavras comovem, exemplos arrastam”, e seus filhos não ligarão muito para o que você diz mas, inevitavelmente, imitarão você, e essa é uma verdade trágica para todos nós, com uma felicidade miserável perante a deles.

Se você, como a maioria dos pais/mães deseja mais do que tudo no mundo que seus filhos sejam felizes, você precisa, urgentemente, voltar a sê-lo, reaprender com eles como é que se faz para voltar a confiar no Universo e viver dia após dia com muita gratidão, com muita gentileza e sorrisos sinceros, com muita brincadeira e dança, com muito movimento corporal e brincadeiras criativas, com muitos passeios surpresas e novas possibilidades apresentadas.

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Daí você vai dar aquela velha desculpa (que você aprendeu a dar com seus pais ou que vive ouvindo do senso comum que quer apoio):

– mas o mundo real é cheio de responsabilidades

– mas eu tenho que trabalhar

– mas eu tenho contas a pagar

– mas eu estou sempre muito cansado

– mas eu não tenho tempo nem disposição para brincar

– mas eu preciso descansar

– mas eu não tenho tempo nem fé para sonhar

Daí eu te pergunto como estou perguntando a mim mesma:

Mas vale a pena viver assim?

Será que a vida tem mesmo que ser assim?

Será mesmo que temos que repetir os mesmos padrões? Que não podemos reinventar uma forma de viver mais prazerosa? Mais pura? Mais alegre? Mais doce?

Responsabilidade sem infelicidade

As gerações dos nossos avós não foram como as dos nossos pais.

A cada geração reinventamos novas formas de viver, de provermos nossas necessidades e nos relacionarmos com os nossos e com a nossa sociedade.

Se numa geração as famílias eram mais presentes para auxiliar uns aos outros na criação dos filhos, na outra o distanciamento dos familiares por motivos profissionais não possibilitou esse auxílio. Se numa geração éramos obrigados a trabalhar muitas horas por dia confinados em fábricas e escritórios, na outra há uma revolução em voga que permite o home office e novos formatos de trabalho que possibilitam a reaproximação com os filhos.

Que vida você quer para você e seus filhos?

Que tipo de relacionamento você quer entre você e seus filhos?

Quer uma troca de alegrias entre iguais em crenças e diferentes apenas em idade, ou quer uma criação que, pouco a pouco, tira o brilho dos olhos e o sonho do coração de quem cresce sob seus cuidados?

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Revivendo como eles

Refletindo nas palavras do grande Mestre, quando tentavam impedir os pequeninos de se aproximarem d’Ele:

“Deixai vir a mim os pequeninos, e não os embaraceis, porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham”.

Não os impeçais de irem até você, até seu coração e de te relembrar como devemos viver.

Filhos são o maior presente que podemos ter a uma altura da vida, em que em já sufocamos tanto nossos sonhos, que já não sabemos mais quais são, em que nos damos conta de que já nos perdemos tanto de nós mesmos, que já não somos mais capazes de sorrir com aquele arroubo de alegria que só as crianças fazem, de dançar como se ninguém estivesse olhando, de termos senso de humor, de perdermos tempo com essas coisas essenciais.

Não façamos com eles o que permitimos que fizessem conosco. Basta seguirmos os exemplos deles de encantamento com a vida e lhes darmos o exemplo de quem transformou aqueles sonhos de infância em realidade, de quem largou tudo o que não era seu, acreditou em si mesmo e seguiu adiante.

Agarre a oportunidade de resgatar sua criança interior e abraçá-la, curando-a de todas as feridas, encorajando-a a confiar na vida, novamente e sempre. É o que estou fazendo. 😀

Acredite: você nasceu para ser feliz.

Com amor.

“Love, love, love
Love, love, love
Love, love, love”.

 

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