O que FALTA para AMAmentarmos MAIS

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Desde que tomei ciência de que a média de amamentação exclusiva no Brasil é de apenas 54 dias, sendo que o recomendado pela OMS e pelo Ministério da Saúde é de 6 meses de aleitamento EXCLUSIVO (estendido até dois anos ou mais), resolvi questionar: Por que o Brasil amamenta tão pouco? Tão pouco, digo, com relação ao ideal, não em comparação com o resto do mundo.

Bom, eu sei a resposta, todas nós que amamentamos sabemos. Mas pouco ou nada sabem (ou preferem não saber), aqueles que podem ajudar a mudar essa parca média de 54 dias de amamentação exclusiva.

Recentemente, um estudo publicado na publicação médica britânica The Lancet  apontou o Brasil como país referência mundial em aleitamento materno, com média de 14 meses de aleitamento estendido. É uma boa notícia notarmos que somos referência? Sim, contudo devemos nos atentar ao principal: o tempo ideal de aleitamento materno é de 24 meses ou mais.

Sabendo dos inúmeros benefícios da amamentação pelo tempo indicado pela Organização Mundial de Saúde e dos temíveis males da carência dela para uma pessoa durante toda a sua presente jornada, meu desejo é que cada vez mais pessoas se mobilizem para que as mães AMAmentem mais seus filhos, assim mesmo, com o AMA em maiúsculo, porque amamentar é mesmo um ato de amor, e, para darmos algo, temos que primeiro ter esse algo pra dar.

Caso você desconheça os inúmeros benefícios da amamentação conforme orientada pela OMS, vou citar alguns ao longo do texto.

Ana Julia mamando
Anita e a pega correta, na primeira mamada da vida. (Junho/2012)

 Amamentar por mais de 6 meses faz bem à saúde mental da infância à adolescência, segundo estudo coordenado pela Universidade do Oeste da Austrália. Segundo os pesquisadores, substâncias presentes no leite (como a leptina) ajudam a combater o estresse. O contato e o vínculo entre mãe e filho promovido pelo aleitamento também têm um efeito positivo no desenvolvimento psicológico da criança. (Fonte: Crescer)

Pra começar, eu gostaria de esclarecer que foi bastante trabalhoso pra mim amamentar meus três filhos (com fases muito difíceis), e continua sendo uma tarefa que exige bastante dedicação e energia, já que eu continuo amamentando minha filha mais nova e pretendo continuar por mais ou menos o dobro de meses do que ela já mamou (ela está com 13 meses agora e eu com 53 de amamentação).

A minha maior dificuldade em amamentar não se deveu, nem se deve, às mastites, rachaduras, febres, furos, dutos entupidos, “empedramentos”, etc que eu tive, mas sim às grandes culpadas pela maioria das mães desistirem da amamentação antes do tempo ideal. Já sabem quais são?

Pesquisas sugerem que crianças amamentadas, quando submetidas a testes neurológicos, incluindo a medida do quociente de inteligência (QI), têm uma pequena vantagem em relação às não-amamentadas. (Fonte: gestantesaudavel)

Pausa para mamada
Estela babando leite, em pausa para mamada durante viagem, aos quase seis meses. (Julho/2015)

Já foi demonstrado que o leite materno pode proteger em longo prazo a adultos de alergias, obesidade, colite, alguns tipos de câncer ou asma. (Fonte: guiainfantil)

Assim, eu decidi escrever esse texto pra quem quer enxergar os fatos:

FATO 1: a melhor atitude de nutrição (em todos os seus aspectos) de uma mãe para com um filho é amamentá-lo.

FATO 2: as mulheres no Brasil o fazem muito pouco por falta de APOIO (mais que por falta de informação).

FATO 3: as indústrias de fórmulas e alimentos infantis se aproveitam dessa falta de apoio às lactantes e suprem a falta (de força) com PRODUTOS. Aproveitam-se, inclusive, da falta de informação, e fortalecem a desinformação.

Dito isso, vamos questionar crenças?

Amamentar é um ato de amor. Sim, o é, mas canso de ouvir essa máxima que recai apenas sobre a mãe, dando a impressão de que se a mãe não amamenta é porque não ama seu filho. Acredito que não é massacrando a mãe que se doa sozinha e sem apoio suficiente que vamos conseguir amamentar mais nossas crianças e futura nação. Se assim fosse, teríamos conquistado uma média de amamentação bem mais satisfatória até o momento e não esses míseros quase dois meses de aleitamento exclusivo.

