Só o que importa é o amor que a gente dá

Tempo de leitura: 3 minutos

Com três filhos, sem pais presentes, com a família morando longe, muitas vezes me questiono:e se eu faltar?

Não nego que esse seja o meu maior medo.

Haveria tempo para eu gravar-lhes alguns vídeos, escrever-lhes algumas cartas, despreocupar-me de tudo e estar inteiramente com eles dias a fio até que toda a minha culpa se esvaia e o meu amor por eles transborde até penetrar-lhes o ser para sempre, banhando-lhes todos os corpos para que permaneça com eles, fortalecendo-os tanto quanto precisem, até quando nos reencontremos de novo?

E se não? O que me restaria? Nada além do agora.

Essa vem sendo a minha grande lição.

É essa certeza que me faz deitar com cada um deles todas as noites até que adormeçam. Abraçando-os aqui, entrego-os a quem os abrace de lá. Lembro-me das tantas vezes que fazia isso com pressa, reclamando quando bagunçavam na hora incerta. Hoje lamento pelo passado e sinto saudade todas as vezes que os percebo entregues, mesmo que esse seja o único tempo que possuo no momento para escrever.

É saber que só tenho o presente, que me faz a cada dia mais vigiar se o meu olhar está nos olhos deles quando falam comigo e se nessa hora consigo minha mente silenciar.

É essa certeza que me faz controlar meus impulsos nervosos quando começo a esbravejar, contornar meus próprios vulcões e me dirigir a eles para ensinar-lhes os limites, os feitos e as consequências, em mais paz.

É pensando nisso que acho que mais vale deixarem se sujar a pensar no trabalho que terei de limpar.

É pensando nisso que encontro tempo para dançar com eles na sala, mesmo quando a há comida no fogo, chão sujo e roupas demais pra lavar.

É por isso que enquanto cozinho deixo que a do meio “lave a louça”, que tanto gosta de lavar, mesmo que depois eu tenha um serviço a mais pra fazer.

É por isso que a mais nova me acompanha em todos os cômodos da casa, na lavanderia enquanto estendo roupas, no jardim enquanto rego as plantas, nos quartos, no banheiro.

É sabendo disso que nunca mais evitei o olhar do choro e do chamamento, porque não há nada mais importante a fazer que acolher um filho quando está em apuros… a não ser que mais de um esteja no mesmo momento, o que é muito comum quando se tem três pequenos.

Mas apesar desses lances de consciência, ainda não possuo a consciência plena, pois caio vezes demais nos entornos… vezes demais pra aceitar. Sigo buscando me conhecer cada vez mais pra me livrar das minhas obscuridades, que me fazem tropeçar em quem não merece, em quem merece a minha proteção, orientação e amor somente. Sigo rezando para que eu me livre da mania de controlar o que não tem controle, pra que eu consiga desapegar do que só faz tropeçar e para que eu confie cada vez mais na inteligência infinita, pois como já disse meu poeta barroco favorito:

“Mui grande é o Vosso amor e o meu delito;

Porém pode ter fim todo o pecar,

E não o Vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a acreditar

Que, por mais que pequei, neste conflito

Espero em Vosso amor de me salvar.”

(Gregório de Matos Guerra)

Escrito em 2 de janeiro de 2016.

 

Deixe uma resposta