Aos meus filhos

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Eu não sou a mãe que “mata os peixes”, sou aquela que enche o apartamento de plantas e adota dois gatos, tenta dar conta de tudo mas vive deixando vocês abrindo a porta da geladeira mil vezes procurando coisa porque não fez mercado, nem compra quase porcaria… a mãe natureba apressada.

Perdão meus filhos. Eu não sou a mãe que mima, deixo isso para a avó de vocês. Mas, sabe de uma coisa? A avó de vocês, quando era minha mãe, também não tinha tempo pra me mimar, e quem fazia isso era a minha avó Estrella, a bisa de vocês.

Mas, umas coisas importantes eu aprendi convivendo com a minha mãe sem ela dizer uma única palavra.

Ela quase não reclamava, mas sempre me parecia muito triste e cansada e, muitas vezes, eu achava que a culpa era minha… mas pior do que sentir aquela culpa confusa, era não ter a mínima ideia do que fazer para ajudá-la e deixar de ser um peso pra ela.

Uma das coisas que eu aprendi (muito tarde, por sinal), é que a culpa nunca é das crianças! Saibam disso. Nunca acreditem nisso porque não é verdade. Eu só descobri isso quando virei adolescente, mas só tive certeza mesmo quando virei mãe. Outra coisa que aprendi com ela, vendo-a triste e cansada, é que a gente não pode abandonar os nossos sonhos.

Sempre que eu perguntava pra ela o que ela queria ser quando ela era criança (porque sem saber de nada, só sentindo tudo como as crianças sabem fazer, eu queria desenterrar a alegria dela), ela me respondia que queria ser bailarina, e sorria um pouco, ainda meio triste.

Então eu decidi, num momento da minha vida, quando eu percebi que eu estava tendo uma vida parecida com a dela, de trabalhar trabalhar, criar filho sem ser feliz, um tempinho depois que você, Fernando, nasceu, que eu ia viver de outra maneira, pra tentar ser feliz.

Só que, como eu não tinha aprendido isso em casa, com meus pais, muito menos na escola, eu fui tentando encontrar a felicidade por uns caminhos desconhecidos e, às vezes, bem tortos na vida, como se eu tivesse num labirinto. Às vezes, parecia que eu tinha escolhido um caminho que ia me levar pra um lugar legal, mas passava um tempo e eu dava de cara com um paredão, num beco sem saída, e tinha que voltar para trás para tentar outro caminho.

E fui andando assim até o dia em que aprendi que ser feliz e viver nossos sonhos é algo que a gente não tem que tentar, mas decidir, igual as crianças fazem quando decidem ir ao parquinho, ou quando decidem a brincadeira do momento.

O lema da Cinderella moderna está certíssimo: a gente tem que ter coragem e ser gentil. Quando a gente para de ter medo, de hesitar andar pelo desconhecido caminho dos nossos sonhos (desconhecido porque é só nosso, ninguém no mundo jamais andou por ele antes, por isso é tão especial!), a gente não está mais num labirinto, o cenário muda como num passe de mágica e somos transportados para um campo aberto, e tudo fica mais claro.

Não que, de repente, tudo fique fácil, nada disso. A Cinderella, por exemplo, ralou muito, o Tony Stark atraiu ainda mais inimigos e a Rapunzel teve que aprender a andar no chão. Dá um trabalhão ainda (como o livro que a mamãe tá escrevendo). Mas a diferença de andar com coragem, amor e liberdade é que esse jeito de andar nos traz alegria, faz o coração bater forte, porque traz novidades o tempo todo e faz a gente construir uma coisa bonita, que pode ser admirada por outras pessoas e que pode ajudá-las a ouvir o coração delas e seguir o caminho da alma delas. 

Jesus nos ensinou a não por a nossa candeia sob o alqueire, que quer dizer a mesma coisa que não colocar a luz da nossa alma escondida debaixo do cobertor… Quando deixamos nossa luz brilhar, iluminamos e ajudamos a todos que estão perto de nós, assim como fez o Groot em Guardiões da Galáxia.

Então, pra resumir, o que eu queria dizer pra vocês são duas coisas: PERDÃO E ATENÇÃO!