Apoiar a lactante é um ato de amor. Essa é a nova ideia que temos que difundir, porque para AMAmentar temos que ser nutridas também, não só de água e alimento físico mas de apoio e atenção, principalmente. Claro que existem as “raçudas” como eu, que não tiveram apoio do companheiro ou de quem quer que seja para seguir amamentando o considerado necessário e mesmo assim o fizeram, fazendo das fibras coração e vertendo amor líquido, mesmo sem receber apoio. Mas, cada um é cada um sempre tem alguém em situação pior que a nossa e todos temos limites diferentes. O fato sobre toda a questão, todavia, é um só: com apoio é mais fácil.

Fernandinho mamando com 6 meses
Fernando com 6 meses… de aleitamento exclusivo. (Setembro/2009)

Para as nutrizes, a amamentação previne fraturas por osteoporose, artrite reumatóide e esclerose múltipla. (Fonte: gestantesaudavel)

Eu não decidi escrever esse texto para desconstruir mitos. Há muitos textos que contém todas as informações científicas necessárias para se provar que o leite materno é inigualável a qualquer fórmula que existe no mercado, embora os mitos do leite fraco e afins contribuam para que as brasileiras não amamentam o suficiente. E não quero falar para o 1% de mulheres que, de fato, não pode amamentar por motivos físicos, porque existem muitas informações científicas para respaldá-las e preservá-las da culpa, e também não quero falar para as mulheres que não querem amamentar acima de qualquer informação arrebatadora acerca do néctar divino que é o leite materno e do ato de amor e de cura que é amamentar, tanto para o bebê quanto para a mãe. E, mais ainda, não quero fazer “discurso elitista” de que é só querer pra fazer.

Então, esse texto é para apoiar as mulheres que querem amamentar mais que a média brasileira, mas que não têm força, ânimo, descanso necessários para deixar o leite jorrar, para deixar o amor fluir em forma física através do seu chacra coronário, se auto-alimentando de amor e fornecendo o excedente desse amor em líquido para o seu filho. Mas acima disso, é direcionado para os pais, familiares, amigos, empregadores, sociedade como um todo que não apoiam ou que o fazem de forma insatisfatória, para os que:

– não têm que amamentar em jejum (após amamentar a noite toda) e sentir muita fome, antes de colocar qualquer alimento na boca.

– não sentem sede e, muitas vezes não conseguem buscar um copo d’água, porque possuem em seu colo um bebêadormecendo.

– não têm que levantar muitas vezes à noite para, além de amamentar, beber água e urinar o excedente.

– não sentem sono, fadiga (mental inclusive) e dores no trabalho, seja em casa ou em empresa, por muitos meses e até anos, por não dormirem o suficiente, porque amamentam de madrugada e não conseguem compensar o sono durante o dia.

– não podem se afastar de outro ser por mais de 1 ou 2 horas por seis meses, a não ser que tirem e estoquem leite antes e nem pode ir e vir, a todos os lugares que quiserem, pelo bem dele.

Leite materno é economicamente vantajoso para a família, que não tem que investir uma grande quantidade de dinheiro por ano em leite artificial, em torno de R$250,00 por mês, R$3.000,00 por ano, no primeiro ano de vida. Isso sem contar com as mamadeiras, limpadores especiais ou energia necessária para esterilizar todo o material do bebê. 

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O leite da esquerda é o normal, enquanto o da direita foi produzido depois do resfriado do bebê. O leite de Mallory mudou a coloração da noite para o dia. Clique para ler a matéria.

O leite materno protege as crianças contra doenças crônicas tais como Diabetes Mellitus tipo I, doenças cardiovasculares, doença celíaca, doença de Crohn, obesidade e linfoma infantil. (Fonte: gestantesaudavel)

Amamentar, como vemos até aqui não é apenas dar o seio para o outro mamar, afinal, o que o bebê irá mamar se suas mães não estão alimentadas, hidratadas, descansadas e nutridas de amor? Sem recebermos o que também necessitamos de outras fontes, temos que abdicar das nossas próprias necessidades para darmos para o nosso bebê. Só que, na maioria dos casos, a fonte seca (literalmente até) e amamenta-se menos, delegando a alimentação dos seres humanos a uma fórmula industrial muito inferior, extraída de outro animal ou da soja (que nunca na história serviu para alimentar bebês) e outros vegetais, e sem anticorpos, nutrientes e amor humanos.

Vivemos num mundo yang, machista, em que as mulheres estão na condição de exploradas, sacrificadas. Ninguém se dói por uma mãe trabalhar o dia todo e acordar a noite toda pra amamentar, enquanto muitos pais (e também avós, tios, padrinhos, etc) do filho nem se dão conta disso, afinal, é papel da mulher que quer amamentar! Se quer, que banque! Não é mesmo? Por essa crença é que não chegamos à média de amamentação ideal. Na maior parte dos casos, apenas a mãe está dedicada a alimentar o seu filho com o que há de melhor: seu próprio leite, que pode e deve ser nutrido por todos ao seu redor.

 Amamentar protege a mãe contra o câncer de mama e de ovário e reduz o risco de a mulher desenvolver síndrome metabólica (doenças cardíacas e diabetes) após a gravidez, inclusive para aquela que teve diabetes gestacional; segundo estudo publicado na American Journal of Obstetrics.

Pra finalizar, o que eu queria fortalecer aqui é que o que falta para que as brasileiras amamentem mais são, apenas, duas coisas: APOIO E INFORMAÇÃO.

O pai que apóia a mãe que amamenta, ama o filho, a família que apoia a mãe que amamenta, ama seus descendentes, a sociedade que apoia a mãe que amamenta zela pelos seus cidadãos e pelo meio ambiente, já que amamentar é (como parir naturalmente) um ato de sustentabilidade.

A informação arrebatadora sabe, daquelas capazes de fazer pessoas se mexerem para buscarem um copo d’água ou providenciarem um assento pra lactante, mas, sobretudo, e, principalmente, criarem espaços nos locais de trabalho para amamentação e ordenha e se mobilizarem a favor de leis que favoreçam a amamentação por mais tempo, conforme essas que vieram ao longo do texto, devem ser amplamente difundidas por nós, parcela da sociedade que tem consciência do quanto é benéfico para todos, que todos sejamos mais amamentados.

 A grande vantagem do aleitamento materno é que protege o bebê contra catarros, meningite, otite, bronquiolite, pneumonia, diarréia e outras doenças. (Fonte: guiainfantil)

E, como podemos fazer isso? Através das nossas conversas e atitudes diárias, na rua, no trabalho, nas esperas, nas redes e aplicativos sociais.

Com apoio e informação, a indústria de fórmulas e farinhas enriquecidas com o seu rico dinheirinho para engrossar o caldo da mamadeira fica sem função e logo teremos uma licença-maternidade maior que seis meses (que possibilitará que os seis meses iniciais da licença sejam de aleitamento exclusivo) e uma licença-paternidade suficiente para apoiar a mãe e facilitar a paternidade ativa desde o início, e não a piada de cinco dias que é.

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O ato de amamentar diminui os níveis de colesterol total, colesterol LDL e triglicerídeos, enquanto os níveis de HDL se mantêm elevados, bem como melhora do metabolismo dos carboidratos das lactantes. (Fonte: gestantesaudavel)

Todos os textos destacados, como o que está no parágrafo acima, fazem parte do que eu quis que você soubesse (INFORMAÇÃO), para que fizesse o que diz todo o resto (APOIAR).

Por um mundo de mães e filhos nutridos com o que há de melhor: leite materno e amor.

Com amor.

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Clique aqui se quiser baixar o Manual de Aleitamento Materno da UNICEF.

3 Comentários


  1. Tive minha filha com 44 anos de idade. Trabalhava cerca de 90 horas por semana. Por ocasião do parto tive 120 dias de licença, e depois disso voltei à mesma carga horária. Amamentei exclusivamente até os 4 meses, depois iniciei com papinhas e sucos. Mesmo com minha carga horária consegui amamentar até os 21 meses e 15 dias. Ela deixou o peito espontaneamente, um dia disse que não queria mais. Chorei. Mas só consegui isso com o apoio total e incondicional do meu marido e dos meus colegas de trabalho, todos homens. Eles cobriam o tempo de amamentação mesmo quando eu não tinha mais direito aos 30 minutos diários. Eles facilitaram a minha vida e a da minha filha. Considero-me privilegiada por ter tido tamanho apoio, gostaria que isso não fosse privilégio, mas condição comum para todas as mulheres que amamentam. Minha filha tem 7 anos de idade e só tomou antibiótico uma vez na vida. Hoje trabalho apenas 30 horas semanais para curtir o que não curti quando ela nasceu. Estou feliz como nunca.


    1. Que linda historia Rosi! E que colegas conscientes vc teve… Acredito que esse tipo de atitude só vai aumentar com muita difusão de informação, como estamos fazendo agora. Gratidão por compartilhar aqui. Com certeza vai ajudar a clarear. Abração!


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