Eu sei como deve ser difícil pra vocês ter uma mãe que escreve livros que tomam o tempo dos filhos, porque tem que pesquisar e precisa de silêncio que toma o tempo da conversa e do compartilhar. Perdão porque deve ser quase insuportável ter uma mãe jornalista ativista, que perde muito tempo fazendo campanha, escrevendo notícias, só pra ver o povo entender melhor e sem ganhar dinheiro a mais pra gente passear no fim de semana.

Vocês são filhos de uma nova era e eu me sinto no dever de ser aquela que vai resolver a transição , quebrar com os fantasmas do passado pra não deixar eles avançarem pra era de vocês… Perdão porque não sou a mãe que vai ralar pra fazer dinheiro pra gente viajar no fim do ano ou pra levar vocês na Disney (apesar de eu já ter ido ao castelo da Cinderella), ou pra torrar tudo no shopping no final de semana.

Eu sou a mãe chata que critica vídeo-game, minimalista compulsiva, que dá livro de ciência e mitologia, e insiste que não precisam de 90% dos desejos que despertam em vocês através das propagandas.

E sou a mãe sortuda também, porque vocês já se afeiçoaram à leitura, à pintura (que tomou as paredes e portas do apartamento) e ao brincar sem tecnologia. Tenho muita sorte de poder trazer mais música pra vida de vocês e tenho sorte de deixar escrito em palavras o que não sei explicar dizendo, hoje, pra vocês.

Agora sobre a ATENÇÃO:

Não dá pra ter tudo o tempo todo. Tem dias que eu sou a mãe que acerta a mão na cozinha, tem dias que ou come o que tem e tá ruim ou abre a geladeira mil vezes pra ver se uma mágica acontece. (Mas dá pra ter tudo a seu tempo).

Apesar de eu errar muito, o que eu quero mesmo do fundo do coração que vocês vejam, é que eu sou uma mãe que vive os sonhos e incentiva vocês a viverem os seus, mesmo sendo só eu e vocês e vocês sentirem falta de mais da minha atenção, da comida boa todos os dias e de mais coisinhas caras do que eu consigo dar.

Eu sei que vocês sentem falta, mas toda frustração fortalece e ensina a gente a conquistar por nós mesmos. Se eu não viver o que está no meu coração, eu é que irei faltar e ficarei triste, igual minha mãe era, e eu acho que isso é o que as crianças menos querem: uma mãe triste.

Não que eu tenha deixado totalmente de ser triste ou irritada. Muitas vezes eu sou essas coisas que assombram todo mundo. Eu sou também a mãe louca que quer dar conta de tudo e às vezes dá conta de quase nada e até fica doente. Peço perdão por esses momentos também, porque é nessas horas que eu falho… e, como toda mãe-heroína, eu não gosto de falhar, me arrependo muito e choro, como agora escrevendo isso tudo… e, muitas vezes, depois que vocês dormem.

Mas, apesar disso também, eu tenho meu momentos felizes e estou construindo um sonho importante pra mim, e é isso que eu quero que vocês façam da vida de vocês, que vocês sigam o que está no coração de vocês, o que traz alegria, o que pode fazer bem a outro alguém também.

É difícil e nem todo dia a gente consegue dar conta de tudo da vida (e do sonho também), mas o importante é continuar se guiando pelo coração com coragem e gentileza (endurecer sin perder la ternura jamás). Uma vida sem sonhos é mais fácil, mas é mais pesada e não faz sorrir.

Não virem zumbis por um tempão como eu virei, achando que o sonho era difícil ou que não era o meu destino. O sonho é o caminho e o nosso tesouro está sempre onde está nosso coração (como ensinou Paulo Coelho em O Alquimista). Não se abalem com a geladeira vazia às vezes, porque  além de isso fazer a mamãe correr no McLixo que vocês adoram, o importante é não deixar o coração esvaziar, negando o sonho que pulsa dentro dele.

É com essas pedrinhas do caminho, chamadas frustrações, que a gente vai firmando nossa estrada e juntando pra construir nosso castelo do amanhã.

Com amor infinito,

Mamãe.

 

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